Lucas Drummond: “Personagens moralmente falhos me interessam cada vez mais nas narrativas queer”

Portal Inhaí
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Por Kaio Phelipe

Em Apenas coisas boas, de Daniel Nolasco, Lucas dá um passo importante nessa trajetória ao assumir seu primeiro protagonista em um longa-metragem. O resultado é um personagem complexo, que permite ao ator refletir sobre o interesse crescente por personagens queer que escapam dos papéis idealizados e revelam suas próprias falhas e contradições. O filme também marcou o início de uma parceria com Nolasco, que continua em Pequenas tragédias, próximo longa do diretor, que irá estrear em setembro, durante o Festival de Brasília.

Lucas também vive o desafio de conciliar cinema, teatro e produção. Em cartaz com O formigueiro, espetáculo que se aproxima de um ano de temporada e que ele também produz, o ator trabalha na adaptação da peça para o cinema e se prepara para ver novos projetos ganhando o mundo, entre eles Pequenas tragédias, filme com Daniel Nolasco, e Pacman, seu primeiro curta como diretor.

Em entrevista para a Mídia Ninja, Lucas Drummond fala sobre a parceria com Nolasco, o processo de construção de seu trabalho e a importância de ampliar a representação queer no cinema, com histórias que não sejam de sofrimento e rejeição.

Como foi viver o protagonista de Apenas coisas boas?

O primeiro protagonista em um longa-metragem é um momento muito importante na vida de qualquer ator que quer, de fato, se dedicar ao cinema e ao audiovisual.

Eu sou de uma família muito cinéfila, cresci vendo filmes. Então, entrar nesse mundo sempre foi um grande desejo, um grande sonho. Isso começou a se concretizar quando fiz O paciente, do Sérgio Rezende, em 2018. Logo depois, comecei a escrever e a produzir, porque senti que isso era uma forma de me inserir cada vez mais nesse mercado. Foi com Depois daquela festa, meu primeiro curta, que os festivais abriram as portas para mim. O filme foi selecionado para 62 festivais, em 26 países, e recebeu dez prêmios. Esse projeto me possibilitou, pela primeira vez, participar de festivais de cinema com uma obra que eu tinha criado, que tinha a minha assinatura também na história, para além do trabalho de ator.

Apenas coisas boas, com certeza, é um marco na minha trajetória. Ser protagonista é uma responsabilidade, porque grande parte do sucesso ou do fracasso do filme está nas suas mãos. E foi um projeto que surgiu na minha vida de uma maneira muito curiosa. Eu já conhecia o trabalho do Dani. Tinha assistido a Vento seco e fiquei muito fascinado. É um filme que aborda a vivência queer em uma cidade do interior do Centro-Oeste brasileiro de uma maneira tão bonita… A forma como o Daniel explora o desejo é uma coisa que me interessa muito. Seja ele mais ou menos fetichizado. E com uma fotografia linda, né? Eu fiquei muito encantado.

Lembro de escrever uma mensagem para o Dani no Instagram, falando que tinha gostado muito do filme. Nós nunca tínhamos nos falado. Mas, curiosamente, o Dani é meu vizinho. Ele mora muito próximo de mim, em Botafogo.

Daí, ele me contou que tinha pensado em mim para um personagem em O cavalo de Pedro, que foi o curta que ele dirigiu entre Vento seco e Apenas coisas boas. Mas eu estava fazendo um espetáculo na época, chamado Órfãos, que inclusive era uma produção minha também, e o personagem que eu fazia tinha cabelo grande. E aí, o cabelo grande não tinha a ver com o personagem do curta. Então, quando Apenas coisas boas surgiu, ele mandou uma mensagem para o Kássio Pires, o produtor de elenco, dizendo: “Vê se o Lucas Drummond já cortou o cabelo”. Nessa mesma tarde, ele foi a um cinema próximo, e quem estava lá, na mesma sessão? Eu! Quando ele me viu, mandou uma nova mensagem pro Kássio: “O Lucas cortou o cabelo, pode chamar ele pro teste.” Diz ele que me cumprimentou e que eu o ignorei. Ele adora contar essa história. Mas eu não o vi. Imagina! Logo depois, eu fiz o teste para Apenas e fui escolhido para o papel.

O Daniel é um gênio. Construímos uma relação de parceria e hoje somos grandes amigos. A parceria deu tão certo que ele me convidou para Pequenas tragédias, próximo longa dele, que estreia agora no segundo semestre.

Uma das grandes virtudes do Dani como diretor é a objetividade. Ele sabe exatamente o que quer e sabe traduzir isso muito bem para os atores. A comunicação com ele sempre foi fácil, a gente se entendeu bem desde o início.

