O samba cantou, o que o Estado calou: necropolítica em compasso de dor.

Éric Tomas
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Não foi uma ação. Foi um extermínio de corpos pobres, em sua maioria negros, que continuam sendo alvos preferenciais de uma política de morte travestida de segurança pública. No Brasil, a necropolítica tem CEP, tem cor e tem destino. A ausência do Estado e o silêncio das instituições matam duas vezes: primeiro, quem se vai; depois, os que ficam tentando sobreviver à dor e à falta de justiça.

O país assiste, mais uma vez, à repetição de um roteiro cruel, que ultrapassa em horror o massacre do Carandiru, em 1992. Operações policiais transformam-se em massacres, justificadas em nome da “ordem”. O que se chama de ação é, na verdade, o des(serviço) de um Estado que deveria proteger, mas que insiste em ceifar vidas, apagar histórias e interromper sonhos e trajetórias.

Nas favelas, a retaliação tem nome, cor e endereço. Cada hora revela mais um CPF, mais uma mãe sem filho, mais uma comunidade em luto. Já são mais de 120 famílias enlutadas. O morro chora, o sangue escorre, a bala corre e a cidade se . Escolas e hospitais fechados, famílias trancadas em casa — e o medo, mais uma vez, domina o cotidiano da população à margem.

A tragédia ecoa os versos eternos de Elza Soares, que há décadas denunciava:

“A carne mais barata do mercado é a carne negra.”
E ainda é.

Na voz de Leci Brandão, o samba sempre foi resistência. Em “Invasão”, composição de Carlos Caetano, Leci cantou o que o noticiário tenta naturalizar:

“A bala que choveu não era de chupar
Foi uma correria na favela
Sangue pelos becos e vielas Aquele senhor era um trabalhador
Aquele menino era um sonhador…”

A canção virou testemunho de um país que insiste em negar o valor da vida negra, onde a política pública se confunde com a política da bala. Enquanto a paz continua sendo o que “todo mundo tá querendo”, a democracia segue em xeque manchada por um mar de sangue que clama por justiça, humanidade e memória.

Em 2023, Leci voltou a cantar a vivência e a dor do povo do morro, em parceria com o projeto Favela Vive, reafirmando o samba como instrumento de denúncia social e voz da resistência:

“Nas favelas da Maré, Vila Isabel e Mangueira
Nasce uma nova líder popular
O morro tá cansado de aturar
A polícia entrar e atirar
E, antes de ir embora
Deixar no chão o corpo de uma mulher preta.

A favela quer viver, a favela quer viver
Mas a burguesia não se importa.”

O samba, mais uma vez, cantou o que o Estado calou.
Em cada tambor, uma memória. Em cada verso, um grito por vida.
Porque enquanto houver injustiça, o compasso da dor continuará a marcar o ritmo do Brasil real aquele que resiste, canta e denuncia.

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