Milei desembarca no Brasil para apoiar Flávio Bolsonaro em convenção do PL – OCenário

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Presidente argentino participará do lançamento da candidatura do senador à Presidência em meio à queda nas pesquisas, disputas internas no bolsonarismo e tentativa de consolidar uma aliança regional de direita.


Milei participará de convenção do PL

O presidente da Argentina, Javier Milei, viajará ao Brasil nesta sexta-feira (24) para declarar apoio à candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro durante a convenção do Partido Liberal.

A participação representa um endosso pouco comum de um chefe de Estado estrangeiro no lançamento de uma candidatura presidencial brasileira.

Milei deve utilizar o evento para reforçar a proximidade ideológica com o bolsonarismo e defender uma articulação regional entre governos e candidatos de direita.

Para a campanha de Flávio, a presença do argentino ocorre em um momento de desgaste interno, perda de terreno nas pesquisas e dificuldade para reunir diferentes setores conservadores em torno de uma única candidatura.


Apoio busca mobilizar eleitorado ideológico

A participação de Milei poderá ajudar o PL a mobilizar a parcela mais ideológica da base bolsonarista e apresentar Flávio como integrante de um movimento conservador internacional.

“Ter o Milei na convenção ajuda a motivar, mobilizar essa base mais ideológica”, avaliou Silvio Cascione, diretor da Eurasia Group para o Brasil.

Flávio vem tentando construir uma imagem internacional por meio de viagens e encontros com líderes estrangeiros. O senador já esteve na Europa, no Oriente Médio e em Washington, onde se reuniu com o presidente Donald Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio.

A estratégia procura associar sua candidatura a uma aliança conservadora global, baseada em pautas econômicas liberais, endurecimento da segurança pública e maior proximidade com os Estados Unidos.


Candidatura enfrenta resistência dentro da direita

Apesar do apoio de Milei, Flávio ainda encontra dificuldades para consolidar a direita brasileira em torno de seu nome.

Partidos conservadores evitaram aderir formalmente à candidatura, enquanto lideranças regionais mantêm projetos próprios ou aguardam uma definição mais clara do cenário eleitoral.

A escolha de Flávio como candidato do bolsonarismo também afastou, pelo menos temporariamente, a possibilidade de o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, representar o campo político na disputa presidencial.

O apoio de Jair Bolsonaro ao filho foi interpretado como uma tentativa de manter a candidatura presidencial dentro da própria família. Ainda assim, o ex-presidente continua exercendo influência sobre diferentes grupos do bolsonarismo, o que dificulta a afirmação de Flávio como único herdeiro político do movimento.


Pesquisas mostram vantagem de Lula

O senador perdeu terreno para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos levantamentos mais recentes.

Uma pesquisa Quaest mostrou Lula com 45% das intenções de voto contra 37% de Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa de segundo turno. A diferença é de oito pontos percentuais.

O cenário representa uma mudança em relação a abril, quando Flávio apareceu numericamente à frente, embora os dois estivessem tecnicamente empatados dentro da margem de erro.

Desde então, Lula recuperou parte da aprovação de seu governo, enquanto a candidatura do senador passou a enfrentar crises internas e questionamentos relacionados à atuação internacional da família Bolsonaro.

Analistas ainda consideram provável um segundo turno entre Lula e Flávio, mas avaliam que o atual momento político favorece o presidente.


No mês passado, uma briga pública entre Flávio Bolsonaro e sua madrasta, Michelle Bolsonaro, expôs divisões dentro da família e do grupo político.

O conflito provocou repercussão especialmente entre o eleitorado feminino e levantou dúvidas sobre a capacidade do senador de unir todas as correntes do bolsonarismo.

Michelle possui capital político próprio e mantém influência sobre uma parte significativa da base conservadora, principalmente entre mulheres e eleitores evangélicos.

Flávio publicou pedidos de desculpas à ex-primeira-dama, mas o episódio continuou influenciando o debate sobre sua candidatura.

Para o analista político Rafael Favetti, o senador enfrenta um desgaste interno e ainda precisa disputar a posição de herdeiro da marca Bolsonaro com Michelle e outros aliados próximos ao ex-presidente.


Caso Master também pressiona campanha

Outro ponto de desgaste envolve o financiamento de um filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.

Em maio, Flávio confirmou informações de que o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, financiou a produção. Vorcaro posteriormente foi preso em uma investigação envolvendo suspeitas de fraude e corrupção.

O assunto voltou a ganhar repercussão depois que a Polícia Federal recebeu autorização para investigar as circunstâncias do financiamento.

A existência da apuração não representa uma conclusão sobre irregularidades cometidas pelo senador ou pelo ex-presidente. O caso, porém, acrescenta um novo elemento de pressão política sobre a campanha.

