2 de setembro de 2026
Produzir não basta: o desafio de garantir comida no prato em tempos de crise climática
As mudanças climáticas e as tensões geopolíticas tornam esse desafio ainda mais evidente.
Por Emiliano Graziano, Diretor de Desenvolvimento Institucional do Instituto Fome Zero
Ter comida no prato depende de muitos fatores: clima, preço do petróleo, guerras, renda, logística e infraestrutura. As crises globais atingem a merenda escolar, os mercados locais, as feiras livres e as comunidades. O Brasil é uma potência agrícola, florestal e também em políticas públicas. Ainda assim, enfrenta problemas graves, como corrupção, insegurança alimentar, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, e despreparo diante das emergências provocadas pelas mudanças climáticas.
Essa realidade mostra que produzir bem não basta para garantir segurança alimentar. É preciso proteger o acesso da população brasileira a uma alimentação saudável, com comida de qualidade e em quantidade suficiente para todos.
As mudanças climáticas e as tensões geopolíticas tornam esse desafio ainda mais evidente. Já não é possível analisar os diferentes aspectos da crise alimentar global de forma isolada. Como ensinou Josué de Castro, a fome não é uma fatalidade da natureza, mas uma construção política, econômica e social.
A fome aparece quando a renda é insuficiente, quando a comida fica mais cara, quando a produção local falha e quando as políticas de abastecimento não funcionam. Ela também se agrava quando as políticas públicas não criam sistemas de proteção social capazes de agir antes que os danos aconteçam.
As crises não ficam restritas aos gabinetes. Enchentes, terremotos e outros eventos extremos atingem populações locais, pressionam os mais vulneráveis e afetam cadeias inteiras de abastecimento. Quando a comida precisa percorrer longas distâncias entre a produção e o consumo, cada falha logística amplia os impactos da crise.
Isso não significa escolher entre os interesses das comunidades locais e os desafios do planeta. Significa reconhecer que as respostas precisam passar por políticas públicas capazes de gerar renda, ampliar o acesso a alimentos saudáveis, fortalecer a resiliência climática e promover a inclusão.
Um estudo recente do Instituto Fome Zero mostrou que o Programa de Aquisição de Alimentos, o Programa Nacional de Alimentação Escolar e o Bolsa Família têm ampla cobertura e legitimidade. No entanto, esses programas ainda precisam incorporar mecanismos de antecipação e proteção social para agir antes que os desastres ocorram.
Esse problema também aparece no regime orçamentário brasileiro, que ainda não conta com gatilhos antecipatórios nem com uma abordagem organizada por camadas de risco. Em geral, o país atua depois que os impactos já ocorreram. Por isso, a proteção social antecipatória é uma resposta importante para melhorar a preparação do Brasil diante das mudanças climáticas e de eventos como o El Niño.
O principal gargalo brasileiro não é técnico, mas político. A prevenção costuma ser mais eficiente e mais barata do que a reparação. Investir antes da crise reduz perdas econômicas, sociais e humanas.
Para avançar, o Brasil precisa fortalecer circuitos curtos de abastecimento, alinhar políticas públicas aos interesses locais e coordenar políticas sociais com prevenção climática e gestão de riscos. Também precisa ampliar seguros, estoques reguladores, capacidade de armazenamento e uma logística mais planejada.
Uma agenda nacional pode se organizar em quatro dimensões. A primeira é a proteção social antecipatória, para garantir renda e acesso a alimentos saudáveis. A segunda é o abastecimento, com foco em estoques, infraestrutura e logística. A terceira é o fortalecimento da agricultura familiar, da produção local e da agroecologia, além da manutenção de uma alimentação escolar de qualidade, com quantidade e abrangência. A quarta é uma diplomacia climática capaz de unir o combate à fome, a prevenção de riscos, o desenvolvimento territorial, a governança democrática e a justiça climática.
No fim, conciliar o local com o global também significa organizar políticas públicas para proteger vidas antes que as catástrofes aconteçam.
