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Cinema

Crítica | Temor a Deus: os 25 Anos de o Exorcista

Reflexões sobre um clássico em seu aniversário de 25 anos. O post Crítica | Temor a Deus: Os 25 Anos de O Exorcista apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Lançado originalmente para a BBC em 1998, o documentário Temor a Deus: Os 25 Anos de O Exorcista oferece uma imersão de 101 minutos nos bastidores de uma das obras mais impactantes da sétima arte. Apresentado pelo renomado crítico de cinema Mark Kermode, o material documental disseca o fenômeno cultural que, décadas após sua estreia, continua a ser reverenciado como um marco do horror e do cinema mundial. No cenário cinematográfico, precisamos ressaltar, O Exorcista não foi apenas um sucesso de bilheteria, mas o inaugurador de um subgênero onde o demônio assumiu o papel de atração principal. A produção suscitou profundos estudos sobre questões esotéricas, a demonologia católica e a perspectiva médica da possessão. Essa convergência entre fé e ciência gerou uma extensa literatura técnica e crítica, elevando o filme ao status de objeto de estudo acadêmico e teológico.

Desde sua emblemática estreia em 26 de dezembro de 1973, milhões de pessoas enfrentaram filas quilométricas para testemunhar a história de Regan. O impacto foi tão visceral que relatos da época descrevem espectadores desmaiando, vomitando ou sofrendo convulsões nos cinemas. Nos Estados Unidos, o New York Times reportou que cambistas vendiam ingressos por 50 dólares, uma fortuna para a época, e seguranças recebiam subornos de até 110 dólares de pessoas desesperadas para furar a fila. A recepção do filme dividiu opiniões de forma drástica, sendo chamado por Mark Kermode de “o filme mais assustador já feito”. Para uma parcela do público, a obra serviu como a maior propaganda do catolicismo já vista, enquanto outros a rotulavam como uma monstruosidade que carregava a marca do diabo. A Warner Bros., percebendo o burburinho, explorou habilmente as alegações de possessões reais e os incidentes nas salas de projeção como uma poderosa estratégia publicitária.

Didático, mas dinâmico e eficiente enquanto cinema, o documentário reúne depoimentos fundamentais do diretor William Friedkin, do autor William Peter Blatty e de membros do elenco, como Ellen Burstyn e Linda Blair. Friedkin revela que seu objetivo era criar algo que fosse além da compreensão humana, utilizando o realismo para chocar. Segundo ele, o segredo do impacto emocional residia na ambientação: a trama não ocorria em lugares remotos como a Transilvânia, mas em uma rua real, em uma casa tradicional de Washington DC, onde pessoas comuns vivem. Visualmente, o filme foi concebido como uma batalha literal entre luz e trevas. O diretor de fotografia Owen Roizman destaca a chegada do Padre Merrin à Prospect Street como o ápice dessa estética, onde o feixe de luz que emana do quarto de Regan confere uma qualidade etérea e sobrenatural à cena. Friedkin explica que alternava propositalmente entre cenas extremamente claras e o breu do sótão ou da sala de exorcismo para manter a tensão constante.

A sonoridade de O Exorcista também foi um pilar de seu terror psicológico, rendendo-lhe uma das duas estatuetas do Oscar que venceu (junto ao de Melhor Roteiro Adaptado). Friedkin buscava uma dinâmica que oscilasse entre o silêncio absoluto e ruídos opressivos. A voz do demônio foi fruto de um processo meticuloso; após 150 horas tentando modificar a voz de Linda Blair sem sucesso, o diretor buscou novas alternativas para atingir o timbre perturbador que se tornou icônico. A escolha de Linda Blair para interpretar Regan foi crucial para o sucesso da produção. Selecionada entre centenas de candidatas, a atriz demonstrou uma maturidade impressionante ao lidar com um tema tão pesado. Para Blair, que se declarava cristã, o diabo era apenas um personagem de ficção, o que lhe permitiu encarar o papel com leveza e humor nos bastidores, contrastando com a desfiguração horripilante criada pelo maquiador Dick Smith.

Ellen Burstyn, que interpretou a mãe de Regan, Chris MacNeil, confessa no documentário que, embora quisessem fazer um filme de terror, ninguém previa que o resultado seria tão profundo e assustador. William O’Malley, que interpretou o Padre Dyer, reforça que o impacto foi avassalador justamente pelo seu peso religioso. Diferente de outras obras contemporâneas como O Bebê de Rosemary, o filme de Friedkin tocava em nervos expostos da fé e da espiritualidade institucional. A trama, baseada no livro de Blatty, foca na transformação gradual de uma pré-adolescente inocente no demônio mais sanguinário do cinema. Observar a desfiguração de Regan e ouvir seus gritos guturais foi um choque para a sociedade dos anos 1970. A vulnerabilidade de uma criança sendo consumida por uma força maligna dentro do coração da capital americana removeu qualquer zona de conforto que o público pudesse ter em relação ao gênero horror.

O documentário de Kermode também explora o legado físico do filme, como a icônica escadaria de 75 degraus onde o Padre Karras encontra seu fim após libertar Regan. O local se tornou um ponto de peregrinação para fãs e curiosos, simbolizando o sacrifício final dentro da narrativa. A morte de Karras, ao pular da janela, encerra o filme com uma nota de ambiguidade e redenção que continua a ser debatida por teóricos e cinéfilos. Em linhas gerais, caro leitor, Temor a Deus reafirma que O Exorcista é mais do que um filme de terror, mas uma obra de alto nível cinematográfico que manipulou com maestria os medos primordiais da humanidade. Ao cruzar a linha entre o sagrado e o profano, William Friedkin e sua equipe criaram algo intangível que, como diz o slogan original, realmente vai além da compreensão, mantendo sua força e relevância mesmo após mais de meio século de existência. Uma narrativa de extenso legado e impacto cultural, constantemente citada e reinterpretada.

O Temor a Deus: Os 25 Anos de O Exorcista (Fear of God: The 25 years of The Exorcist – Estados Unidos, 1998)
Direção: Nick Freand Jones
Roteiro: Mark Kermode
Elenco: Max vo Sydow, Jason Miller, Ellen Burstyn, Linda Blair, Lee J. Cob,William O´Malley, Owen Roizman, Dick Smith, William Friedkin, William Peter Blatty
Duração: 100 min.

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Fonte: Plano Critico.

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