Até a tarde de quinta-feira (23), a assessoria de Flávio Bolsonaro não havia respondido ao pedido de posicionamento da Reuters.


Tarifaço americano atingiu discurso internacional

A aplicação de tarifas adicionais pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros também afetou a estratégia internacional da família Bolsonaro.

Flávio viajou aos Estados Unidos e buscou interlocução com integrantes do governo Trump. O senador afirmou que tentou evitar as tarifas, enquanto o governo Lula acusa a família Bolsonaro de ter colaborado com pressões contra o Brasil.

Uma pesquisa Quaest mostrou que a maior parte dos entrevistados atribui a Flávio responsabilidade política pelo tarifaço, apesar das negativas do senador.

A controvérsia colocou em dúvida os resultados práticos da aproximação com Washington e obrigou a candidatura a administrar a percepção de que uma articulação estrangeira poderia ter produzido consequências negativas para a economia brasileira.

A presença de Milei ocorre justamente nesse cenário, reforçando novamente o componente internacional da campanha.


Direita avança em países da América Latina

O apoio do presidente argentino também procura conectar Flávio Bolsonaro à sequência de vitórias eleitorais obtidas pela direita em países latino-americanos.

A vitória de Milei na Argentina, em 2023, foi seguida pelo fortalecimento de candidatos conservadores em diferentes partes da região.

Segundo uma análise do JPMorgan, preocupações com criminalidade, baixo crescimento econômico e insatisfação com governos tradicionais favoreceram plataformas baseadas em três eixos: endurecimento da segurança pública, políticas favoráveis ao mercado e aproximação com Washington.

Após a passagem pelo Brasil, Milei seguirá para o Peru, onde participará da posse de Keiko Fujimori em 28 de julho.

O presidente argentino também deverá visitar o Equador para se reunir com Daniel Noboa e a Colômbia para acompanhar a posse de Abelardo de la Espriella, marcada para 7 de agosto.


Segurança pública ocupa espaço central

A agenda apresentada por Flávio possui pontos em comum com as plataformas conservadoras que ganharam espaço na região.

Na segurança pública, o senador defende a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos e a construção de novos presídios de segurança máxima.

As propostas são inspiradas, em parte, no modelo adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que ampliou prisões e ações de repressão contra organizações criminosas.

A segurança deverá ocupar uma posição central na campanha de Flávio diante da preocupação dos eleitores com crimes violentos, facções e insegurança urbana.

Os adversários, entretanto, deverão questionar a viabilidade das propostas e os impactos sobre o sistema penitenciário e os direitos individuais.


Flávio promete cortes e privatizações

Na economia, Flávio Bolsonaro defende uma agenda de redução de impostos, privatizações e diminuição do tamanho do Estado.

O senador também critica o governo Lula pela inflação dos alimentos e pelo impacto do custo de vida sobre as famílias.

A plataforma possui proximidade com o discurso econômico de Milei, que chegou à Presidência argentina defendendo cortes de despesas, redução da estrutura estatal e reformas favoráveis ao mercado.

Essa convergência ajuda a explicar a disposição do argentino de participar da convenção do PL e apoiar publicamente o senador.

Ao mesmo tempo, a associação com Milei deverá ser explorada pelos adversários, que poderão comparar os resultados econômicos e sociais das medidas adotadas na Argentina com as propostas apresentadas no Brasil.


Campanha tenta aproximar Flávio do centro

O principal desafio da candidatura será conservar o apoio dos eleitores mais fiéis a Jair Bolsonaro e, simultaneamente, conquistar uma parcela do centro político.

Desde que recebeu o apoio do pai, Flávio procura se apresentar como uma figura mais moderada.

“Eu me considero, de verdade, um Bolsonaro mais centrado”, afirmou o senador em entrevista concedida à Reuters em dezembro.

A estratégia enfrenta dificuldades porque a base mais ideológica espera uma continuidade direta do estilo político do ex-presidente, enquanto eleitores moderados demonstram cansaço com a polarização.

O apoio de Milei pode mobilizar os bolsonaristas mais engajados, mas não garante automaticamente a expansão da candidatura entre indecisos e eleitores de centro.


Visita reforça dimensão internacional da eleição

A presença de Javier Milei transforma a convenção do PL em um evento de alcance internacional e ajuda Flávio Bolsonaro a reforçar sua ligação com a direita latino-americana.

O apoio chega em um momento importante, mas não elimina os obstáculos domésticos enfrentados pelo senador.

Flávio ainda precisa recuperar terreno nas pesquisas, encerrar disputas dentro do próprio grupo político, atrair outros partidos e reduzir os efeitos das crises recentes.

A visita do presidente argentino poderá gerar mobilização e visibilidade para o lançamento da candidatura. O impacto eleitoral, entretanto, dependerá da capacidade do senador de transformar o apoio estrangeiro em votos dentro do Brasil.



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