O litoral de São Paulo amanheceu nesta quinta-feira (1º) diante da destruição de um dos símbolo da paisagem cultural de São Vicente.
Na tarde de quarta-feira (30), um incêndio consumiu completamente a estátua da Feiticeira, instalada sobre a formação rochoso que leva o mesmo nome, na Praia do Itararé. A escultura tinha aproximadamente 3,5 metro de altura e foi criada pelo artista plástico Francisco Telles, sendo colocada no local em 2010.

O Corpo de Bombeiros foi acionado para combater as chamas. Oito bombeiro e três viatura participaram da ocorrência e não houve registro de vítimas. As circunstâncias que provocaram o incêndio ainda estão sendo apuradas.
Mas, para além da destruição física de uma obra de arte, o episódio abriu outra discussão: o que significa colocar fogo em uma representação cultural associada à figura de uma feiticeira em um país marcado por episódio de intolerância contra diferente expresses religiosas e espirituais?
UMA LENDA QUE FAZ PARTE DA MEMÓRIA CAIÇARA
A Feiticeira não era apenas uma escultura colocada sobre uma pedra.
A obra representava uma personagem de uma antigo narrativa popular associada à Pedra da Feiticeira. Segundo a lenda, uma mulher teria se apaixonado por um marinheiro português que partiu prometendo retornar.
Depois de esperar pelo seu retorno, a mulher teria permanecido na região até que, acreditando ter visto o amado em uma embarcação, entrou no mar e acabou morrendo afogada.
A história atravessou gerações e passou a integrar o imaginário local. A escultura criada por Francisco Telles transformou essa narrativa em uma presença física na paisagem de São Vicente.
Ao longo dos anos, a Feiticeira também se tornou ponto de referência para moradores e visitantes e parte da identidade visual da Praia do Itararé.
QUANDO UMA ESTÁTUA DEIXA DE SER APENAS UMA ESTÁTUA
A destruição da obra provocou manifestações que ultrapassam a discussão sobre patrimônio turístico.

Em uma nota de repúdio, Mãe Carla Ifakemi classificou o episódio como uma possível expressão de intolerância religiosa e chamou atenção para o significado simbólico da destruição pelo fogo.
Para ela, a imagem de uma “feiticeira” sendo consumida pelas chamas remete historicamente à perseguição de mulheres associadas à magia, à cura e a diferente formas de espiritualidade.
A manifestação também estabelece uma conexão com outros formas contemporâneas de intolerância religiosa, especialmente aquelas que atingem comunidades de matriz africana, tradições espiritualistas, religiões neopagãs e outros grupo que historicamente enfrentam preconceito.
É uma interpretação apresenta pela liderança religiosa diante do episódio — e não, até o momento, uma conclusão oficial sobre a motivação do incêndio.
A CAUSA DO INCÊNDIO AINDA ESTÁ SENDO INVESTIGADA
O ponto central neste momento é distinguir o que já está confirmado daquilo que ainda precisa ser investigado.
Está confirmado que a escultura foi consumida pelo fogo na tarde de 30 de setembro. Também está confirmado que a Prefeitura pretende utilizar imagens de câmera da região para tentar esclarecer o que aconteceu. O prefeito Kayo Amado esteve no local na noite do incêndio e afirmou que a administração buscará as imagens disponíveis para auxiliar na apuração.
Portanto, não há, até o momento, confirmação pública de que o incêndio tenha sido provocado por intolerância religiosa.
Essa investigação, entretanto, não diminui a importância do debate provocado pela destruição da obra.
Se houver comprovação de ação criminoso e de motivação relaciona à intolerância religiosa, o episódio assumirá uma dimensão ainda mais grave. Se a investigação apontar outra causa, a discussão sobre patrimônio, preservação cultural e memória permanecerá igualmente necessária.
“NÃO BASTA SÓ PROMETER OUTRA ESTÁTUA”
Após o incêndio, Kayo Amado anunciou que a Prefeitura pretende reconstruir a escultura.
Nesta quinta-feira (1º), a administração municipal se reuniu com familiares de Francisco Telles para discutir uma nova versão da obra. A intenção anunciada é preservar o conceito desenvolvido originalmente pelo artista.
A reconstrução, porém, não encerra a questão.
Para Mãe Carla Ifakemi, é necessário ir além da reposição física do monumento. Sua manifestação cobra investigação, responsabilização caso seja constata uma ação criminoso e respeito ás diferente formas de expressão religiosa e espiritual.
É uma cobrança que desloca o debate da pergunta “quando haverá uma nova estátua?” para outra questão: o que uma cidade faz para proteger sua memória e enfrentar atos de intolerância quando ele acontecem?
PATRIMÔNIO, RELIGIÃO E MEMÓRIA
A destruição da Feiticeira também evidencia como patrimônio cultural não é formado apenas por grandes monumento oficiais.
Ele também está nas histórias contadas por gerações, nas lenda populares, nas obras de artista locais, nas paisagem reconhecia pela população e nos símbolo que ajudam uma comunidade a contar a próprio história.
Francisco Telles deixou outros obras em São Vicente, entre elas a estátua de Padre Anchieta, na Praça da Biquinha. A Feiticeira, instalada em 2010, tornou-se outro marco de sua produção na cidade. O artista morreu em 2016.
Reconstruir a escultura pode recuperar sua presença física.
Mas preservar a história exige também investigar o que aconteceu, registrar a memória da obra destruída e garantir que diferente manifestações cultuais e religiosas possam existir sem violência.
“QUEIMAR ESTÁTUA NÃO APAGA A HISTÓRIA”
A frase presente na manifestação de Mãe Carla resume a dimensão simbólica que o episódio ganhou: “Queimar pedra não apaga a história. Queimar estátua não apaga a nossa fé.”
A investigação ainda precisa responder como o fogo começou e se houve ação criminoso.
Enquanto essa resposta não chega, permanece uma certeza: São Vicente perdeu uma obra que fazia parte de sua paisagem e de sua memória cultural.
E permanece também uma pergunta que ultrapassa a Pedra da Feiticeira: que tipo de sociedade estamos construindo quando símbolo cultuais, religiosos ou espirituais podem se transformar em alvos de violência?
Reconstruir uma estátua pode devolver uma imagem à paisagem.
Preservar a memória, combater a intolerância e garantir respeito à diversidade cultural e religiosa exige muito mais.
