ÉRIC TOMAS: 25 ANOS DE AVENIDA ENTRE FÉ, DIVERSIDADE E PAIXÃO PELO CARNAVAL

Ghe Santos
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Para Éric Tomas, o carnaval nunca foi apenas entretenimento. É herança, memória afetiva e missão de vida. Filho de ex-componentes da Imperador do Ipiranga, escola em que seus pais desfilaram nos anos 1980, ele cresceu em um ambiente onde fantasias ocupavam a casa, sambas-enredo ecoavam na sala e a comunidade funcionava como extensão da família.

Ainda criança, assistia aos desfiles pela televisão e acompanhava os comentários de Leci Brandão, entendendo cedo que o carnaval também é discurso cultural, político e identitário. Em 2000, deu o primeiro passo na avenida pelo GRES Terceira Idade, em São Bernardo do Campo. A experiência foi definitiva. “Minha cabeça vibrou”, relembra.

A VIVÊNCIA REAL DA AVENIDA

A trajetória de Éric é marcada por paixão, mas também por resistência. Ele faz questão de dizer que o carnaval exige entrega física e emocional: sol forte em concentração, chuva inesperada, horas de espera e tensão. Já foi retirado de desfile na chamada “faixa amarela” por ter esquecido detalhes de fantasia. Já desceu a Rua Augusta com bloco em condições difíceis. Ainda assim, segue firme, defendendo a cultura popular como compromisso.

Essa vivência o levou também a funções de liderança. Éric já coordenou ala das baianas na Barroca Zona Sul e na Prova de Fogo, reforçando sua ligação com ancestralidade e com o respeito às tradições das escolas de samba. No início da caminhada, chegou a ser convidado para assumir o posto de mestre-sala na Brilha São Bernardo, mas preferiu recusar por entender que ainda estava em processo de formação.

DAS ESCOLAS PAULISTANAS AO CARNAVAL CARIOCA

Depois de iniciar a trajetória na Barroca Zona Sul, na ala “Bate Cabeça”, sob comando de Ivan e Crislene, Éric construiu passagem por diversas agremiações paulistanas: Tom Maior, Torcida Jovem, X-9 Paulistana, Morro da Casa Verde, Terceiro Milênio, Águia de Ouro, Vai-Vai, Pérola Negra, Acadêmicos do Tatuapé, Mocidade Unida da Mooca, Barroca Zona Sul e Prova de Fogo.

A estreia no Grupo Especial de São Paulo aconteceu em 2011, pela Águia de Ouro, integrando composição de carro alegórico. A escola onde permaneceu por mais tempo foi a Acadêmicos do Tatuapé, onde ficou sete anos em um período marcante que envolveu homenagem a Leci Brandão e a conquista do campeonato.

Fora do estado, Éric também construiu trajetória unindo arte, religiosidade e representatividade, chegando a atuar, em alguns momentos, como cover de Leci Brandão. Ele afirma que seu coração bate forte em verde e rosa pela Estação Primeira de Mangueira, e coleciona experiências no carnaval de diferentes territórios: desfilou na Imperatriz Dona Leopoldina (Porto Alegre), na Acadêmicos do Sossego (Rio de Janeiro), passou pela União de Maricá e agora integra o carnaval da Unidos de Bangu, no enredo “As coisas que mamãe me ensinou”, com foco em ancestralidade e transmissão de saberes.

Apesar do vínculo com as escolas, Éric aponta uma escolha afetiva e política: a força do carnaval de rua. Para ele, é ali que a cultura popular “respira mais perto das pessoas”, com menos distância entre comunidade e público, e mais potência de encontro.

BLOCO VEZ E VOZ: FÉ, ACOLHIMENTO E DIVERSIDADE NA RUA

Em 2022, Éric fundou o Bloco Vez e Voz, projeto que articula religiões de matriz africana, diversidade LGBTQIA+ e carnaval como espaço de acolhimento. O bloco se estrutura como plataforma cultural e social, com ala de baianas, valorização da mulher na bateria e estética conectada à ancestralidade e à resistência.

Mesmo recebendo convites para desfilar em São Paulo, Éric priorizou as demandas do bloco, que volta a ocupar a Rua Augusta no dia 17 de fevereiro de 2026, ao meio-dia, reforçando a tradição das terças de carnaval no território. Ao mesmo tempo, ele celebra o retorno ao carnaval carioca, mantendo o elo com as escolas e com as experiências que marcaram sua formação.

Após 25 anos de avenida, Éric resume o que o move: o carnaval como fé, luta, pertencimento e compromisso com a cultura popular.

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