Novas evidências reforçam segurança da gravidez para mulheres vivendo com HIV

Portal Inhaí
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Matéria originalmente publicada em Agência Aids

Por Glaucia Magalhães

Da gravidez ao desenvolvimento infantil, passando pela amamentação e pela busca de estratégias para a cura do HIV, pesquisadores reunidos na 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026) apresentaram evidências que indicam uma mudança importante na forma como gestantes, bebês e crianças expostas ao HIV devem ser acompanhados.

A sessão “De pesquisa a vida real: Transformando evidências em cuidados de gravide, amamentação e pediatria” mostrou como avanços da ciência básica, clínica e epidemiológica estão sendo traduzidos em modelos de cuidado mais seguros e centrados nas pessoas. Ao longo dos debates, especialistas destacaram que o objetivo vai além da prevenção da transmissão vertical: trata-se de garantir saúde, desenvolvimento e qualidade de vida para mães, crianças e famílias.

Na abertura, Jessica Whitbread, ativista da AWID e integrante da International Community of Women Living with HIV (ICW), lembrou como o debate evoluiu na última década.

“Quando tive meus gêmeos, há dez anos, vivendo com HIV no Canadá, fui a primeira mulher a amamentar abertamente com apoio da minha equipe médica. Naquela época essa conversa era muito diferente. Hoje estamos discutindo como apoiar famílias e crianças com base em evidências científicas”, disse.

Supressão viral sustentada aproxima gravidez do conceito “Indetectável=Intransmissível”

A infectologista argentina Dra. Leda Guzzi apresentou dados que mostram o impacto da terapia antirretroviral iniciada antes da concepção e mantida durante toda a gestação.

Segundo Dra. Guzzi, a transmissão vertical caiu de taxas entre 15% e 45%, antes da introdução da terapia antirretroviral, para menos de 1% atualmente.

“A supressão viral é importante, mas a supressão viral precoce e sustentada é ainda mais importante”, afirmou.

A pesquisadora explicou que estudos envolvendo aproximadamente cinco mil gestações demonstram que mulheres que iniciam a gravidez já com carga viral indetectável e mantêm esse controle durante toda a gestação apresentam risco de transmissão “próximo de zero”.

“Esse é o conceito de I=I na gravidez”, afirmou, referindo-se ao princípio de que pessoas com carga viral indetectável não transmitem o HIV por via sexual.

Amamentação deixa de ser tabu

Embora ressalte que ainda existem perguntas científicas sem resposta, Dra. Guzzi afirmou que as evidências acumuladas nos últimos anos mostram que a transmissão pelo leite materno torna-se extremamente rara quando a mãe mantém supressão viral sustentada.

“A mensagem tem sido notavelmente consistente: quando as mães permanecem biologicamente suprimidas, a transmissão pós-natal torna-se extremamente rara. Nos relatos mais recentes, nenhuma transmissão foi observada”, afirmou.

A pesquisadora apresentou resultados do primeiro programa estruturado da Argentina para apoiar a amamentação entre mulheres vivendo com HIV.

Das 25 mulheres elegíveis, 22 iniciaram a amamentação e, entre as 15 que já concluíram o acompanhamento pós-desmame, não houve nenhum caso de transmissão do HIV aos bebês.

“A amamentação mostrou-se viável e segura quando realizada com supressão viral sustentada, acompanhamento rigoroso e tomada de decisão compartilhada”, explicou.

Para Dra. Guzzi, o foco precisa deixar de ser apenas a redução do risco.

“O objetivo das evidências não é apenas reduzir o risco, mas apoiar um cuidado centrado na pessoa e nos direitos humanos.”

Ao final de sua apresentação, ela parabenizou o Brasil pelo reconhecimento da eliminação da transmissão vertical do HIV, conquistado em dezembro de 2025.

Crianças expostas ao HIV precisam ser acompanhadas além da transmissão

O pediatra espanhol Dr. Alfredo Tagarro chamou atenção para outro desafio: compreender os impactos da exposição ao HIV mesmo entre crianças que não adquirem o vírus.

De acordo com Dr. Tagarro, atualmente existem mais de 15 milhões de crianças expostas ao HIV, mas não infectadas.

“Precisamos responder se essa é uma realidade, qual é essa realidade e quais intervenções podem ser propostas”, afirmou.

Ele explicou que estudos mostram maior risco de algumas infecções, alterações no neurodesenvolvimento e diferenças na resposta imunológica, embora pesquisas mais recentes indiquem melhora desses desfechos à medida que as mães iniciam precocemente o tratamento e mantêm boa saúde durante a gestação.

“A mensagem mais forte é que uma mãe saudável, com uma gravidez saudável, terá um bebê saudável”, resumiu durante o debate.

Dr. Tagarro destacou ainda que fatores como pobreza, insegurança alimentar, saúde mental materna, violência e acesso aos serviços influenciam fortemente os resultados das crianças.

“As melhores intervenções continuam sendo garantir uma mãe saudável, uma gravidez saudável, amamentação quando possível e boas condições de água, saneamento e higiene”, afirmou.

O pesquisador também defendeu maior investimento em programas de estimulação precoce e acompanhamento do desenvolvimento infantil.

Tratamento precoce reduz reservatórios do HIV

A imunologista sul-africana Dra. Caroline Tiemessen abordou outro aspecto: o comportamento do vírus em crianças que adquirem HIV ao nascer.

De acordo com os estudos de Dra. Tiemessen, iniciar a terapia antirretroviral nas primeiras semanas de vida reduz significativamente o tamanho dos reservatórios virais — células onde o HIV permanece “escondido” mesmo com carga viral indetectável.

“O tratamento precoce é fundamental não apenas para reduzir morbidade e mortalidade, mas também para diminuir a ativação imunológica, preservar o sistema imune e aumentar as chances de controle do vírus após eventual interrupção do tratamento”, explicou.

Ela mostrou que lactentes apresentam reservatórios menores do que adultos e que esses reservatórios diminuem mais rapidamente quando o tratamento é iniciado muito cedo.

Segundo a pesquisadora, compreender essas diferenças poderá acelerar estratégias de remissão e cura funcional do HIV.

“Os desfechos precoces continuam sendo parte essencial do desenvolvimento de novas terapias”, afirmou.

Direitos humanos no centro do cuidado

A discussão final da sessão extrapolou os aspectos biológicos.

Representantes da sociedade civil defenderam que mulheres vivendo com HIV deixem de ser tratadas apenas como potenciais transmissoras do vírus.

“Sabemos que abordagens baseadas em direitos humanos são muito mais eficazes do que coerção ou punição”, afirmou participante da HIV Justice Network ao questionar os palestrantes.

Dra. Leda Guzzi respondeu que esse precisa ser o caminho da assistência. “O cuidado em saúde deve ser centrado na pessoa. Nenhuma mulher deve ser punida ou criminalizada, porque isso a afasta do sistema de saúde. Precisamos de um atendimento acolhedor e inclusivo”, afirmou.

Jessica Whitbread reforçou que o debate deve abandonar a lógica da culpa. “Os bebês que nascem vivendo com HIV também são incríveis. Eles não são erros. Precisamos parar de falar sobre eles dessa forma”, declarou.

Ao encerrar a sessão, os especialistas defenderam que as evidências produzidas nos últimos anos precisam chegar rapidamente aos serviços de saúde e às políticas públicas, permitindo que mulheres, crianças e famílias tenham acesso a um cuidado mais seguro, humanizado e baseado em direitos.

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



Por Midia Ninja

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