Modelo de I.A analisa características moleculares de tumores cerebrais infantis para estimar a evolução da doença (Imagem gerada por I.A)
Escolher a intensidade adequada do tratamento contra o câncer cerebral na infância é um desafio para os médicos. É preciso combater a doença e reduzir o risco de retorno do tumor, mas também evitar que terapias muito agressivas provoquem consequências duradouras para o desenvolvimento, a memória e a aprendizagem. Uma pesquisa publicada na revista Nature Genetics apresenta uma ferramenta de inteligência artificial que pode contribuir para esse equilíbrio.
Batizado de MANTIS, o modelo foi desenvolvido por uma equipe internacional liderada por pesquisadores do Dana-Farber Cancer Institute, nos Estados Unidos. A tecnologia utiliza informações moleculares dos tumores para estimar a evolução da doença em cada paciente e investigar quais crianças poderiam receber tratamentos menos intensos sem apresentar uma perda significativa nas perspectivas de sobrevida.
Um prognóstico que considera as características de cada tumor
O MANTIS foi desenvolvido inicialmente para analisar o meduloblastoma, um dos tumores malignos cerebrais mais comuns na infância, e posteriormente adaptado para o estudo dos ependimomas, outro tipo de câncer que pode apresentar comportamentos bastante diferentes entre os pacientes.
A ferramenta utiliza informações obtidas por meio do perfil de metilação do DNA, exame que identifica padrões químicos associados à atividade dos genes e já é empregado na investigação e classificação de tumores. O modelo também considera alterações no número de cópias de determinadas regiões do material genético.
Com esses dados, a inteligência artificial produz estimativas individualizadas de sobrevida ao longo do tempo. Em vez de enquadrar todas as crianças em categorias amplas de risco, a tecnologia procura identificar diferenças biológicas que podem influenciar a evolução da doença.
Os pesquisadores observaram que o sistema apresentou desempenho superior a métodos tradicionais de previsão de risco em diversos grupos utilizados para validação. Isso indica que a análise molecular pode oferecer informações adicionais para compreender por que pacientes com diagnósticos semelhantes apresentam trajetórias diferentes.
Mais de metade dos pacientes pode ser candidata a menos radiação
Uma das descobertas mais relevantes envolve o tratamento do meduloblastoma. Em determinados casos, a radioterapia é direcionada ao cérebro e à medula espinhal para combater possíveis células tumorais que possam permanecer no sistema nervoso central.
Embora seja importante para controlar a doença, a exposição à radiação pode provocar efeitos tardios, especialmente durante a infância. Entre as possíveis consequências estão dificuldades de aprendizagem, alterações de memória e prejuízos ao desenvolvimento cognitivo.
Os pesquisadores adaptaram o MANTIS para estimar como diferentes doses de radioterapia poderiam influenciar os resultados dos pacientes. Nas análises, o modelo indicou que mais da metade das crianças classificadas como de risco médio para meduloblastoma poderia ser candidata a receber uma dose menor de radiação.
Nos dados avaliados, a redução da dose esteve associada a melhores resultados cognitivos, sem que fosse identificada uma desvantagem significativa de sobrevida para esse grupo.
O resultado aponta uma possibilidade importante: utilizar informações sobre a biologia de cada tumor para evitar que algumas crianças sejam submetidas a tratamentos mais intensos do que aqueles potencialmente necessários.
Como a tecnologia pode apoiar as decisões médicas
Atualmente, a definição do tratamento considera diferentes informações, como o tipo de tumor, a idade da criança, características moleculares e outros indicadores clínicos. Mesmo assim, pacientes classificados em uma mesma categoria de risco podem responder de maneiras distintas às terapias.
A proposta do MANTIS é acrescentar uma camada de análise a esse processo. Ao combinar informações genéticas e moleculares com dados de acompanhamento dos pacientes, o sistema procura identificar padrões que poderiam passar despercebidos em avaliações mais gerais.
Outro aspecto importante é que a ferramenta utiliza dados de exames moleculares que já fazem parte da investigação de tumores cerebrais em centros especializados. Isso pode facilitar sua eventual incorporação à rotina médica, caso os resultados sejam confirmados e o modelo passe pelas etapas necessárias de validação.
Apesar dos resultados promissores, o MANTIS ainda não deve ser entendido como uma ferramenta pronta para determinar tratamentos de forma independente. As previsões geradas pelo sistema precisam ser avaliadas em novas pesquisas e comparadas com os resultados observados na prática clínica
Bruna Valle
jornalista
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Fonte: Antena 1.
