SÃO PAULO, SP, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – O segundo e último debate entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) antes do segundo turno foi marcado por ataques pessoais de ambos os lados e pela disputa entre propostas vagas, do lado bolsonarista, e o passado das gestões do PT, do lado do presidente, que concorre ao quarto mandato.
Flávio usou a expressão “nove dedos” para atacar Lula, que revidou o chamando de miliciano. Mais à frente, o presidente cobrou desculpas do senador, que se desculpou pelo uso da expressão.
Exibido na Globo na noite desta sexta-feira (23), o embate foi o segundo encontro entre os dois candidatos, que não compareceram aos debates do primeiro turno. Empatados nas últimas pesquisas eleitorais, os dois buscam atrair eleitores indecisos, com o senador moderando o discurso e o presidente apostando no legado de sua gestão.
No primeiro bloco, o petista abriu sua resposta agradecendo aos telespectadores e a Deus -detalhe que havia deixado de lado no debate na Band. Ele rebateu à pergunta do adversário, acusando o governo do pai do senador, Jair Bolsonaro, de deixar obras inacabadas.
Logo no primeiro momento do embate, Flávio, que havia sido criticado por não responder às perguntas e pela falta de propostas concretas no debate da Band no último domingo, usou seu tempo para apresentar propostas de ampliação de infraestrutura. Ele enfatizou a ampliação de rede de internet, sem dar detalhes sobre a implementação dessa expansão.
No mesmo tema, Lula institiu na estratégia de sua campanha de falar dos feitos de seu governo -inclusive os controversos, caso da BR-319, rodovia que corta a floresta amazônica de Manaus a Porto Velho e que foi criticada por entidades ambientalistas.
No primeiro bloco, os candidatos deveriam abordar regiões do Brasil -a começar pelo Sudeste. Lula passou longe e questionou o adversário se ele saberia quanto seria o salário mínimo se não fosse pelos governos do PT. Usou o resto do tempo para questionar Flávio sobre a tarifa zero nos ônibus aos finais de semana, proposta com a qual o bolsonarista disse concordar.
Sem explorar o tema, o senador partiu para críticas sobre taxa de juros e custo de vida, puxadas pelo endividamento, e disse que Lula tira dinheiro da população com “9 dedos”.
No bloco seguinte, o presidente cobrou desculpas pelo uso da expressão. “Ele vai ter que pedir desculpa. Porque o povo trabalhador está vendo. Milhões de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal que obriga a gente a trabalhar em jornada que a gente não tem que trabalhar”, disse Lula. “Eu era de menor e trabalhava à noite”
Na sequência, Flávio pediu desculpas e logo emendou críticas a Lula. “Lula, se eu te ofendi porque eu te chamei de nove dedos, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender”, disse. “Agora eu quero saber se você vai pedir desculpas aos moradores de rua que dobraram durante seu governo”, fazendo uma sequência de questionamentos do tipo.
Ainda no primeiro bloco surgiu uma das poucas menções do debate à política internacional. Lula usou a região Sul para falar sobre aposentadoria e insistiu na imagem do “tesouraço” da campanha de Flávio e voltou a comparar as políticas propostas pelo senador às de Jair Milei, presidente argentino de ultradireita. Flávio justificou as políticas do argentino, dizendo que ele pegou um país quebrado pela esquerda.
Durante todo o debate, o petista insistiu em pintar o adversário como incompetente. Disse e repetiu que Flávio parecia um estudante de vestibular “que decora, mas não aprende”. Flávio, por sua vez, apostou em indiretas sobre a idade de Lula. Disse, mais de uma vez, que o petista parecia estar com problemas auditivos e de dicção.
A primeira menção a questões ambientais veio ao final do primeiro bloco, quando os candidatos discutiam a região Norte. Flávio aproveitou a deixa para falar sobre saneamento básico, e Lula trouxe, enquanto criticava o colega, a ideia de economia verde. Ele defendeu, de forma vaga, a manutenção da floresta e das terras indígenas.
