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A trajetória histórica da bruxaria no mundo ocidental revela um percurso intrincado que se move entre a tragédia real das perseguições e a gradual ressignificação artística de uma figura que sempre desafiou as estruturas hegemônicas de poder. Por questões editoriais, torna-se inviável enumerar e analisar todas as narrativas em torno destas personagens no cinema, mas o artigo se propõe, caro leitor, ao máximo, uma abordagem panorâmica de curadoria sincera. O entendimento contemporâneo da bruxa começou a se delinear na transição da Antiguidade para o período medieval, momento no qual saberes tradicionais ligados à cura, ao uso de ervas medicinais e, também, aos ciclos naturais da terra passaram a ser vistos com desconfiança pelas autoridades clericais. Funções comunitárias essenciais, desempenhadas principalmente por parteiras e curandeiras, foram sistematicamente reinterpretadas como heresias doutrinárias, iniciando um processo cultural de demonização da autonomia das mulheres e do conhecimento ancestral.
Essa mentalidade punitiva e persecutória encontrou seu momento de maior violência institucionalizada entre os séculos quinze e dezessete, impulsionada de forma decisiva pela circulação de manuais inquisitoriais de grande impacto, com destaque para o tratado Malleus Maleficarum, conhecido historicamente como o Martelo das Bruxas. Este texto estruturou a justificativa teológica e o amparo legal para os processos jurídicos que culminaram na execução de milhares de pessoas na Europa e nas colônias americanas. O pânico coletivo gerado por esse movimento institucional expôs as bases de uma sociedade que enxergava com profundo temor qualquer manifestação feminina desvinculada do controle clerical ou matrimonial, utilizando o pretexto da feitiçaria como justificativa para crises econômicas, agrárias e sanitárias. Com o advento do Iluminismo e a subsequente perda de força das leis punitivas contra a feitiçaria, o conceito da feiticeira deixou de figurar como uma ameaça real aos tribunais para se consolidar como um dos arquétipos mais potentes das artes cênicas e literárias. No teatro da Renascença e do período jacobita, a temática foi frequentemente mobilizada para refletir as crises institucionais e os perigos da ambição desmedida, encontrando sua expressão máxima nas três figuras proféticas de Macbeth, obra-prima de William Shakespeare. As chamadas Irmãs Estranhas manipulavam o destino com suas declarações enigmáticas ao redor de um caldeirão, cristalizando no imaginário coletivo o estereótipo estético da bruxa idosa, decadente e essencialmente maliciosa.
Em paralelo às manifestações teatrais, as artes visuais europeias desempenharam um papel determinante na fixação iconográfica do mito nas mentes populares. Gravuras e pinturas produzidas por artistas de renome, como Albrecht Dürer e Hans Baldung Grien, retratavam as reuniões noturnas conhecidas como sabás, alternando representações que variavam entre a decrepitude física e uma sensualidade provocativa e herética. Muito tempo depois, o pintor espanhol Francisco de Goya resgatou esses elementos visuais em suas famosas Pinturas Negras, concebendo cenas grotescas de bruxaria que funcionavam, na verdade, como uma severa crítica política contra a ignorância, a superstição e a violência remanescente da Inquisição em sua própria época. O século XIX e o movimento romântico trouxeram uma profunda modificação na abordagem literária desse arquétipo, conferindo-lhe contornos melancólicos, líricos e potencialmente subversivos. Autores associados ao gótico e ao simbolismo passaram a retratar a praticante de magia não como uma criatura abjeta, mas como um símbolo vivo de conexão com a natureza indomada e de resistência ao materialismo trazido pela Revolução Industrial. Esse resgate poético efetuado pela literatura oitocentista humanizou progressivamente a figura ficcional da feiticeira, permitindo que ela deixasse de carregar apenas o peso do medo puritano para se tornar uma metáfora de emancipação intelectual e liberdade social. O nascimento do cinema na virada para o século vinte abriu um novo canal de expressão para a temática, aproveitando o apelo visual da magia para explorar tanto o horror psicológico quanto a fábula moralista. Nos primeiros anos do cinema mudo, diretores experimentaram narrativas que oscilavam entre reconstituições documentais de caráter histórico e adaptações de contos populares, definindo duas vertentes claras que persistiram na indústria: a bruxa como ameaça brutal e a bruxa como elemento de fantasia lúdica. Essa bifurcação estética ajudou a manter vivos os antigos medos de matriz medieval, ao mesmo tempo em que os adaptava para o consumo de massa nas salas de exibição.
