Em meio às vozes que ecoaram nas conferências LGBTQIA+ de São Paulo e de todo o país, uma delas soou com um sotaque carregado de poesia, coragem e travessia. Era a de Paulx Simón Gialdroni, escritor, articulador social, produtor e ativista politico argentino, que se tornou o único imigrante internacional a participar da Conferência Municipal LGBTQIA+ de São Paulo, da Conferência Estadual de Direitos LGBTQIA+ e, depois, da 4ª Conferência Nacional dos Direitos LGBTQIA+, em Brasília.

De Resistencia, no interior da Argentina, ao coração político do Brasil, Paulx trilha um caminho de resistência que atravessa fronteiras — de idioma, de gênero, de território e de existência. Sua presença nesses espaços de debate e formulação de políticas públicas é, por si só, um ato político: um corpo trans, migrante e latino-americano ocupando o centro de decisões sobre direitos humanos.
“Migrar é um direito — e sobreviver também é”
Paulx Simón Gialdroni chegou ao Brasil em busca de segurança e possibilidades de vida digna. Em seu texto publicado no portal Transmídia Jornalismo, intitulado “Nem segurança, nem dignidade: o dilema das pessoas trans migrantes”, ele reflete sobre a travessia e os abismos enfrentados por quem precisa deixar seu país de origem para continuar existindo:

“Cada passo das nossas vidas está submetido a sistemas que não nos reconhecem, nos penalizam ou nos matam.”
A escolha por migrar não foi um gesto de fuga, mas de sobrevivência. No Brasil, Paulx encontrou novas formas de militância e expressão, levando sua poesia para as ruas, saraus e microfones da cena de slam — a poesia falada que se transformou em plataforma de resistência translatina.
Como homem trans, artista e migrante, ele traduz em versos o que muitos corpos ainda não têm espaço para dizer: o medo, a travessia, a violência e também a esperança.
Da Argentina ao Brasil: a poesia como refúgio e revolução

Trans Slam, realizado no Rio de Janeiro, na Vila Gamboa — região conhecida como Pequena África e considerada a primeira favela da cidade. Esse registro é importante porque representa uma produção internacional, em que Paulx Simón Gialdroni conseguiu orçamento para trazer 11 poetas trans de todo o continente para participarem da FLUP – Festa Literária das Periferias.
Foi nesse projeto que, pela primeira vez, se realizou uma produção de slam inteiramente trans — envolvendo produção, jurades, participantes, palestrantes, cantores e shows formados exclusivamente por pessoas trans. A iniciativa nasceu da idealização de Paulx Simón Gialdroni e Odaymar Cuesta, somando-se depois Tom Grito e Nilo, do Brasil.
Na Argentina, Paulx foi figura central no movimento de poesia falada, tendo criado coletivos como o Slam Chaco Corrientes e o Slam Comarca. Em 2023, integrou a equipe argentina no projeto internacional “The Slam Road – Capítulo Buenos Aires”, promovido pelo Centro Cultural da Memória Haroldo Conti, em Buenos Aires.
Mas foi em solo brasileiro que sua voz ganhou novos contornos. Publicou o livro “Eflúvios”, pela Editora Ganesha Cartonera, no Rio de Janeiro, e se tornou uma das principais referências da poesia transmasculina latino-americana. “O corpo do artista também é político”, disse ele em entrevista ao portal Contraponto Digit@l. “A obra nasceu em um dia ao sul da Argentina… criei esta plataforma para poder transicionar.”
O livro “Eflúvios” é uma adaptação de uma peça escrita e publicada por Paulx Simón Gialdroni, com o apoio do Instituto Nacional do Teatro da Argentina — uma obra que transpõe para a poesia as camadas performáticas e políticas e de Gêneros de sua trajetória artística.





A arte, para Paulx, não é um refúgio da dor — é a própria forma de enfrentá-la. Sua poesia fala da travessia e também da construção de um novo lar, de novas redes de afeto e solidariedade entre pessoas trans e migrantes.
Em 2026, Paulx lançará seu sexto livro, pelo selo Dani Balbi, uma obra que abordará migração, transição, gênero, legislação de gênero no continente e identidade, aprofundando também seu caminho e compromisso na articulação e fomento de redes — tanto locais quanto entre diferentes países de Abya Yala.
Um corpo político que atravessa fronteiras
A presença de Paulx nas conferências LGBTQIA+ do Brasil simboliza uma ruptura com a lógica nacionalista e cisnormativa que ainda domina os espaços institucionais.
Em um país que, ao mesmo tempo, acolhe e expulsa, escuta e silencia, a trajetória dele ecoa como denúncia e como esperança.
Na Conferência Municipal LGBTQIA+ de São Paulo, Paulx foi o único representante internacional. Na Conferência Estadual de São Paulo, novamente, o único imigrante. E, em Brasília, ao chegar à 4ª Conferência Nacional dos Direitos LGBTQIA+, tornou-se o único homem trans migrante a ocupar esse espaço de discussão e formulação de políticas públicas no país.



Essa trajetória é histórica — não apenas pela singularidade de sua presença, mas pela coragem de reivindicar voz e visibilidade em um país que ainda luta para reconhecer os direitos das pessoas LGBTQIA+ e, em especial, das pessoas trans e imigrantes.
“A proteção começa com o acesso à palavra”, escreveu Paulx. “Saber quais são nossos direitos e como reivindicá-los. Desde que cheguei, percebo esse vazio e sigo lutando.”
Entre o exílio e o pertencimento
Essa foto foi registrada na Argentina, durante o projeto internacional “The Slam Road – Capítulo Buenos Aires”. Paulx Simón Gialdroni, que aparece na imagem, fundou diversas ligas de slam no país e foi o primeiro presidente eleito do movimento Slam Argentina, fortalecendo a poesia falada como expressão política e artística translatina.

O corpo de Paulx é fronteira e manifesto. Em cada poema, ele ressignifica a ideia de exílio — não como ausência de lugar, mas como possibilidade de reinvenção.
Na América Latina, onde as travestis e os homens trans enfrentam exclusão e violência, sua trajetória reafirma que o pertencimento pode ser construído coletivamente, através da arte e da luta.
Nas conferências, Paulx levou o debate sobre migração, acolhimento e documentação para dentro de espaços muitas vezes voltados apenas às realidades nacionais. Defendeu o reconhecimento das pessoas trans migrantes como parte essencial das políticas de diversidade e direitos humanos.
Sua participação amplia a compreensão do que significa lutar por direitos LGBTQIA+ no Brasil: não é apenas uma questão de gênero ou orientação sexual, mas também de território, cidadania e dignidade.
Um manifesto vivo
Ao subir no palco ou ao pegar o microfone em um debate, Paulx não fala apenas por si. Fala por todas as pessoas trans, travestis e migrantes que cruzam fronteiras à procura de segurança, de saúde, de respeito e de um nome que não precise ser negado.

Sua presença nas conferências, sua poesia e sua escrita são atos de resistência e também de amor — amor por si, pela vida e pela humanidade que insiste em florescer, mesmo quando o mundo tenta arrancar suas raízes.
Em tempos de muros, ele constrói pontes. Em tempos de silêncios, ele declama. E em tempos de ódio, Paulx Simón Gialdroni é a prova viva de que existir é, também, um gesto de militância.
Texto e Pesquisa : Ghe Santos
Colaboração e Traduções Paulx Simón Gialdroni
Colunista especializado em pautas LGBTQIA+, direitos humanos e cultura periférica.
OBS – TODAS AS IMAGENS FORAM AUTORIZADAS O USO
