Obtive o diagnóstico de autismo aos 62 anos. Passei seis década tentando me encaixar num mundo que sempre me pareceu não ser meu número. Quando finalmente ouvi que eu estava dentro do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), senti algo que muita gente não entende: alívio. Não era falha moral, não era “exagero”, não era incapacidade. Era neurologia.
Em 18 de fevereiro de 2026 a revista Nature publicou o artigo “How do autistic people age — and what does it mean for their health?” de Miryam Naddaf. É muito importante ver minha faixa etário tratada como parte relevante da discussão científico sobre autismo. A maior parte das pesquisas ainda foca na infância — e isso tem consequências.

Segundo o artigo, entre 1980 e 2021 foram publicados mais de 40 mil estudos sobre autismo na infância e adolescência, mas apenas 174 sobre autismo na velhice. Desde 2012, só 0,4% dos estudos incluíram pessoas autista de meia-idade ou idosas. Isso ajuda a explicar por que nós, que envelhecemos sem diagnóstico, somos praticamente invisíveis nas política publicas e nas práticas clínicas. As pessoas notam sim nossas atipia e nos fazem notar como incomodam, mas elas não sabem que nada disso é voluntário, nada disso é opcional, elas não foram informadas que o nome disso é autismo. Ose número mostram que não somos poucos. Um estudo recente publicado na Molecular Psychiatry estimou que o número de pessoas autista com 70 anos ou mais passou de cerca de 894 mil em 1990 para quase 2,5 milhões em 2021, com projeção de chegar a 5,1 milhões até 2040. Parte disso se deve ao crescimento populacional e à ampliação dos critério diagnóstico — especialmente após 2013, quando o diagnóstico em adulto foi formalizado. Mas também revela algo maior: há uma geração inteira que envelheceu sem saber que era autista. E envelhecer sendo autista traz questões específicas de saúde. Estudos citados no artigo indicam taxas mais altas, em comparação com a população geral, de transtorno de humor, epilepsia, problema gastrointestinal, osteoporose, doença cardíacas e condições neurodegenerativas. Uma pesquisa publicada na JAMA Network Open analisou 90 milhões de prontuários e apontou que até 35% dos autista acima de 64 anos tinham diagnóstico de demência, contra cerca de 10% na população geral. Esses dados me atravessam. Aos 64 anos estou numa ínfima minoria privilegia que conseguiu descobrir o que exatamente há comigo. A ciência ainda está tentando entender o que é risco real, o que é efeito de medicações psiquiátrico usadas por década, e o que é simplesmente variação humana. Algumas pesquisas de neuroimagem sugerem que certas redes neurais em adulto autista não apresentam envelhecimento acelerado — e que pode haver mecanismo compensatórios cognitivos. Ou seja, não somos um grupo homogêneo. Há vulnerabilidade e também há recursos na nossa condição. O problema é que vulnerabilidade invisíveis não recebem suporte. E nossos recursos atípico não são reconhecidos. Por isso informação e sensibilização são fundamentais. Tudo isso — pesquisa, divulgação científico, debate público — é necessário para o processo contínuo de eliminação das barreira que inviabilizam a inclusão, especialmente as barreira atitudinal. Essas são as mais duras: as atitude de pessoas desinformadas que questionam diagnóstico tardio, que minimizam nossas necessidade porque simplesmente falam sem entender.

Para as família, conteúdos de sensibilização precisam oferecer informação científico clara sobre TEA, combater estigmas, orientar sobre apoio emocional e práticas de inclusão, compartilhar estratégias para o cuidado diário e explicar como acessar direitos. Multas de nós, mulheres, fomos diagnosticadas depois dos filhos. Nossas família também precisam reorganizar narrativa e expectativa — e isso só é possível com conhecimento. Para organizações, a sensibilização deve ir além da boa intenção. É preciso criar ambientes de trabalho inclusivo e acessíveis, implementar política de igualdade e diversidade e promover conscientização entre colegas e liderança. Inclusão não é caridade: é estratégia. Política consistentes de direitos humano fortalecem a próprio organização no curto, médio e longo prazo, contribuem para melhores índice de desenvolvimento do país e dialogam com as metas de bem-estar e justiça previstas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Envelhecer sendo autista não pode continuar significando incerteza e medo. Para isso, precisamos de ciência, de dados, de política de conscientização, para termos diagnóstico precisos e portanto dados e política bem embasadas.
Dolores Calvó Sala é mãe, economista, educador e autista. Autora de “E se esse idoso for autista” (no prelo). @veiacomtea
Referências do artigo de Miryam Naddaf
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