No cenário contemporâneo, dominado pela lógica dos aplicativo de encontro e pela estética do “instagramável”, o conceito de romantismo parece ter sido submetido a uma erosão silencioso. Para a comunidade LGBTQIA+, essa transformação traz camada de complexidade ainda mais profundas. Quando o amor se torna, multas vezes, uma vitrine de consumo e as relações são mediadas pelo like,match de um smartphone, a pergunta que ecoa neste Dia dos Namorados é urgente e crua: o que, afinal, estamos celebrando?
O amor na era da descartabilidade
A era digital trouxe a promessa de conexão, mas, na prática, frequentemente nos entregou a descartabilidade. No restaurante, o cardápio é estático. Você lê as descrições, conhece ose ingredientes e tem uma expectativa real sobre o que vai chegar à mesa. A escolha é baseada no desejo, mas também na realidade do produto.
Já nos aplicativo, o “cardápio” é dinâmico, infinito e baseado em estereótipos visuais. O usuário é bombardeado por perfis que funcionam como fotos de prato em um menu: multas vezes, a foto é “artística” (com filtros e ângulo que escondem a realidade), mas o “sabor” (a personalidade, o afeto, a compatibilidade) é uma incógnita. A escolha aqui não é sobre o que te nutre, mas sobre o que atrai o olhar num scroll de segundo.
O primeiro encontro, antes envolto na expectativa de conhecer o outro, hoje é marcado pelo risco de insegurança,pelo risco do estranhamento a frustração diante do excesso de filtros, uso da inteligência artificial que mascara rosto e da performance de uma identidade construída para o like.
O romantismo e a troca de cartas deu lugar ao envio de mensagem instantâneas que são descartadas em segundo. O tempo necessário para conhecer verdadeiramente o parceiro foi atropelado pela urgência do encontro imediato. Nesse fluxo, a subjetividade perde espaço para o visual, e a relação homoafetivo corre o risco de ser reduzida a um produto de consumo, uma imagem projetada para satisfazer a lógica visual tanto dos aplicativo como das redes.
A Celebração como Ato de Desobediência
Como, então, celebrar o Dia dos Namorados quando a aceitação ainda é uma luta diária? Como festejar quando a homofobia infiltras na rotina, seja no transporte público, nos olhares hostis na rua ou na dor silencioso daqueles que ainda não puderam sair do armário devido ao medo do julgamento familiar?
A resposta reside no entendimento de que, para a comunidade LGBTQIA+, celebrar é um ato político.
Em um mundo que tenta nos empurrar para a invisibilidade ou para a conformidade, manter um vínculo afetivo real é, por si só, um ato de desobediência civil. Celebrar hoje não é sobre a perfeição de um jantar romântico ou uma foto bem editada; é sobre a resistência daqueles que insistem em se amar em um sistema desenhado para que essa existência seja impossível ou clandestino.
Afeto, representatividade e construção de referências
Existem, contudo, aqueles que desafiam essa lógica da superficialidade. Quando casais como Felipe Cristan e Gustavo compartilham a sua rotina no Instagram, o que vemos não é apenas uma busca por validação, mas a exposição coramos de um cotidiano LGBTQIA+ partilhado! O casal influencia positivamente outros novos casais.
Ao documentarem a rotina dos seus dias, ele criam uma pedagogia do afeto. Ele mostram que o amor LGBTQIA+ é feito, sim, de vínculo profundo, de convivência real e de desejo de troca. Esses casais ocupam o espaço digital, mas para provar que a construção de uma vida LGBTQIA+, mesmo sob um contexto de perseguição e exclusão é possível!
Celebrar é resistir
Comemorar o Dia dos Namorados dentro da comunidade LGBTQIA+ é, acima de tudo, honrar aqueles que vieram antes e que lutaram para que hoje pudéssemos, ao menos, ter a possibilidade de um encontro. É sobre validar as relações que sobrevivem à tela, que persistem apesar da não aceitação e que, dia após dia, reconstroem valores afetivo que a modernidade tenta apagar.
Se a não aceitação é uma estrutura infiltrada, a celebração é o contraponto. Estamos celebrando a coragem de quem, mesmo entre o risco e o medo, decide abrir o peito e escolher o outro. O amor, nunca foi apenas uma convenção social; ele sempre foi, e continua sendo, o maior refúgio e a prova mais contundente de que, apesar de tudo, vale existir com orgulho de quem compõe a comunidade.