Ele é um diretor que ensaia muito. Eu, particularmente, acho isso ótimo, porque a gente chega no set sabendo exatamente o que fazer. Como já sabíamos exatamente o que precisava fazer, ficamos muito à vontade, e aí surgem os momentos mais preciosos. Eu acredito que, quando os atores estão à vontade, eles sabem o que precisam entregar, a gente fica livre para o inesperado.

Em Apenas coisas boas, tivemos um processo de preparação bastante rico: uma semana na sala de ensaio, em Goiânia, e depois uma semana de imersão na fazenda, na própria locação onde a gente ia filmar a casa do Antônio. Isso foi essencial para o meu processo, para que eu pudesse treinar todas as minhas habilidades de caubói, rs. Então, eu acordava de manhã, descia para o curral, ordenhava as vacas, até porque eram as próprias vacas do filme, para que elas se acostumassem com a presença.

Filmar com animais é uma coisa muito particular, porque bicho você não controla, né? Então, essa semana de ensaios na locação foi fundamental para que as vacas se acostumassem com a minha presença, com o meu toque, para que a gente pudesse filmar a sequência inicial do filme, que é a ordenha.

Essa era a rotina: todos os dias eu ia para o curral, tirava leite, botava o leite para coalhar, depois fazia queijo, depois andava a cavalo, tinha aulas de tiro. Eu não sabia fazer nada disso, então, se eu convenci o público, foi graças a esse processo de ensaios.

Qual é a importância de contar histórias queer em 2026?

O cinema queer está ganhando cada vez mais espaço e, cada vez mais, a gente está podendo explorar personagens diferentes do que estamos acostumados a ver nas narrativas dedicadas a filmes LGBT+.

É importante a gente falar sobre isso. A gente costuma associar filmes queer a filmes que têm narrativas LGBT+, mas queer significa um pouco mais do que só ter uma narrativa ou um personagem da comunidade, né? Significa romper com padrões heteronormativos, fazer um cinema que, de alguma forma, é disruptivo e que vai contra esses padrões heteronormativos que o cinema está acostumado a adotar.

Então, eu acredito que, do ponto de vista da linguagem, é fundamental, porque é onde a gente pode experimentar. O cinema queer, por si só, é um cinema que já experimenta muito, que busca novas linguagens, que busca novas formas de fazer, para além da questão de sexualidade e gênero.

A gente está avançando cada vez mais, e eu espero que seja um processo que não retroceda, para que a gente tenha personagens gays, personagens da comunidade LGBTQIA+ cada vez mais complexos, que fujam de narrativas focadas no sofrimento e na rejeição. A gente ainda vê bastante essa questão da aceitação, essa questão do sofrimento associado a uma rejeição, a questão da descoberta da sexualidade.

Mas temos caminhado cada vez mais para a construção de narrativas em que os personagens são complexos, personagens moralmente falhos e contraditórios. E eu acho que isso é o que mais me interessa, como ator e como espectador.

Eu acho, por exemplo, que o Antônio carrega isso. Ele é um personagem que, na primeira parte, o público se apaixona completamente. É um personagem romântico, que, talvez por conta da solidão que experimenta, até carregue ali uma pequena ingenuidade. E, ainda na primeira parte, a gente vê algumas nuances de que, futuramente, esse personagem vai passar por uma transformação. Quando a gente vê esse personagem 40 anos depois, a gente vê que é um personagem que ganhou uma certa amargura, que tem ali uma vontade de viver outras coisas e que está preso, de alguma forma, a essa relação. E aí ele faz coisas que o público até julga: ele abandona o cachorro, vai fazer pegação no mato.

Esse aspecto contraditório do personagem, moralmente falho, é uma coisa que me interessa ver cada vez mais nas narrativas queer.

Como é transitar entre o cinema e o teatro?

É um sonho. Poder transitar por essas duas linguagens é algo que eu sempre quis.

Eu comecei no teatro. O teatro é a minha casa, eu não vou abandonar o teatro nunca.

Então, estar em cartaz com um espetáculo no teatro e, ao mesmo tempo, estar protagonizando um filme nos cinemas é uma grande conquista. E são dois personagens bem distintos, o que é muito legal. Em O formigueiro, a gente não tem um protagonista absoluto. Todos os três irmãos são protagonistas, igualmente. É o tipo de texto com o qual todo ator sonha: uma boa história, com bons personagens e bons conflitos.

Estou vivendo uma experiência linda e única, que eu espero que se repita muitas vezes.

