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Carnaval,não é esse colosso. O novo controle divide público nos ensaios da Sapucaí

Carnaval do povo ou espetáculo controlado? O Carnaval carioca nasceu na rua, cresceu na rua e se tornou símbolo da cultura popular brasileira justamente…

Carnaval do povo ou espetáculo controlado?

O Carnaval carioca nasceu na rua, cresceu na rua e se tornou símbolo da cultura popular brasileira justamente porque sempre foi construído por quem vive o samba no cotidiano. Basta olhar a próprio trajetória dos desfiles para entender isso.

Na década de 1930, as escolas ocupavam a Praça Onze, berço do samba urbano. Depois vieram ose desfiles na Avenida Rio Branco, entre 1942 e 1944. Em 1945, o cenário mudou novamente: ose desfiles foram para o estádio do Vasco da Gama. Entre 1946 e 1956, e depois de 1976 a 1978, houve estruturas com arquibancada tubulares. A Avenida Antônio Carlos também recebeu desfiles antes da consolidação na Marquês de Sapucaí. Já em 1978, as escolas passaram a desfilar na próprio Av;Marques de Sapucaí, anos antes da construção definitiva do Sambódromo, inaugurado em 1984.

Ou seja: o Carnaval sempre se adaptou aos espaços, ás cidade e aos tempos mas nunca deixou de ser, essencialmente, manifestação popular.

Esse olhar crítico sobre as transformações do Carnaval não é novo. Ele aparece, por exemplo, na obra de Leci Brandão, filha, neta e afilhada de Mangueirense . Em Zé do Caroço, quando ela canta “Carnaval não é esse colosso”, está justamente questionando a ideia de um Carnaval reduzido ao espetáculo luxuoso, televisivo e comercial. A música exalta o morro, a comunidade, a cultura viva e não apenas a grandiosidade cenográfico.

É nesse contexto que surge a polêmica atual sobre o novo modelo de acesso aos ensaios técnico na Sapucaí, que passará a ser feito por aplicativo e também de forma presencial, mantendo-se gratuito. A justificativa oficial é organizar o público diante da procura crescente e atender ás orientações de segurança.

Na prática, porém, a medida acendeu um alerta entre sambista e folgues. Muito se manifestaram na página Rio Carnaval pois enxergam o controle de acesso como o início de um processo que pode restringir a liberdade de simplesmente chegar e assistir ao ensaio, como sempre aconteceu. Outros levantam uma questão central: nem toda a população tem acesso fácil à internet ou familiaridade com aplicativo. Para essas pessoas, o processo se torna mais difícil, mais burocrático e, na percepção de muito, mais excludente.

O que deveria ser garantia de organização pode virar filtro social. Quem não consegue se cadastrar fica refém de filas, incerteza e da possibilidade real de não conseguir entrar. Para uma festa que sempre se orgulhou de ser democrática, isso soa como um sinal preocupante.

Há também o receio de que esse modelo seja um teste para, no futuro, reduzir ou até acabar com a gratuidade dos ensaios técnico. Enquanto isso, nos desfiles oficiais, a lógica é outra: arquibancada cheias e ingresso vendido. O dinheiro circula e o acesso é garantido a quem pode pagar valores altos,haja exceção da arquibanca popular que tem preço consideras .

A pergunta que fica é simples e profundo: a organização está protegendo o público ou domesticando o Carnaval?

O povo quer ocupar, cantar o samba-enredo, viver a experiência do Sambódromo como parte de sua próprio história. O Carnaval é patrimônio cultural, é identidade, é memória coletiva. Quando o acesso se torna cada vez mais mediado por cadastro, controles e barreira tecnológico, corre-se o risco de afastar justamente quem sustenta essa festa há gerações.

O Carnaval pode até mudar de endereço ao longo do tempo. Mas, se deixar de ser do povo, perde sua essência. E aí, como já avisava o samba: não será mais o mesmo Carnaval.

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