A literatura voltada para o público infantil durante o século vinte também reforçou uma divisão moral bastante rígida entre as forças benevolentes e as forças malévolas da magia, impactando profundamente o desenvolvimento das mídias visuais seguintes. O ponto central dessa divisão manifestou-se na célebre narrativa de O Mágico de Oz, na qual o contraste absoluto entre as feiticeiras que habitavam o norte e o oeste servia para ilustrar lições de ética e moral de fácil compreensão para as crianças. Essa simplificação do arquétipo ajudou a esvaziar a carga de horror teológico que historicamente cercava o tema, transformando a bruxaria em uma convenção estética altamente maleável e aplicável a diferentes gêneros narrativos. Com a popularização da televisão em meados do século passado, a figura da bruxa experimentou um processo de modernização e inserção no espaço doméstico, especialmente por meio das comédias de situação. Esses programas transformaram os poderes extraordinários em alegorias bem-humoradas para tratar das dinâmicas conjugais e dos anseios latentes de libertação feminina dentro do ambiente suburbano tradicional. As protagonistas dessas séries frequentemente precisavam ocultar suas capacidades fora do comum para serem aceitas pela vizinhança burguesa, uma abordagem cômica que desmistificou o caráter perigoso do mito e gerou identificação com o público da classe média.
Ao longo das décadas de 1980 e 1990, as produções televisivas direcionadas aos jovens ampliaram esses conceitos, associando a descoberta da magia aos ritos de passagem, ao amadurecimento e à construção da própria identidade. Narrativas focadas em adolescentes que herdavam linhagens mágicas utilizavam os encantamentos e feitiços como metáforas diretas para as transformações físicas da puberdade e para o conflito natural contra as regras estabelecidas pelos adultos. Nesse período de fim de milênio, a bruxa televisiva deixou definitivamente a posição de antagonista social para assumir o papel de protetora do equilíbrio do mundo, conciliando batalhas místicas com os dramas cotidianos da juventude. A chegada do XXI trouxe nova roupagem e consolidou a imagem da bruxa na televisão como um ícone de solidariedade de gênero e resistência social, caminhando em total sintonia com as discussões propostas pelas correntes contemporâneas do feminismo. As produções mais recentes abandonaram de vez os enredos de adequação social e passaram a celebrar abertamente o poder que emana do coletivo, demonstrando que a força principal das personagens reside no apoio mútuo e nos laços comunitários. As histórias modernas utilizam os conceitos da feitiçaria como ferramentas críticas de oposição às opressões do passado, transformando a memória histórica em base para a autonomia de mulheres diversas no presente.
No panorama do cinema de horror contemporâneo, a representação da bruxa retornou com força total às suas origens ligadas ao folclore e ao medo visceral, distanciando-se do tom ameno das produções de comédia para mergulhar no pânico psicológico. Um dos exemplares mais significativos dessa tendência é o assustador A Bruxa, dirigido com rigor histórico por Robert Eggers. O enredo acompanha a trajetória dramática de uma família de colonos puritanos do século dezessete que, após ser banida de sua comunidade agrária, decide se estabelecer nos limites de uma floresta densa e desconhecida, onde passa a enfrentar incidentes perturbadores que arruínam seu sustento. A narrativa central do filme explora a completa dissolução da unidade familiar provocada pela crescente paranoia de fundo religioso e pela severa repressão dos desejos naturais, gerando um ambiente de desconfiança mútua insustentável. O desfecho da obra apresenta a emancipação sombria da filha mais velha, que encontra na entrega definitiva às forças da floresta a única alternativa real para escapar da opressão exercida pela estrutura patriarcal de seu próprio lar. O impacto cultural dessa produção foi imenso, inaugurando uma tendência de horror baseado em pesquisas históricas minuciosas e na construção de atmosferas sufocantes.
Outra obra que revolucionou os rumos do cinema de horror ao adotar uma estética baseada no realismo documental e no formato de registros encontrados foi A Bruxa de Blair, sob a direção de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez. A trama acompanha três estudantes universitários de cinema que viajam até uma área florestal no estado de Maryland com o objetivo de gravar um documentário independente sobre um mito regional assustador. O conflito se intensifica à medida que os jovens se perdem completamente entre as árvores, deixando para trás apenas os rolos de filme que registraram seus momentos finais de desespero. O tema condutor do filme gira em torno do medo profundo do desconhecido e da total perda de controle da mente humana quando confrontada com uma força hostil e ancestral que desafia a lógica. O filme alcançou um legado histórico marcante ao demonstrar que o pânico coletivo pode ser evocado de forma eficaz sem que a figura física do monstro precise ser exibida explicitamente na tela. O impacto dessa produção alterou as estratégias de divulgação na indústria do entretenimento, utilizando a internet para borrar as fronteiras entre a realidade e o mito ficcional. Na perspectiva juvenil, Jovens Bruxas também é um querido exemplar. Sua sequência… bom, melhor silenciar.
