Os ataques e ameaças recebidos pelo rapper baiano após o disco chegar às plataformas não são um “efeito colateral” da obra — são parte do problema que o álbum denuncia.
Porque Imundo não tensiona apenas sonoridades. Tensiona estruturas.

Ao abordar masculinidade violenta, exclusão de corpos dissidentes, xenofobia e a dificuldade histórica de artistas LGBTQIA+ ocuparem o hip hop como sujeitos políticos, Hiran toca em zonas que parte da cultura ainda evita enfrentar.
E quando a resposta vem em forma de ódio, o disco se confirma.
Não como provocação.
Como diagnóstico.
O problema não começou com Hiran
Tratar os ataques como simples reação ao álbum reduz a gravidade do que está em jogo.

A LGBTfobia no rap não nasce com Imundo. Ela atravessa silenciamentos históricos, ausências de representatividade e uma cultura marcada, muitas vezes, por padrões rígidos de masculinidade.
O que Hiran faz é romper esse pacto de silêncio.
E isso desestabiliza.
Hip hop também é disputa de quem pode narrar
O rap nasceu como linguagem de denúncia.
Falou de racismo, pobreza, genocídio e violência de Estado quando poucos falavam.
O que Hiran coloca em cena é que essa tradição de enfrentamento também precisa incorporar o combate à LGBTfobia — inclusive dentro do próprio movimento.
Não como pauta externa.
Mas como parte da luta.
Esse é o ponto político de Imundo.

Quando a reação comprova a denúncia
Há algo simbólico no fato de um disco que denuncia exclusão ser respondido com tentativas de expulsão.
Isso não enfraquece a obra.
Fortalece sua urgência.
Se a reação é violenta, é porque tocou em estruturas reais.
O álbum vira espelho — e nem toda cena suporta se ver.

Rap dissidente também é legado do hip hop

Hiran se inscreve numa linhagem de artistas negros, periféricos e dissidentes que usam a música como intervenção política.
Não pede permissão para existir.
Ocupa.
E ao fazer isso, recoloca uma pergunta central para a cultura hip hop:
quem tem direito de narrar a própria quebrada?

“Eu não vou morrer assim.”
No contexto de Imundo, a frase não soa apenas como verso.
Soa como enfrentamento.
E talvez por isso incomode tanto.
