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Cinema

Crítica | Maria, Maria – Capítulo 1

A estreia de Manoel Carlos como novelista. O post Crítica | Maria, Maria – Capítulo 1 apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 1
Número de episódios: 119
Período de exibição: 30 de janeiro de 1978 a 23 de junho de 1978
Há continuação ou reboot?: Não.

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As consequências da crise internacional de 1857, somadas aos fatores climáticos rigorosos que atingiram o Sertão da Ressaca (sudoeste da Bahia), principalmente entre 1859 e 1860, causaram um dos períodos de grande necessidade humanitária da população local, e registros como a crise de abastecimento da Imperial Vila da Vitória mostram-nos o componente histórico triste e trágico que, junto ao romance Maria Dusá (1910), de Lindolfo Rocha, formam a base desta novela de Manoel Carlos, que substituiu a impopular Sinhazinha Flô no horário das 18h, salvando o horário da baixa audiência e das duras críticas. A seca, que castigou a região entre 1857 e 1861, atingiu boa parte do sertão baiano até a Chapada Diamantina, onde Lindolfo Rocha ambientou sua história, e foi tão grave que levou o governo da província a uma de suas primeiras ações de socorro às vítimas. Foi com esse material que Maneco estreou como novelista na Globo (antes, ele havia dirigido o Fantástico e adaptado teleteatros em outras emissoras). O enredo traz um pai que, para não ver os filhos morrerem de fome, aceita trocar a filha mais velha por carne seca, toucinho e um punhado de sal. Ainda assim, o autor e o diretor Herval Rossano fazem uma abordagem bastante travada, com um roteiro que gira em torno de uma meia dúzia de palavras e motivos: a beleza de Maria (Nívea Maria), as dificuldades financeiras da família (não apenas, mas principalmente causadas pela seca), a prática de vender uma filha para sobreviver e a paixão avassaladora que o tropeiro Ricardo Valeriano Brandão (Cláudio Cavalcanti) tem pela jovem.

Logo na primeira sequência vemos a dimensão do problema: ela é longa, marcada apenas com música e imagens de um espaço geográfico seco, mostrando uma criança que morreu de fome, e, embora seja a imagem mais dura de todo o capítulo, a trilha sonora diz ao espectador o que sentir (o que nunca é positivo), enquanto a duração esticada da cena faz com que ela perca a capacidade de chocar. Lembremos da abertura de Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, em que a família de Fabiano caminha pelo leito de um rio seco, acompanhada apenas pelo rangido de um carro de boi, causando grande impacto no público. O mesmo excesso de comentário volta com a presença de um violeiro, entoando modinhas para momentos específicos da história, começando de maneira aceitável, já que o cantador faz parte da cultura sertaneja, mas depois, simplesmente irrita, porque as canções aparecem em exagero.

Do outro lado, a semente do romance tem um ar forçado, colocando no tropeiro a aura de um possível salvador, e em Maria, o sonho de se ver livre da fome e da maneira como o pai e a mãe, quase enlouquecidos pela miséria, tratam a ela e a seus irmãos. Falta meio-termo: Raimundo e Maria Rosa (Wilson Grey e Lícia Magna) são figuras de desespero; a filha só pode sonhar com uma saída que venha de fora, e a crise de uma região inteira gera uma atmosfera fatalista. Parte disso se explica pelo horário, já que a novela das 18h tinha limites rígidos (Maneco precisou, por exemplo, transformar a Maria Dusá de Lindolfo Rocha, uma prostituta, numa mulher rica e admirada), mas a literatura brasileira da seca já mostrara outro modo — muito mais interessante — de juntar amor e fome, como em O Quinze, de Rachel de Queiroz, por exemplo. Aqui, a beleza da protagonista é a única saída possível, e Nívea Maria fica presa a uma personagem escrita numa só nota.

A “fome de 60”, como ficou conhecida a crise de alimentos provocada por esta seca, se arrastou por meses, com roças perdidas, vilas sem abastecimento, migrações forçadas e mortes. Qualquer novela que quisesse dar conta do fato precisava de acontecimentos que mudassem a situação das personagens. O episódio, no entanto, é bastante parado; não há nenhum evento que, verdadeiramente, chame a atenção, por isso temos a impressão de que o texto gira em torno do próprio rabo. Mostrada como uma condição inalterável, a miséria perde seu caráter de acontecimento histórico e torna-se cenário para o encontro dos pombinhos, de modo que o sofrimento real dos sertanejos de 1860 ocupa o mesmo lugar que uma paisagem bonita ocuparia num romance qualquer. Que a novela tenha salvado o horário das seis mostra que o público deu ao autor o crédito de seguir adiante. Diante de uma tragédia que matou gente de verdade, porém, Maneco pediu ao espectador, nesta estreia, uma paciência difícil de justificar.

Maria, Maria (Brasil, 30 de janeiro de 1978)
Criação: Manoel Carlos
Direção: Herval Rossano
Roteiro: Manoel Carlos
Elenco: Nívea Maria, Cláudio Cavalcanti, Roberto Pirillo, Gilberto Martinho, Roberto Bomfim, Haroldo de Oliveira, Ana Ariel, Emiliano Queiroz, Carlos Duval, Ísis Koschdoski, Felipe Wagner, Dorinha Duval, Patrícia Bueno, Mário Gusmão, Antônio Patiño, Agnes Fontoura, Renato Restier, Lourdes Mayer, Lafayette Galvão
Duração: 46 minutos

Agnes FontouraAna ArielAntonio PatiñoCarlos DuvalCláudio CavalcantiDorinha DuvalEmiliano QueirozFelipe WagnerGilberto MartinhoHaroldo de OliveiraHerval RossanoÍsis KoschdoskiLafayette GalvãoLícia MagnaLindolfo RochaLourdes MayerManoel CarlosMário GusmãoNívea MariaNovelas BrasileirasPatrícia BuenoRenato RestierRoberto BomfimRoberto PirilloWilson Grey

Fonte: Plano Critico.

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