No campo que mescla o romance místico com a comédia dramática, a expressão mais popular e duradoura do subgênero manifestou-se no filme Da Magia à Sedução, que contou com a direção de Griffin Dunne. A história acompanha as vidas das irmãs Sally e Gillian Owens, integrantes de uma antiga linhagem feminina afetada por uma terrível maldição que condena à morte qualquer homem que venha a se apaixonar sinceramente por elas. A trama ganha urgência quando as duas precisam unir suas forças místicas para neutralizar o espírito agressivo de um antigo namorado abusivo que retorna do além para persegui-las. A narrativa trabalha de forma explícita os conceitos de sororidade, a aceitação orgulhosa das diferenças individuais e a necessidade premente de superação de traumas herdados de gerações anteriores. A narrativa demonstra que os laços de afeto familiar e a cooperação entre as mulheres constituem as defesas mais eficazes para interromper dinâmicas de sofrimento que assolavam a história de sua família. O filme conquistou um status de obra cultuada ao longo dos anos, sendo lembrado com frequência como um manifesto pop em defesa da união feminina contra a violência de matriz patriarcal.
A contribuição europeia para a construção cinematográfica desse universo trouxe uma abordagem extremamente estilizada por meio do clássico Suspiria, dirigido originalmente por Dario Argento e que recebeu uma releitura dirigida por Luca Guadagnino. A história foca em uma jovem e talentosa bailarina norte-americana que viaja para a Europa com o objetivo de ingressar em uma renomada companhia de dança sediada na Alemanha. Com o passar dos dias, a protagonista começa a perceber que a prestigiada instituição artística funciona como fachada para as atividades secretas de um clã de bruxas que realiza sacrifícios. A obra examina de forma profunda questões ligadas ao conceito de maternidade corrompida, à utilização da expressão artística como um canal de manifestação ritualística e ao controle político exercido por meio de estruturas institucionais rígidas. A dança contemporânea é incorporada à trama como uma extensão física da feitiçaria e como uma ferramenta de dominação psicológica sobre as integrantes do corpo de baile. O legado estético das duas versões de Suspiria influenciou profundamente o cinema autoral, demonstrando que o horror corporal e a beleza visual podem coexistir em narrativas sobre o oculto.
O universo da animação também ofereceu sua parcela de contribuição ao humanizar o arquétipo de maneira poética e reflexiva na obra O Serviço de Entregas da Kiki, sob o comando do diretor japonês Hayao Miyazaki. O enredo apresenta os dilemas de uma jovem bruxa de treze anos que, atendendo aos costumes tradicionais de seu povo, precisa deixar a casa dos pais para residir de forma solitária em uma nova cidade durante o período de um ano. O objetivo principal dessa jornada de isolamento é fazer com que a protagonista desenvolva sua independência pessoal e aprimore sua única habilidade mágica, que consiste na arte de voar. A animação conduz o espectador por temas complexos como a transição inevitável para a maturidade, o sentimento de isolamento decorrente da vida nos grandes centros urbanos e o bloqueio criativo que afeta o desenvolvimento do talento. O filme argumenta que a eficácia da magia da personagem está diretamente ligada ao seu estado emocional, à sua segurança psicológica e à sua capacidade de estabelecer laços sinceros com as pessoas ao seu redor. Essa perspectiva lírica desfez de forma definitiva as associações negativas ligadas ao tema, transformando a bruxaria em uma metáfora acessível sobre amadurecimento e saúde mental.
A evolução da figura da bruxa por meio das diferentes linguagens artísticas ao longo do tempo reflete, em última análise, as próprias transformações sociais da história humana. De alvo de perseguições brutais promovidas por tribunais eclesiásticos na Europa a ícone de resistência nas telas do cinema contemporâneo, a feiticeira permaneceu como uma representação constante da quebra de padrões. Cada uma das narrativas mencionadas contribuiu para enriquecer esse mosaico cultural, mostrando que a magia, longe de ser apenas um artifício ficcional de entretenimento, atua como um espelho das tensões sociais mais profundas de cada época. Além dos marcos citados, seria impossível encerrar esse panorama sem registrar o impacto cultural de As Bruxas de Eastwick e Abracadabra, duas produções que redefiniram a presença das feiticeiras na cultura pop por meio de atrizes formidáveis. No primeiro, o carisma magnético de Cher, Susan Sarandon e Michelle Pfeiffer traduziu a bruxaria como uma manifestação tardia de libertação sexual e rebeldia feminina frente à sedução manipuladora do próprio diabo, equilibrando comédia ácida e comentário social. Já no clássico infantil da Disney, Bette Midler, Sarah Jessica Parker e Kathy Najimy imortalizaram as irmãs Sanderson com uma energia teatral e musical contagiante, transformando o terror em humor pastelão e garantindo que o feitiço da nostalgia mantivesse o filme como uma exibição obrigatória a cada temporada de Halloween até os dias atuais.
Esse é o meu repertório. Mas, e o seu, caro leitor? Qual a bruxa mais emblemática do cinema para você?
Bruxas/Bruxos/Bruxaria
Fonte: Plano Critico.
