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Cinema

Crítica | Roda de Fogo (1978) – Capítulo 1

Rei Lear na TV. O post Crítica | Roda de Fogo (1978) – Capítulo 1 apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 1
Número de episódios: 156
Período de exibição: 1 de maio a 28 de outubro de 1978
Há continuação ou reboot?: Não. A novela de mesmo nome, produzida pela TV Globo entre 1986 e 1987, nada tem a ver com esta Roda de Fogo. Apenas o título é o mesmo.

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Roda de Fogo (wheel of fire) é a imagem que Shakespeare dá ao rei Lear no quarto ato da tragédia, no momento em que o velho, depois da loucura e do abandono das duas filhas mais velhas, desperta diante de Cordélia e diz estar preso a uma roda em chamas, na qual as próprias lágrimas queimam como chumbo derretido. A visão vem do castigo de Íxion, condenado pelos deuses gregos a girar amarrado a uma roda de fogo, situação que Sérgio Jockyman adaptou para esta novela, onde o reino passou a ser um grande jornal; Lear tornou-se um magnata doente, já dividindo a empresa entre as três filhas, Gio, Jane e Délia. Vários personagens do folhetim têm nomes tirados da peça: a caçula Délia corresponde a Cordélia, a filha mais nova do rei; Albano, marido de Gio, corresponde a Albany, marido da primogênita Goneril; e Eduardo e Edmundo, filhos do advogado Dr. Gaspar, correspondem a Edgar e Edmundo, filhos do conde de Gloucester.

A combinação de um jornal poderoso, uma herança em disputa e um patriarca doente me lembrou bastante uma atmosfera do tipo Cidadão Kane, mas com uma linha mais cínica e, logo depois, mais tragicamente patética do que aquela adotada por Orson Welles. Diferente do texto de 1941, porém, o roteiro de Jockyman mostra o dono do jornal vivo e doente, cercado de pessoas que calculam quanto vão receber, sem nenhum mistério que disfarce o interesse de cada uma. Nas entrelinhas, grita a pergunta sobre valer a pena passar a vida inteira trabalhando em demasia, criando inimigos e dedicando-se ao próprio ego. No fim, todos querem mesmo é ser deixados em paz, gozar da herança e não ouvir lamúrias ou ter que dar condolências para um doente (tal qual Ivan Ilitch, por sinal).

Lear, o protagonista vivido por Oswaldo Loureiro, tem um quê de odioso desde as suas primeiras falas. Seu machismo e seu orgulho de ser alguém com humanidade questionável parecem diverti-lo, como se estivesse fazendo um favor para todos os que estão ao seu redor, e como se todos devessem continuar na onda de bajulações e postura servil diante de seus caprichos. Parte disso está no desenho do personagem, que lamenta ter tido só filhas e tirou de Gio (Eva Wilma) o posto de preferida porque ela lhe deu uma neta quando ele esperava um neto; outra parte vem de Shakespeare, cujo rei abre a peça exigindo que as filhas declarem em público o quanto o amam antes de repartir as terras. Délia (Kate Hansen), a caçula, é jornalista como o pai e, por isso mesmo, a que mais entra em conflito com ele,  por conta de suas ideias progressistas, sempre em choque com as do pai, um conservador clássico. A disputa pela herança ganha um peso político, já que está em jogo a linha que o jornal vai seguir depois que Lear deixar o comando.

Os diretores Atílio Riccó e Henrique Martins apresentam muita informação repetida num capítulo só, deixando de visitar alguns personagens, problema que compartilham com o roteiro. O elenco está bem em cena, e a montagem do capítulo é inteligente, alternando momentos mais tensos com outros mais leves, procurando dar um equilíbrio dramático à estreia. Contudo, o texto traz muita gente com pouca ou nenhuma explicação plausível do que construir numa história como essas. O espectador termina o capítulo sabendo quem disputa o jornal, mas sem entender por que boa parte dessas pessoas importa, já que o advogado, os filhos dele e os funcionários com ambições próprias (todos muito mesquinhos, devo dizer) entram quase juntos e quase sem apresentação. Jockyman põe a família inteira numa roda de fogo antes de qualquer tragédia realmente acontecer, e nenhum personagem demonstra interesse em reconhecer o erro a tempo de evitá-la. Sendo um pouquinho mais cínico, poderíamos dizer que eles “fizeram por merecer” o que colheram. E nem todos os frutos dessa safra são bons frutos, só para deixar claro.

Roda de Fogo (1978) – Capítulo 1 (Brasil, 1 de maio a 28 )
Criação: Sérgio Jockymann, Walther Negrão
Direção: Atílio Riccó e Henrique Martins
Roteiro: Sérgio Jockymann, Walther Negrão
Elenco: Oswaldo Loureiro, Eva Wilma, Maria Estela, Kate Hansen, Cláudio Marzo, Othon Bastos, Geraldo Del Rey, Francisco Milani, Fúlvio Stefanini, Rolando Boldrin, Karin Rodrigues, Sady Cabral, Beth Goulart, Gianfrancesco Guarnieri, Sônia Maria, Indianara Gomes, Cristina Mullins, Fernando de Souza, Edson Rabello, Dinah Ribeiro, Annamaria Dias, Marcos Caruso
Duração: 36 min.

Annamaria DiasAtílio RiccóBeth GoulartCláudio MarzoCristina MullinsDinah RibeiroEdson RabelloEva WilmaFernando de SouzaFrancisco MilaniFúlvio StefaniniGeraldo Del ReyGianfrancesco GuarnieriHenrique MartinsIndianara GomesKarin RodriguesKate HansenMarcos CarusoMaria EstelaNovelas BrasileirasOswaldo LoureiroOthon BastosRoda de FogoRolando BoldrinSady CabralSérgio JockymannSônia MariaWalther Negrão

Fonte: Plano Critico.

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