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- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.
VisionQuest continua sendo uma agradável surpresa dentro do universo televisivo da Marvel, especialmente pela maneira como vem utilizando a crise existencial de seu protagonista para explorar questões de identidade, memória e paternidade sem abandonar o humor bastante peculiar de suas inteligências artificiais. Reboot e Malware, terceiro e quarto episódios da temporada, aprofundam essas discussões enquanto introduzem uma nova ameaça sintética e finalmente colocam Ultron em uma posição mais ativa na narrativa. O resultado é uma dupla de capítulos interessante, até mais consistente em algumas questões dramáticas do que a estreia, mas que ainda sofre com o excesso de explicações e com uma ação pouco inventiva diante das possibilidades dos personagens.
Reboot é facilmente o mais intimista dos dois, concentrando boa parte de sua narrativa no relacionamento entre Visão e Tommy após os acontecimentos no sanatório. Gosto particularmente dessa dinâmica e da maneira que aborda certas discussões filosóficas da série, ainda que de maneira relativamente simples. A cena da piscina é ótima nesse sentido.
Em paralelo, continuo gostando bastante da representação do espaço mental, que ganha novas possibilidades visuais conforme o corpo do protagonista entra em colapso. O contraste entre a deterioração física do Visão e as manifestações de instabilidade dentro daquela mansão funciona como uma tradução bastante engenhosa de processos tecnológicos para uma linguagem doméstica e teatral. É quase uma sitcom de inteligências artificiais atravessada por elementos de ficção científica e horror, com a direção de Gandja Monteiro aproveitando essa separação espacial para criar variações de tom.
O funeral de J.A.R.V.I.S., por exemplo, é uma sequência que funciona especialmente bem nessa proposta. Existe algo divertido e melancólico na ideia de programas de computador realizando um ritual essencialmente humano para lidar com a perda de outro programa. A cerimônia poderia ser apenas uma piada, mas acaba reforçando justamente aquilo que o Visão ainda não compreende sobre si mesmo. Essas inteligências artificiais não precisam demonstrar humanidade por meio de grandes discursos filosóficos, já que a própria necessidade de elaborar o luto funciona como expressão de uma experiência afetiva. Ainda assim, a série por vezes exagera no sublinhado temático, como se precisasse explicar o sentido de cada uma dessas situações.
Paladino também ganha algum desenvolvimento ao ter sua própria identidade questionada, com a revelação de que herdou o título de outro caçador de recompensas sem pertencer à linhagem original. É uma ideia coerente com o restante da série, colocando mais um personagem diante do dilema entre identidade herdada e identidade construída. O problema é que continuo achando o antagonista bastante desinteressante, mesmo com esse acréscimo. Sua perseguição permanece protocolar e toda a discussão sobre seu passado parece mais uma tentativa de integrá-lo aos temas centrais do que propriamente um arco dramático envolvente.
A introdução do assassino conhecido como Butcherbird, posteriormente identificado como Jocasta, é bem mais promissora. Gosto da mistura de investigação criminal com horror tecnológico, especialmente pela ideia de uma criatura sintética assassinando figuras associadas ao desenvolvimento das primeiras consciências artificiais. Sua invasão ao espaço mental do Visão também é um dos momentos mais interessantes formalmente, com a alteração da iluminação, o predomínio do vermelho e a transformação daquele ambiente familiar em um espaço de ameaça. É uma boa utilização da linguagem visual que a série estabeleceu desde o primeiro episódio.
Já Malware amplia essa abordagem misturando investigação policial, comédia e uma espécie de filme de assalto, principalmente durante a infiltração no evento organizado por Katerina Wells. O episódio até encontra boas soluções cômicas, com destaque para a investigação de Visão e Ultron nos sistemas da Interpol, traduzindo mecanismos de segurança digital em situações absurdamente humanas. A dificuldade de Ultron com um CAPTCHA, por exemplo, é uma ótima piada, dentre várias sacadas cômicas do capítulo.
Entretanto, esse quarto capítulo também sofre por organizar grande parte de sua narrativa como uma sucessão de revelações explicativas. A história da Markridge Biotech, os assassinatos de seus antigos integrantes, a coleta de dados biométricos e a identidade de Jocasta são informações importantes, mas nem sempre integradas de maneira tão elegante ao suspense. Em alguns momentos, parece que estamos acompanhando uma investigação que precisa avançar rapidamente para colocar seus personagens na posição necessária para o gancho final. É um cacoete bastante comum nas produções da Marvel, inclusive.
Em outra reclamação, a sequência de ação durante o evento de Wells não acompanha totalmente a inventividade das ideias do episódio. Embora a diferença de poder entre Jocasta e o Visão enfraquecido funcione para estabelecer uma ameaça concreta, o confronto permanece relativamente convencional em sua organização espacial e coreográfica. Novamente, temos personagens com possibilidades físicas extraordinárias reduzidos a uma sucessão de ataques e impactos sem grande personalidade visual. A série continua encontrando suas melhores soluções formais dentro da mente do protagonista, não necessariamente nos confrontos realizados fora dela.
O desfecho, com Ultron assumindo o controle do corpo do Visão, é previsível, mas funciona. Desde a estreia, James Spader vem roubando praticamente todas as cenas em que aparece, e sua dinâmica com Paul Bettany é facilmente uma das maiores qualidades da produção. O interessante é que Ultron não precisa necessariamente se comportar como um vilão tradicional para se tornar ameaçador. Sua capacidade de compreender e explorar as inseguranças do Visão já estabelece uma relação de manipulação bastante eficiente, culminando na decisão desesperada do protagonista de entregar a ele o controle de seu próprio corpo.
No geral, Reboot e Malware mantêm VisionQuest em um bom caminho, ainda que a série continue apresentando limitações bastante evidentes. O espaço mental permanece como seu maior acerto criativo, James Spader está excelente, e a relação entre Visão e Tommy começa a encontrar uma densidade emocional que faltava em alguns momentos da estreia. Por outro lado, a investigação envolvendo Jocasta ainda depende de conveniências, os conflitos são frequentemente explicados em excesso e a ação continua bastante aquém do potencial de seus personagens. No entanto, ainda é bem melhor que Lanternas, para o desespero de alguns…
VisionQuest – 1X03 e 04: Reboot e Malware (Reboot & Malware) | EUA, 20 de outubro de 2026
Criação: Terry Matalas
Direção: Gandja Monteiro
Roteiro: Cindy Appel, Michael Taylor
Elenco: Paul Bettany, James Spader, Ruaridh Mollica, Todd Stashwick, Lauren Morais, Orla Brady, Diane Morgan, Polly Frame, Henry Lewis, Jonathan Sayer, Emily Hampshire, James D’Arcy, Ben Crompton, T’Nia Miller
Duração: 104 min.
Ben CromptonCindy AppelDiane MorganDisney PlusEmily HampshireGandja MonteiroHenry LewisHomeJames D’ArcyJames SpaderJonathan SayerLauren MoraisMichael TaylorOrla BradyPaul BettanyPolly FrameRuaridh MollicaT’Nia MillerTerry MatalasTodd StashwickUCM – SériesUCM: Fase 6Universo Cinematográfico MarvelVisãoVisionQuest
Fonte: Plano Critico.
