Territórios Digitais: estudo encontra devastação pela desinformação em comunidades quilombolas e indígenas

Portal Inhaí
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Por Jhessyka Fernandes

A aceleração tecnológica promovida pela inteligência artificial, a produção de deepfakes e a automação de fluxos nas redes sociais trouxeram uma promessa de conectividade global que, na prática, esconde velhas assimetrias de poder. Para comunidades historicamente vulnerabilizadas no Brasil, essa tal “modernidade” tem se traduzido em uma nova e letal modalidade de opressão: a violência informacional territorializada.

O estudo inédito Territórios Digitais: Confiança, desinformação e governança da inteligência artificial a partir do Sul Global, concebido pela pesquisadora Marcelle Chagas no âmbito do projeto GriôTech — parceria entre o Instituto de Referência Negra Peregum, a Mozilla Foundation e a UNEafro Brasil — projeta luz sobre um ecossistema adoecido, onde mentiras digitais geram impactos físicos avassaladores. Baseado em uma Pesquisa-Ação Participativa de Base Comunitária (CBPAR), o relatório investigou detalhadamente o cotidiano do Quilombo Santa Rita do Bracuí, localizado em Angra dos Reis, e da Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, em São Paulo.

“São pessoas, são histórias, elas têm uma cultura local, e isso diz muito sobre a relação desses territórios e dessas pessoas com o ecossistema informacional atual, em especial com as dinâmicas de circulação de informação e a forma como elas se relacionam com a tecnologia”, aponta Marcelle Chagas.

Desinformação como arma de guerra e controle territorial

Longe de ser um mero debate acadêmico ou uma questão de checagem de dados, a desinformação em territórios tradicionais atua como um instrumento deliberado de desestabilização política e social. Marcelle confirma, por meio dos resultados de sua pesquisa, que as mentiras disseminadas no ecossistema digital assimilam tensões internas já latentes e disputas por terra ou preservação ambiental, escalando rapidamente para ameaças de morte e perseguição institucional.

Em entrevista cedida à Mídia NINJA, a pesquisadora explica que a desinformação tem sido usada como uma ferramenta de desestabilização da governança interna ancestral que esses territórios desenvolveram ao longo de anos e séculos.

“Ela ganha um contexto territorializado porque assimila questões internas já latentes. E o resultado não fica só no ambiente digital, isso migra para o ambiente físico”, afirma a pesquisadora.

O silenciamento pelo medo no Quilombo Santa Rita do Bracuí

No Quilombo Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis, a líder comunitária Dona Marilda tornou-se o rosto público de uma campanha difamatória orquestrada. Após o embargo formal de uma obra irregular no Rio Bracuí, determinado pelo Ministério Público em razão de danos ambientais, um agente do poder público local gravou um vídeo mentiroso alegando que o quilombo e sua liderança estavam “atrapalhando o andamento das obras” na região.

A narrativa falsa viralizou rapidamente em aplicativos de mensagens e redes sociais do governo local. O efeito na vida de Dona Marilda foi imediato e catastrófico: as acusações virtuais transformaram-se em ameaças explícitas de violência armada. “Disseram que iam encher nossa cara de bala.” O terror instaurado foi tamanho que a líder e sua família precisaram ser retiradas às pressas e passaram mais de um mês fora de sua própria casa, sob proteção estadual.

Dona Marilda, vítima de desinformação territorial, teve que se mudar com sua família. Foto: Instituto Peregum

O impacto coletivo mutilou a liberdade da comunidade. Com medo de emboscadas, as mulheres do quilombo deixaram de caminhar sozinhas e de realizar suas atividades cotidianas. Mesmo anos depois, a mentira jamais foi corrigida pelas instituições, consolidando-se como uma injusta memória social que culpa os quilombolas sempre que o rio transborda.

Os danos causados pela desinformação digital em comunidades tradicionais ultrapassam a perda de direitos e agridem brutalmente a saúde mental e emocional das lideranças, operando como uma tática cruel de silenciamento.

Aldeia Filhos Desta Terra e a voz roubada pela mentira

Na Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, em Guarulhos, o Cacique Alex Ribeiro vivenciou na pele o peso de um boato digital. Durante um período de atendimento de saúde local, circulou em grupos de mensagens a falsa notícia de que o cacique teria exigido a demissão da médica responsável pelo posto de saúde da aldeia.

Em uma cultura rigorosamente baseada na palavra empenhada, no consenso e na confiança mútua, a mentira corroeu, ainda que temporariamente, a legitimidade do líder.

