Por João Vitor Sooma, Núcleo de Políticas e Alternativas, FASE
Responsável por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, o Agro transformou a Conferência do Clima da ONU em vitrine. Na trigésima Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), Belém viu a sede da Embrapa Amazônia Oriental abrigar a gigantesca agriZone. O espaço funcionou como um verdadeiro showroom da chamada agricultura tropical regenerativa – o pacote tecnológico e de práticas produtivas com o qual o agronegócio promete solucionar a crise climática.
Ao longo dos anos, as COPs contaram com uma participação cada vez maior de lobistas do setor, pressionando Estados e apresentando soluções de mercado que buscam conferir legitimidade socioambiental e garantir financiamento climático para o agronegócio. Dentre as agendas de negociação atuais – de implementação da Convenção-Quadro ou do Acordo de Paris –, a discussão sobre agricultura se resume a como adaptar os produtores à mudança do clima. É nesse espaço que o agronegócio intensifica seu lobby.
Na equipe de negociadores do Brasil, por exemplo, o Agro conta com funcionários da Embrapa para prestar auxílio técnico ao Itamaraty, além de manter contato próximo com pessoas ligadas à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)¹ e à Associação Brasileira de Agronegócio (ABAG)².
Funcionando como uma grande vitrine, a participação de lobistas do agronegócio nas COPs vem rendendo frutos: agricultura climaticamente inteligente, modelos de negócio, parcerias público-privadas, abordagens de mercado, inteligência artificial e mercado de carbono têm sido temas recorrentes nas negociações sobre agricultura.
Um ano depois da Conferência de Belém, Antália, na Turquia, sediará a COP 31. Essa edição marca o fim do Trabalho Conjunto de Sharm el-Sheikh sobre a Implementação da Ação Climática na Agricultura e Segurança Alimentar – um grupo de trabalho voltado a discutir o tema e fornecer subsídios para as negociações sobre agricultura. Com o fim do mandato de quatro anos, em 2026, uma das grandes decisões a serem tomadas é se haverá continuidade do grupo. De um lado, está a importância de discutir agricultura e mudança climática. Do outro, o receio de legitimar um espaço de lobby do Agro.
Diante da captura corporativa das negociações, é fundamental que a transformação dos sistemas alimentares tenha como base os fundamentos da agroecologia. Isso vai além de pensar apenas nas práticas de manejo do solo ou de gestão da água e dos resíduos. É central compreender a produção e a distribuição de alimentos sem ignorar a concentração de renda e a propriedade da terra.
Ao contrário do que foi feito ao longo dos últimos anos, a agroecologia não deve ser incorporada às negociações como uma das diversas “abordagens holísticas” para a agricultura, mas deve – a partir de seu caráter político, fundiário e agrário – ser o fio condutor de uma transformação profunda nos sistemas alimentares.
Por fim, outra questão relevante é a pressão exercida pelo agronegócio para que as negociações sobre agricultura discutam como mitigar as emissões de gases de efeito estufa. Com isso, o setor pode se posicionar não apenas como vítima dos eventos extremos (que causam, entre outros problemas, perdas de safra), mas também como solução para a crise que ajudou a criar. Assim, pode “captar” emissões de gases de efeito estufa e, com isso, vender créditos de compensação para outros emissores.
Diferentemente das falsas soluções apresentadas pelo agronegócio, a agroecologia oferece um prato cheio não apenas para a redução das emissões de gases de efeito estufa, mas também para combater diretamente a fome e o acesso desigual à terra.
¹ A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil é uma entidade sindical patronal do agronegócio que atua no lobby junto ao Congresso Nacional, defendendo os interesses de grandes proprietários de terras e empresas. Para isso, conecta associações e lideranças políticas e rurais.
² A Associação Brasileira do Agronegócio também é uma entidade representativa do setor, responsável por articular alianças nacionais e internacionais com o objetivo de orientar a projeção do agronegócio para o Brasil e o mundo. A associação reúne mais de 80 empresas, entre elas multinacionais dos setores de agrotóxicos, sementes, aviação e bancário.
Fonte: Mídia Ninja.