O bloco terminou com a região Nordeste -onde se concentra o eleitorado do PT- e, de novo, Lula pintou um “antes e depois” da região, destacando obras das gestões petistas. Flávio respondeu com frases de efeito: “o Nordeste não é problema, é solução” e “eu vou ser o carioca mais nordestino que você já viu na terra”.
A temperatura do debate subiu rápido no segundo bloco. Lula não usou, de cara, todo o tempo que tinha disponível. O mediador Cesar Tralli perguntou ao presidente se ele usaria o tempo restante, algo que havia ocorrido algumas vezes no primeiro bloco. Desde a primeira ocorrência, Flávio se mostrou incomodado com a postura do jornalista. No segundo bloco, ele subiu o tom, causando frisson no estúdio.
Quando o tema mudou para as contas públicas, Flávio pisou no calo da terceira gestão do petista. Lula rebateu com uma pergunta sobre a independência do Banco Central e Flávio trouxe, mais uma vez, sua proposta polêmica de congelamento de dívidas de pessoas físicas e jurídicas. É uma ideia que remonta à era Collor, marcada por inflação descontrolada, congelamentos e sequestros de poupanças.
No terceiro bloco, Lula e Flávio debatem bets e segurança pública. O presidente chamou Jair Bolsonaro de “pai do tigrinho” e Flávio, de “irmão”. Também defendeu a proibição das bets, que, segundo ele, estavam se tornando um “inferno na vida das pessoas”.
Flávio depois escolheu o tema da retomada de territórios do crime organizado e lembrou as posições de Lula sobre saidinha e classificação de facções como organizações terroristas. O presidente citou o caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil, e mencionou a mãe da criança, que está presente no estúdio. O policial militar acusado de matá-la em 2021, em Niterói, foi defendido por Flávio quando ele já era senador.
Em réplica, Flávio se dirigiu à mãe de Ana Clara, mas errou seu nome, chamando-a pelo nome da filha. “Tenho a confiança de que não foi esse policial que deu esse tiro”, afirmou o senador.
A comitiva do senador inclui governadores eleitos Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e Sergio Moro (PL-PR) e aliados como o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP). Marcou presença o irmão Carlos Bolsonaro, ex-vereador do Rio de Janeiro.
Entre os convidados de Lula estavam o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ministro Guilherme Boulos (PSOL), os ex-ministros Carlos Lupi (PDT) e Rui Costa (PT) e a deputada federal Jandira Feghali (PC do B). Junto a eles estava Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, menina morta a tiros aos 5 anos em uma ação policial em Niterói (RJ). Flávio advogou de graça pelo policial militar suspeito de matá-la.
No primeiro turno, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) largou na frente, com 47,03% dos votos, ante 45,16% do petista.
Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (22) mostra o senador e o atual presidente empatados tecnicamente na margem de erro, com 50% dos votos válidos cada um no segundo turno da disputa.
A campanha petista no segundo turno tem sido marcada pelo engajamento digital, comandado por André Janones (Rede-MG). O canal de transmissão do WhatsApp “Exército do Lula” ultrapassou os 10 milhões de inscritos nesta sexta-feira. A instrução para os eleitores de Lula é tentar convencer os indecisos e “virar votos”.
A tônica da campanha do senador, por outro lado, tem sido não errar, costurar apoios e tentar capitalizar a vantagem obtida no primeiro turno.
O debate entre Lula e Flávio desta sexta também ocorre após o cancelamento do confronto que seria promovido pela TV Globo no primeiro turno, consequência de uma série de decisões judiciais que interferiram nos participantes e mudaram a dinâmica do encontro.
Quem gastou mais no cartão corporativo Lula ou Bolsonaro?
Um levantamento da agência Aos Fatos, com base em dados do Portal da Transparência, aponta que Bolsonaro gastou mais do que Lula nas despesas diretamente relacionadas à Secretaria de Administração da Presidência.
Guilherme Bernardo | 05:24 – 24/10/2026
Fonte: Noticias Minuto.