“A desinformação fez com que ninguém mais acreditasse em mim”, relatou o Cacique Alex a Marcelle. “Por mais que eu falasse, eu não tinha voz.” O líder adoeceu gravemente em decorrência do sofrimento emocional intenso, da sensação de isolamento e do esvaziamento político provocado pelo boato digital.

O Cacique Alex desconfiou de sua própria atuação. Foto: Instituto Peregum

De acordo com o estudo da pesquisadora, a desinformação em territórios indígenas atua como uma fissura nos sistemas de proteção coletiva: além de produzir sofrimento psicológico e isolamento concreto, ela desorganiza assembleias comunitárias e dificulta a construção de consensos. Um exemplo das consequências desse processo é a fragilização da prestação de serviços essenciais, como o próprio atendimento à saúde.

A recuperação da credibilidade e o desafio eleitoral em 2026

Diante do avanço de uma desinformação cada vez mais sofisticada, potencializada pelo uso opaco de deepfakes, inteligência artificial generativa e disparos microssegmentados de anúncios pelas grandes empresas de tecnologia (Big Techs), as comunidades têm lidado com um ecossistema informacional profundamente desigual e frágil.

A pesquisa apurou dados alarmantes sobre a contaminação desse ecossistema: 73% dos respondentes relataram exposição frequente a conteúdos políticos enganosos, e 56% afirmaram que narrativas falsas impactaram diretamente decisões coletivas locais.

Apesar do cenário severamente nocivo, os dados apontam para um fenômeno de resistência: a confiança não desapareceu, ela se relocalizou. Em contextos de baixa legitimidade institucional e abandono digital por parte do poder público, 81% dos participantes afirmaram confiar prioritariamente em instâncias territoriais — como lideranças, anciãos, professores, agentes comunitários de saúde e comunicadores locais — em detrimento das mídias de massa ou das plataformas digitais.

Apesar de tudo, as comunidades seguem resistindo. Foto: Instituto Peregum

A proximidade das eleições presidenciais de 2026 impõe um alerta de urgência máxima para esse cenário. Marcelle Chagas adverte sobre os perigos da criação de conteúdos sintéticos projetados para explorar vulnerabilidades locais específicas, utilizando a inteligência artificial para transferir falhas do Estado para indivíduos e criar “bodes expiatórios” comunitários.

“Isso levanta para a gente uma preocupação durante o período eleitoral, o período político, em que a desinformação acaba se intensificando muito mais e a gente consegue compreender por que, em territórios que têm esses desafios — como, por exemplo, internet precária, dificuldades de atuação do poder público, enfim —, essa camada de dificuldade se torna ainda maior para enfrentar e lidar com uma desinformação agora muito mais sofisticada, principalmente com o uso da inteligência artificial”, aponta Marcelle.

Governança territorial: o Sul Global como produtor de soluções

Contra a visão pessimista de que o avanço algorítmico é um processo inescapável de colonização digital, o projeto GriôTech propõe uma inversão metodológica radical: a governança deve partir do território, e não de cima para baixo.

A pesquisadora Marcelle Chagas sugere um método de uso das ferramentas tecnológicas contra os próprios opressores das comunidades. Foto: Instituto Peregum

A principal contribuição conceitual da pesquisa foi reunida em um Framework Territorial de Confiança Digital e Governança da IA, baseado em cinco pilares fundamentais: autoridade territorial; regimes comunitários de credibilidade; ecologia informacional local; cuidado, proteção e reparação; e mediação sociotécnica.

As comunidades estudadas já começaram a utilizar as próprias ferramentas tecnológicas contra seus opressores. Se a inteligência artificial treinada no Norte Global ignora e invisibiliza a realidade multiétnica dessas populações, os moradores passaram a utilizá-la estrategicamente para ler, de forma ágil, decisões judiciais complexas e projetos de lei que afetam a demarcação e a subsistência de suas terras.

Em ano de eleições, os cuidados acerca da desinformação devem ser redobrados. Foto: Instituto Peregum

“Já que usam a tecnologia contra a gente, vou usar ela também para me defender”, sintetizou o Cacique Alex após participar das oficinas do projeto.

Para Marcelle, a resposta estrutural exige investimentos robustos em comunicação local e em redes de proteção às comunicadoras negras e indígenas, bem como a inclusão de metodologias territoriais nas legislações globais de regulação da IA.

O estudo, reconhecido oficialmente pelo Governo Federal e selecionado para integrar o prestigiado Celeiro de Soluções da COP30, prova de forma contundente que a tecnologia só cumprirá seu papel democrático se estiver disposta a respeitar e servir à soberania dos povos que protegem os chãos reais do país.



Por Midia Ninja

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