Setembro nos convida a falar sobre saúde mental, prevenção ao suicídio e valorização da vida. Mas falar sobre esses temas não pode ser um exercício restrito a campanhas, cartazes ou mensagens nas redes sociais. Precisamos também olhar para as violências cotidianas que são naturalizadas e que podem produzir sofrimento profundo. Entre elas, está uma que cresce rotineiramente: a violência praticada nas redes.
Vivemos um tempo em que qualquer pessoa que ocupa um espaço público pode se tornar alvo de ataques, julgamentos e humilhações. No Carnaval, isso não é diferente. Intérpretes, músicos, passistas, dirigentes, artistas, trabalhadores e tantas outras pessoas que fazem a festa acontecer estão constantemente expostos à opinião pública.
O problema começa quando a crítica deixa de ser crítica e passa a ser perseguição. Quando perfis falsos são criados para atacar alguém, quando mentiras são repetidas até parecerem verdades e quando uma multidão virtual transforma uma pessoa em alvo, não estamos mais diante de uma simples divergência de opiniões. Estamos diante de violência.
Por trás de uma tela existe uma pessoa. Existe uma história, uma família, sonhos, medos, responsabilidades e, sobretudo, uma saúde mental que não é blindada pela fama, pelo cargo ou pela exposição pública. É preciso lembrar disso antes de compartilhar uma ofensa, alimentar uma campanha de ódio ou transformar a vida de alguém em entretenimento.
Aquilo que, para quem publica, pode parecer apenas uma postagem ou um comentário pode representar, para quem recebe, mais uma camada de sofrimento em um momento já difícil. Como presidenta de uma instituição que carrega quase um século de história e que tem na cultura, na comunidade e na coletividade seus maiores valores, acredito que precisamos construir outra lógica.
O Carnaval é território de paixão, disputa, crítica e emoção, mas também precisa ser território de cuidado. Não podemos permitir que a paixão pelo samba seja usada como justificativa para desumanizar quem está do outro lado. Valorizar a vida também significa cuidar da forma como nos relacionamos uns com os outros.
Significa perceber quando uma brincadeira ultrapassa o limite, quando uma crítica se transforma em perseguição e quando o silêncio de quem sofre precisa ser acolhido, não explorado. Significa entender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza e que nenhuma pessoa deveria enfrentar sozinha uma onda de violência.
Que o Setembro Amarelo nos ajude a ampliar essa conversa. Que a valorização da vida não seja apenas um lema durante um mês, mas uma prática cotidiana. E que, dentro e fora das redes, possamos escolher mais vezes a empatia em vez do ataque, o diálogo em vez da perseguição e o cuidado em vez da indiferença.
Porque, antes de qualquer cargo, título, escola de samba, profissão ou personagem público, somos pessoas. E nenhuma disputa, nenhuma opinião e nenhum Carnaval pode ser maior do que uma vida.