O formigueiro vai virar filme?

Eu e o Thiago Marinho, que é o autor de O formigueiro, estamos trabalhando em uma adaptação para longa-metragem. Nós temos uma parceria com a Costa Blanca Films, que é a produtora da Leila Savary.

Muitos anos atrás, Thiago e eu tivemos uma companhia de teatro, e a Leila fazia parte do grupo. Hoje em dia, ela não trabalha mais como atriz, mas segue trabalhando com arte, através da produtora.

Estamos em busca de financiamento para fazer esse filme. E o sucesso da peça dá ainda mais garra para a gente correr atrás dos recursos para filmar. Estamos batalhando muito para que esse filme aconteça, porque, além de acreditar muito nessa história, acho uma obra muito cinematográfica!

Flerta com outros filmes, como Deus da carnificina, do Polanski, e O convite, da Olivia Wilde, que também são adaptações de peças teatrais, que se passam em uma única locação, sem salto temporal, e em que a questão, o grande conflito dramático, está na relação dos personagens.

Esse estilo de filme me interessa muito. E, desde que o Thiago me apresentou o texto de O formigueiro, eu falei: “Cara, isso rende um filme maravilhoso!”.

A gente vai completar um ano em cartaz em outubro, praticamente sem interrupção. Em uma época de temporadas tão curtas, isso é uma raridade!

Desde que estreamos, circulamos muito pela cidade do Rio de Janeiro e por alguns outros municípios do estado, como Niterói e Volta Redonda, por exemplo. Isso foi muito legal, porque a gente conseguiu entender que o espetáculo toca pessoas das mais variadas realidades e vivências. Esse é um espetáculo que fala com todo mundo. Todo mundo se identifica de alguma forma, porque é uma peça que fala sobre família. O Marcos Caruso, quando assistiu, falou uma coisa linda, que para mim define muito bem este espetáculo: “Você ri, você se emociona e você reflete”. Tem coisa melhor que ir ao teatro e viver essa experiência?

Para o ano que vem, o plano é São Paulo e uma turnê por outras cidades do Brasil. Como o Rodrigo Fagundes está no ar em Quem ama cuida, decidimos esperar as gravações da novela acabarem para viajar com o espetáculo. Mas tudo vai depender de eu conseguir captar os recursos para as viagens. Eu trabalho como ator em O formigueiro, mas também sou o produtor do espetáculo. Então, é um trabalho dobrado. Aos finais de semana, atuo, mas, durante a semana, estou de segunda a sexta no escritório batalhando para que o espetáculo tenha uma longevidade. E, nesse sentido, fico duplamente feliz de ver o teatro enchendo, o público se divertindo e se emocionando, porque, de fato, é um trabalho árduo.

Foto: Isadora Relvas

Quais são seus próximos projetos?

Pequenas tragédias, novo longa do Dani, estreia no Festival de Brasília em setembro. O filme é uma espécie de documentário encenado, dividido em cinco capítulos, que mostra como a homofobia e o preconceito em Catalão-GO, cidade onde ele nasceu e cresceu, afetaram as vivências LGBTQIA+. Cada capítulo narra a história de um personagem real que fez parte da vida do Dani.

Eu faço o Samuel, um amigo de escola dele, que viveu com HIV por muitos anos e foi obrigado a esconder isso do mundo, por medo do preconceito.

É um filme bastante poético, que, apesar de trabalhar um tema tão delicado, o preconceito, tem muito humor também. É um filme com uma linguagem muito própria. Então, embora traga alguns elementos recorrentes do cinema do Daniel, acredito que as pessoas irão se surpreender.

Além disso, tenho outros dois projetos a caminho. Um é o meu primeiro curta-metragem como diretor: Pacman. O filme traça um paralelo com o jogo de videogame para falar sobre a compulsão alimentar, um tema urgente e ainda muito pouco explorado no cinema. Além de estrelar, eu assino o roteiro e vou codirigir com o André Leão, amigo querido responsável por Nesta data querida, curta musical escrito e protagonizado pelo Vitor Rocha, no qual estive como ator e produtor.

No teatro, tenho outro projeto em parceria com o Fernando Philbert, diretor de Órfãos. Compramos os direitos do clássico norte-americano All My Sons, escrito por Arthur Miller. É a primeira peça do Miller e já foi montada no Brasil, muitos anos atrás, com o título de Todos eram meus filhos. O texto vem sendo remontado mundialmente. A montagem mais recente em Londres foi estrelada por Bryan Cranston. Compramos os direitos e estamos estruturando o projeto criativamente para começar a captação de recursos.



Por Midia Ninja

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