Por Alice Gomes – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
No quintal de uma casa nos subúrbios do norte de Adelaide, um menino filho de refugiados burundeses aprendeu a jogar bola com os irmãos mais velhos. A família havia cruzado fronteiras, países e continentes, de Kigoma, na Tanzânia, até a Austrália, antes de encontrar um lugar para chamar de seu.
Nestory Irankunda não sabia que estava treinando para uma Copa do Mundo. Sabia apenas que o futebol era o lugar onde ele pertencia.
Irankunda nasceu em 9 de fevereiro de 2006, em Kigoma, terceiro filho de Gideon e Dafroza, burundeses que fugiram da guerra civil no país. Quando tinha apenas três meses de vida, a família foi reassentada na Austrália. Primeiro em Perth. Depois, em 2013, nos subúrbios do norte de Adelaide.
Foi ali que começou a construir as raízes que o acompanhariam por toda a vida.
No quintal de casa, jogando com os irmãos mais velhos, descobriu o futebol. Aos oito anos, foi convidado para integrar o time sub-10 do Parafield Gardens após ser visto jogando pela vizinhança. A trajetória nas categorias de base passou ainda pelo Northern Wolves e pelo Adelaide Croatia Raiders, onde começou a chamar atenção dos olheiros locais.
Enquanto se destacava dentro de campo, Irankunda construía também vínculos que o acompanhariam até a seleção australiana.
Foi em uma quadra de escola que conheceu Mohamed Touré. Filho de refugiados guineenses que também haviam reconstruído a vida em Adelaide, Touré compartilhava uma história que, de muitas formas, se parecia com a sua.
A amizade nasceu entre partidas improvisadas, atravessou os parques da cidade e chegou ao Adelaide United, primeiro clube profissional dos dois. Filhos de famílias que encontraram na Austrália uma nova oportunidade, cresceram juntos dentro e fora de campo. Anos depois, chegariam à seleção australiana carregando muito mais do que o mesmo uniforme. A história que dividiam havia começado muito antes dos gramados.
“Essa é a melhor parte, poder estar aqui com caras que conheço desde pequeno”, declarou Irankunda à ESPN. “Crescemos juntos, nos conhecemos há muito tempo, e nossa amizade é muito próxima.”
A possibilidade de dividir o campo em uma Copa do Mundo com amigos que fizeram parte de sua infância dá mais uma dimensão especial à trajetória do atacante.
Mas os amigos não foram os únicos responsáveis por ajudá-lo a chegar até ali.
Dentro de casa, o sonho também era compartilhado. Antes que ele tivesse idade para dirigir, o pai o levava para todos os jogos. Os irmãos mais velhos abriram mão do próprio futebol para ajudar a pagar as taxas dos clubes onde o caçula jogava. O caminho que levaria Nestory aos maiores palcos do esporte também foi construído pelos sacrifícios feitos pela família.
Para o atacante, eles continuam sendo seus heróis.
O apoio recebido em casa ajudou a impulsionar uma ascensão meteórica. Em setembro de 2021, aos 15 anos, assinou seu primeiro contrato profissional com o Adelaide United. Poucos meses depois, estreou na equipe principal e se tornou um dos jogadores mais jovens a marcar na competição.
Aos poucos, o garoto que chegara à Austrália ainda bebê deixava de ser apenas mais um menino dos subúrbios de Adelaide. Tornava-se um símbolo de uma nova geração de australianos, formada por filhos de famílias que cruzaram fronteiras em busca de uma nova oportunidade.
O talento rapidamente despertou interesse europeu. Quando decidiu seguir para o Bayern de Munique, a escolha carregava um significado especial para a família. Anos antes, Irankunda havia visto uma fotografia do pai usando uma camisa do clube alemão ainda no campo de refugiados onde a família vivia na Tanzânia.
A imagem ficou guardada na memória.
Anos depois, o filho pisaria no mesmo clube que, de alguma forma, já fazia parte da história da família muito antes de sua chegada à Europa
Após passagens pelo Bayern de Munique e pelo Grasshopper, da Suíça, Irankunda chegou ao Watford em 2025, dando continuidade a uma trajetória que parecia improvável quando seus pais desembarcaram na Austrália com um bebê de poucos meses nos braços.
Enquanto acumulava experiência no futebol europeu, também se consolidava como uma das principais esperanças da nova geração dos Socceroos. Tony Popovic, técnico da seleção australiana, não esconde a confiança no potencial do atacante.
“Acredito que eles [Irankunda e Touré] podem causar impacto na Copa do Mundo. Eles têm qualidade e, quando estão em campo, demonstram que é ali o lugar deles”, afirmou.
Aos 20 anos, o atacante acumula 15 convocações e cinco gols pela seleção australiana. Mas os números contam apenas parte da história. Chegar à Copa do Mundo ao lado de jogadores com quem cresceu em Adelaide dá à conquista um significado que vai além do desempenho dentro de campo.
“Só de estar aqui com eles, e potencialmente dividir o campo em uma Copa do Mundo… é simplesmente incrível.”
Em sua primeira Copa do Mundo, Irankunda é apenas um dos muitos jogadores com histórias que atravessam fronteiras. Mas poucas trajetórias simbolizam tão bem a transformação da Austrália quanto a sua.
Ao disputar sua primeira Copa do Mundo, ele carregará mais do que as expectativas depositadas em uma das maiores promessas do futebol australiano. Carregará a história de uma família que cruzou continentes em busca de um novo começo, dos amigos que cresceram ao seu lado nos subúrbios de Adelaide e de uma geração que encontrou no futebol um espaço para construir identidade e comunidade.
Para o menino que nasceu em um campo de refugiados, talvez não exista símbolo maior de pertencimento do que vestir a camisa do país que deu à sua família a chance de recomeçar.
