Quantas vezes a gente se desequilibra e fica na corda bamba?
É preciso lembrar que até o circo voador precisa estar firme no chão. Ele não voa. Ele precisa de raiz para ser palco, para ser autêntico, para ser livre no espetáculo do picadeiro. É a materialização mais simples da arte e da resistência diária: é preciso ter raiz funda para poder voar alto sem perder o chão.
Cada pessoa tem sua própria maneira de buscar o prumo. E a rota da vida sempre cobra seu preço, exigindo equilíbrio constante. Por um momento, esse reconectar pode vir daquela força íntima que parecia adormecida, do abraço no que ficou perdido no meio do caminho, ou do encontro visceral com a ancestralidade — na força da terra, no sopro do ar, no perfume das flores e na imensidão do mar. É a vida chamando de volta para a própria essência.
E é exatamente essa busca profunda que reverbera na música quando ela cumpre seu papel mais sagrado.

Quando olhamos para a obra recente de Anitta, percebemos camadas que vão além do que o mercado costuma permitir que uma mulher pop brasileira seja. Não estamos falando apenas de performance. Estamos falando de uma artista que tateia o intocável e o possível ao expor sua pluralidade sem pedir licença.
O trabalho traz a totalidade de Larissa. Expõe raízes, interioridade, contradições, sem medo de julgamento, de likes ou de pré-conceitos. Anitta coloca em destaque seu processo de autotransformação e afirma, com coragem, a existência da religião de matriz africana como processo de cura e como afirmação de brasilidade.
Em um país que ainda demoniza o sagrado de matriz africana, que ainda tenta enquadrar mulheres artistas em um lugar de superficialidade, dizer que se curou a partir do terreiro, da natureza e da ancestralidade é ato político. É memória. É incidência.
Nesse processo de queda e reerguimento — que é humano, não apenas artístico — a música cumpre o que lhe cabe de mais potente: ser parte autêntica da nossa cura. Ser o compasso exato que devolve o equilíbrio quando o picadeiro balança forte demais.
Anitta não está apenas fazendo música. Está nos lembrando que equilíbrio não é ficar parada. É saber onde se apoiar para continuar em movimento.
