O hotel do futuro pode ter inteligência artificial, check-in automatizado, sistemas capazes de antecipar preferências e ferramentas que analisam dados em tempo real. Mas uma pergunta permanece: o que acontece com a hospitalidade quando a tecnologia começa a ocupar cada vez mais espaços que antes dependiam
exclusivamente das pessoas?
Foi em torno dessa questão que aconteceu, na segunda-feira (14), em São Paulo, o VIII Fórum Nacional da Hotelaria, promovido pelo FOHB — Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil.
Realizado no Pullman São Paulo Vila Olímpia, o encontro teve como tema “O Futuro é Humano” e reuniu empresários, executivos, investidores e especialistas para discutir as transformações que já estão modificando a hotelaria brasileira.
A TECNOLOGIA AVANÇA, MAS A HOSPITALIDADE CONTINUA HUMANA
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para fazer parte das discussões estratégicas das empresas.
Na hotelaria, ela já aparece associada a atendimento, análise de dados, produtividade, automação, personalização de serviços e processos de gestão.
Mas o Fórum colocou uma perspectiva diferente sobre essa transformação.
A questão não é simplesmente escolher entre pessoas ou tecnologia.
O desafio está em compreender como a tecnologia pode ampliar a capacidade humana sem eliminar aquilo que diferencia a hospitalidade de uma simples prestação automatizada de serviço.
Foi esse um dos pontos apresentados na palestra “Quando a inteligência artificial se encontra com a inteligência humana”, conduzida por Gil Giardelli, professor, escritor e especialista em inovação.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NÃO SUBSTITUI EXPERIÊNCIA
A discussão sobre IA também revelou uma mudança importante na maneira como o setor precisa pensar inovação.
Automatizar uma tarefa pode aumentar eficiência. Analisar grandes volumes de dados pode ajudar na tomada de decisões. Sistemas digitais podem facilitar processos que antes consumiam tempo das equipes.
Mas nenhuma dessas ferramentas, sozinha, resolve aquilo que acontece no contato entre pessoas.
Um hóspede pode realizar seu check-in sem falar com ninguém. Ainda assim, quando surge um problema, uma necessidade específica ou uma situação inesperada, a capacidade de compreender o outro continua sendo fundamental.
É nesse espaço que a inteligência humana permanece indispensável.
O DESAFIO ECONÔMICO TAMBÉM CHEGA AOS HOTÉIS
O futuro da hotelaria não é determinado apenas pela inovação tecnológica.
Economia, investimentos, custos e comportamento do consumidor também interferem diretamente nas decisões do setor.
Durante o Fórum, Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apresentou perspectivas econômicas relacionadas ao segmento.
Cristiano Vasques, da HotelInvest, também trouxe dados sobre o desempenho da hotelaria brasileira.
Segundo os dados apresentados no evento, a ocupação hoteleira em 12 das principais capitais brasileiras cresceu 0,8% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. O crescimento, entretanto, representa uma desaceleração em comparação ao avanço de aproximadamente 3% registrado no período anterior.
Para o setor, números como esses ajudam a dimensionar um cenário no qual crescimento e eficiência precisam caminhar juntos.
O HOTEL PRECISA ENTENDER QUEM É O SEU HÓSPEDE
Outra dimensão importante discutida durante o encontro foi a transformação do próprio consumidor.
Viajar, hospedar-se e consumir serviços de hospitalidade já não seguem necessariamente os mesmos padrões de décadas anteriores.
Mudam os hábitos, as expectativas, os perfis culturais e as formas de escolher e avaliar uma experiência.
A programação trouxe, inclusive, a discussão sobre novos públicos do turismo internacional.
Ali Zoghbi, presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil e da International Halal Academy, abordou a preparação da hotelaria para atender um mercado em expansão e as necessidades específicas relacionadas a diferentes culturas e comportamentos.
A discussão amplia a ideia de hospitalidade: receber bem também significa entender quem está chegando.
LIDERANÇA EM UM SETOR QUE ESTÁ MUDANDO
Em meio à tecnologia, aos números e às novas tendências, a liderança apareceu como outro elemento central.
As transformações dentro dos hotéis não acontecem apenas nos sistemas utilizados pelas empresas. Elas também modificam a rotina dos profissionais, a organização das equipes e as competências exigidas de quem ocupa posições de gestão.
Por isso, falar sobre futuro também significa falar sobre pessoas capazes de conduzir mudanças.
O líder da hotelaria contemporânea precisa lidar simultaneamente com tecnologia, resultados, comportamento, experiência do consumidor e desenvolvimento das equipes.
O FUTURO É HUMANO?
O tema escolhido para o Fórum provoca justamente essa reflexão.
Se a tecnologia consegue automatizar cada vez mais tarefas, talvez a vantagem competitiva da hotelaria esteja justamente naquilo que não pode ser reduzido a uma sequência de comandos.
Um sistema pode reconhecer um hóspede.
Uma ferramenta pode sugerir um quarto.
Um algoritmo pode identificar padrões de consumo.
Mas existe uma diferença entre processar uma informação e compreender uma pessoa.
A hospitalidade acontece nesse intervalo.
Está no profissional que percebe que alguma coisa não está bem. Na equipe que encontra uma solução. Na liderança que consegue motivar pessoas. No atendimento que transforma uma situação problemática em uma experiência positiva.
UMA NOVA HOTELARIA SENDO CONSTRUÍDA
Ao longo de um dia de debates, o VIII Fórum Nacional da Hotelaria passou por inteligência artificial, economia, inovação, comportamento, marketing, neuroarquitetura, distribuição e tendências.
Temas diferentes, mas conectados por uma mesma transformação: a hotelaria está mudando porque o mundo ao redor dela também mudou.
Os hotéis precisam ser mais eficientes.
Os consumidores estão mais conectados.
A tecnologia oferece novas possibilidades.
Os profissionais têm novas expectativas.
E as empresas precisam encontrar maneiras de fazer todas essas mudanças coexistirem.
Nesse cenário, “O Futuro é Humano” deixa de ser apenas o nome de um evento e passa a funcionar como uma provocação para o próprio setor.
A tecnologia continuará avançando.
A inteligência artificial será incorporada a novas etapas da operação.
Os hábitos dos hóspedes continuarão mudando.
Mas a essência da hospitalidade permanece relacionada a uma experiência simples e, ao mesmo tempo, complexa: uma pessoa recebendo outra pessoa.
É nesse encontro que a hotelaria encontra seu significado.
E é justamente por isso que, enquanto os hotéis se preparam para o futuro, talvez a pergunta mais importante não seja apenas qual tecnologia será utilizada.
Mas que tipo de experiência humana essa tecnologia ajudará a construir.
SERVIÇO
VIII Fórum Nacional da Hotelaria
Data: 14 de setembro de 2026
Local: Pullman São Paulo Vila Olímpia — São Paulo (SP)
Tema: “O Futuro é Humano”
Realização: FOHB — Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil
