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Tem sido interessante acompanhar a nova fase do Universo Cinematográfico da DC com gestão de James Gunn. Em vez de mirar em um universo compartilhado, o cineasta defende a ideia de cada adaptação ter a abordagem que merece. Assim, o filme solo de Cara-de-Barro, um dos vilões inimigos de Batman, foi anunciado como um terror. A sacada de contar a história de um anti-herói pelo viés do horror se fez empolgante com a escolha de Mike Flanagan como roteirista do projeto, porém, tudo o que não funciona em Clayface é por ainda ser um filme que segue uma fórmula para longas do gênero. E, no caso em análise, a aposta se dá por dois motivos: não confiar que o público aceitaria totalmente o terror como categoria principal e também para inserir um equilíbrio em razão da violência visual.
A fim de desenvolver essa base genérica, entra Hossein Amini, contratado para reescrever o roteiro de Flanagan. Se em algum momento teríamos algo próximo de um drama sombrio e construção de terror com elementos chamativos, é substituído por algo mais direto: um plano geral mostra a cidade, em seguida surge um título card, depois, o galã e astro do momento, Matt Hagen (Tom Rhys Harries). O tom superficial sugere um ritmo apressado para introduzir essa mitologia inspirada na segunda versão do vilão nos quadrinhos. Para um filme com a promessa de trazer uma aposta ousada para a DC, Cara-de-Barro parece familiar, mas, ao mesmo tempo, um desperdício no que poderia ser um estudo de personagem. Considerando que é a primeira vez que o vilão é levado para as telas, perdem a chance de criar algo consistente e personalidade suficiente para ser marcante.
Os primeiros vinte minutos deixam claro que, mesmo para uma história genérica, o filme passou por uma edição brusca que sacrificou o tom que tentam estabelecer e até mesmo os detalhes que fariam o público simpatizar com Hagen. O que sobra é o tanto que o roteiro anuncia a tragédia — a massagem facial, a maquiagem com corte no rosto, um simples trecho de uma bofetada — e, apesar da sequência violenta em que o personagem tem sua face desfigurada, o impacto é perdido em meio a uma edição abrupta, com cortes rápidos que suprimem vários acontecimentos em instantes. Embora sofra com o efeito da montagem apressada, é a abordagem violenta que Cara-de-Barro aponta seu potencial. Certo que foi vendido como um filme de terror, o longa se encontra ao utilizar o horror corporal para criar uma trama de vingança pseudocientífica.
Quando se mostra mais sólido, Cara-de-Barro remete a Coringa de Todd Phillips e Darkman, de Sam Raimi, e O Homem Sem Sombra, e também à máscara quase sem forma de Os Olhos Sem Rosto em momentos certeiros que testam a sensibilidade do público. São nestes pontos que a escolha de James Watkins é eficiente em criar tensão e ser agonizante — a exemplo da excelente sequência envolvendo uma tesourinha de cortar pelo dentro de um avião —, entrando também a cinematografia de Rob Hardy, que enquadra em planos fechados e depois alterna com planos detalhes para criar ainda mais aflição. Se o roteiro vacila ao se apoiar em facilidades e atalhos que tornam a trama mais familiar para a audiência, Clayface brilha com o seu terror gráfico, violento e com próteses perturbadoras.
Por sorte, Harries estava empenhado pelo papel, pois a sua interpretação como Hagen é um grande acerto. Mesmo para um filme que oscila em sua identidade, Harries dá personalidade e apresenta uma atuação marcante e impotente sobre um homem conflitante vendo sua vida ganhar novos rumos. Ao fazer jus ao hype como um filme de horror corporal, um monstro criado por Cronenberg, Cara-de-Barro faz uso inteligente das habilidades de alterar a forma do vilão e, como dominá-las, atinge um clímax de ação ao mesmo tempo cômico e empolgante. A sequência com a dança, os jogos de luzes e mudanças rápidas entre formas e corpos converge para um desfecho brutal e divertido, mas ainda parece apressada em ser muita coisa em pouco tempo.
Há muito o que se elogiar em Clayface — como o carisma absurdo de Naomi Ackie —, mas também é frustrante como nunca é tão bom como seu potencial. É louvável que conseguiram fazer um filme indie sobre um vilão ser chamativo, porém é decepcionante por ser apressado demais em sua narrativa. Isso compromete, por exemplo, a mistura do romance e horror — algo como A Bela e a Fera — a ser superficial e previsível, principalmente nos minutos finais, quando poderia investir mais na intimidade entre Hagen e Caitlyn. Pela primeira vez, um feito que nem mesmo as séries da CW vacilaram: temos uma versão esquecível de Gotham City que parece uma cidade qualquer e não como um personagem imprescindível. Para um universo que ainda está buscando sua identidade, Cara-de-Barro pode não ser perfeito, longe de ser um modelo consistente, mas é por ser visualmente grotesco e envolvente que não se coloca como o pior filme de origem feito.
Cara-de-Barro (Clayface – EUA, 2026)
Direção: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan, Hossein Amini
Elenco: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, Ruby Sear, Eddie Marsan, Max Minghella, Joshua James, Daniel Betts, Nancy Carroll, Sam Hazeldine, David Dencik, Wil Coban, Joana Ribeiro
Duração: 109 min.
Cara-de-BarroDaniel BettsDavid DencikDCDC StudiosEddie MarsanHomeHossein AminiJames WatkinsJoana RibeiroJoshua JamesMax MinghellaMike FlanaganNancy CarrollNaomi AckieRuby SearSam HazeldineTom Rhys HarriesWil Coban
Fonte: Plano Critico.
