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O documentário de 10 minutos intitulado As Versões de O Exorcista é mais uma das iniciativas dos realizadores retomarem o projeto para debater os mais diversos pontos sobre seu legado e impacto cultural. A produção se inicia de forma impactante, trazendo a narração de William Friedkin sobreposta à icônica e bizarra cena da “caminhada aranha” de Linda Blair, apresentada em preto e branco. O material revela que, durante a montagem do corte final em 1973, Friedkin e o roteirista e escritor do romance homônimo, William Peter Blatty, entraram em um profundo conflito criativo que resultou em uma inimizade de longos anos. Friedkin explica que decidiu remover certas passagens após uma exibição para John Calley, executivo da Warner Bros., que apontou trechos excessivos que prejudicavam o ritmo da obra. Embora inicialmente o diretor tenha se sentido ultrajado, questionando a autoridade de Calley diante de seu próprio status como vencedor do Oscar, ele refletiu durante o caminho para casa e, ao testar as sugestões, admitiu que o filme “funcionava” melhor daquela forma.
Por outro lado, Blatty ficou devastado com as edições, chegando a declarar que Friedkin havia “arrancado o coração e a alma” de sua história. Esse distanciamento só foi superado décadas depois, quando os dois retomaram o projeto para lançar, em 2000, a edição que no Brasil ficou conhecida como O Exorcista: A Versão Que Você Nunca Viu. Este novo corte permitiu o resgate de passagens fundamentais e a restauração de cenas anteriormente descartadas, atendendo finalmente aos desejos de Blatty e oferecendo ao público uma experiência mais próxima da visão original do autor, equilibrando o terror visceral com o aprofundamento espiritual que havia sido suprimido na primeira versão cinematográfica. O filme de 1973 é reconhecido por sua montagem mais austera e direta, focada no suspense psicológico e no choque visceral da época. Já a edição de 2000, frequentemente chamada de Versão Estendida do Diretor, foi uma iniciativa de William Friedkin e William Peter Blatty para reintegrar 11 minutos de material deletado que, segundo os criadores, aprofundam a batalha entre o bem e o mal.
Além das cenas extras, esta versão de 2000 passou por uma restauração digital de áudio e imagem, incluindo novos efeitos sonoros e visuais sutis inseridos em cenas já conhecidas. O acréscimo mais icônico é a famosa cena da “caminhada aranha” (spider-walk), em que Regan desce as escadas de costas curvadas em uma posição bizarra, bem como cuspindo sangue. Essa sequência foi filmada originalmente para o corte de 1973, mas descartada por Friedkin por ser considerada excessiva ou por os cabos de sustentação visíveis demais na época; com o avanço da tecnologia digital contemporânea, os defeitos foram corrigidos e a cena reintegrada. Ademais, junto ao terror visual, os 11 minutos adicionais trazem momentos de desenvolvimento clínico e espiritual. Estão incluídas cenas de exames médicos mais detalhados aos quais Regan é submetida antes do diagnóstico de possessão, reforçando a frustração da ciência diante do sobrenatural. Junto a isso, o projeto cria um desenvolvimento um pouco diferente para o desfecho, dessa vez, com tom mais otimista.
O encerramento de 2000 difere do original de 1973 ao oferecer um tom levemente mais brando. Como? No corte original, o filme termina de forma abrupta após a morte dos padres; na versão estendida, há uma cena final entre o Tenente Kinderman e o Padre Dyer, onde compartilham um momento de camaradagem e amizade. Essa mudança suaviza o impacto sombrio do final clássico, embora muitos puristas ainda prefiram a montagem inicial por sua atmosfera mais seca e perturbadora. Dentre outros pontos debatidos em As Versões de O Exorcista, temos o ponto de corte no debate filosófico entre os padres Karras e Merrin sobre o porquê de o demônio ter escolhido Regan (“por que essa menina?”). Para Friedkin, o filme já respondia a essa questão de forma implícita através de sua narrativa visual, e a cena de diálogo aprofundado tornava a mensagem redundante. A versão original também se notabilizou pelo uso de cortes subliminares e uma conversa final mais breve entre o Padre Dyer e o Tenente Kinderman, finalizando o filme com um impacto mais abrupto e sombrio.
Na restauração para a versão de 2000, muitas limitações tecnológicas foram superadas e os trechos reintegrados. No entanto, nem todas as filmagens puderam ser recuperadas, pois algumas cenas desejadas acabaram descartadas devido a danos irreversíveis nas películas, como manchas, arranhões ou faixas de áudio comprometidas, sem cópias alternativas disponíveis. Friedkin, ao discutir a qualidade de visualização doméstica, frequentemente cita o formato Blu-ray como a melhor experiência para o consumo de filmes, pois permite manter os elementos basilares da produção original com a máxima fidelidade. Ele também menciona que, durante a revisão do áudio para as novas versões, notou que alguns efeitos sonoros, como estalos e pequenos ruídos sutis, sequer faziam sentido ou eram perceptíveis nas mixagens anteriores, sendo aprimorados nas edições restauradas. Em linhas gerais, um breve documentário que nos permite refletir sobre a importância da restauração de obras-primas clássicas do cinema, as apresentando para novas audiências, mas também mantendo a memória do cinema devidamente intacta. Detalhes sobre os caminhos desse processo estão dispostos na análise específica sobre O Exorcista: A Versão Que Você Nunca Viu, ou seja, outro texto.
As Várias Versões de O Exorcista (Faces of Evil: The Different Versions of The Exorcist, EUA – 2010)
Direção: Laurent Bouzereau
Roteiro: Laurent Bouzereau
Elenco: William Friedkin, Linda Blair, Owen Roizman, William Peter Blatty
Duração: 10 min.
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Fonte: Plano Critico.
