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Cinema

Crítica | Gina (1978) – Capítulo 1

Amor e arte. O post Crítica | Gina (1978) – Capítulo 1 apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 1
Número de episódios: 90
Período de exibição: 26 de junho de 1978 a 6 de outubro de 1978
Há continuação ou reboot?: Não.

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Aos 21 anos, Christiane Torloni recebeu de Boni, então o executivo que dava a palavra final na Globo, a primeira protagonista da carreira, numa escolha que a própria atriz diz ter sido feita apesar das dúvidas internas sobre se aquele era o momento de colocá-la à frente de um papel principal em uma novela. A pergunta sobre estar pronta ou não para a vida adulta também é, curiosamente, o ponto de partida para a personagem Gina Perrone, moça que acaba de concluir os estudos no Instituto de Educação (escola que formava as professoras normalistas) e vive em briga permanente com a madrasta Julica e com a meia-irmã Zelinda. Rubens Ewald Filho, que antes havia adaptado Éramos Seis ao lado de Silvio de Abreu na Tupi, voltou a adaptar Maria José Dupré para o horário das 18h, com um plano bem definido para a estreia: o foco era o romance, num núcleo que se expandia para problemas do dia a dia num ambiente cinquentista em que se discutiam o trabalho, as ações dos vizinhos e a moral e os bons costumes.

Esse romance (que é bonitinho e cheio de intrigas, desde as primeiras cenas) é introduzido com leveza, e Ewald Filho monta o encontro principal do capítulo com uma ironia que o público só vai perceber com o tempo: é Mirtes (Theresa Amayo), a melhor amiga de Gina, quem lhe apresenta Osório (Paulo Ramos), o homem com quem a própria Mirtes namora e que, mais adiante, vai se apaixonar pela protagonista, uma perda que alimentará o rancor de Mirtes, que passará anos espalhando intrigas contra a amiga. O autor acerta ao não adiantar nada disso, e o gesto de Mirtes parece apenas um favor entre amigas; em primeiro plano fica a expectativa de dois jovens que acabaram de se conhecer, numa época em que o namoro ainda dependia da aprovação das famílias. Quando Osório sai à procura de Gina no fim do capítulo, o roteiro encerra a estreia com o gancho mais tradicional do folhetim, confiando na promessa de um amor proibido (e que pode trazer consequências complicadas para o núcleo inteiro) a fim de puxar o espectador de volta no dia seguinte. Para um primeiro capítulo, a aposta é sensata, mas mostra um risco que vai pesar sobre a novela inteira, porque o interesse do público depende quase só de uma saga de amor e de uma rivalidade que, por enquanto, tem pouco a oferecer.

Em torno do namoro de Mirtes e Osório, o autor organiza a vigilância moral típica das novelas de época do horário das seis: Deolindo (Ankito), pai de Mirtes, flagra a filha e faz uma exigência, enquanto Julica reclama da enteada dentro de casa. As duas cenas mostram como, nos anos 50 recriados pela produção, o comportamento de uma moça era assunto da família inteira e questão de honra para o pai. O trabalho também entra nessa conta, e com um bom peso, já que o diploma de professora era uma das poucas portas respeitáveis de independência para a mulher de classe média da época, e o desejo de Gina de sair de casa passa obrigatoriamente por um salário próprio. Como ponto fraco, nesse ponto, vejo que os conflitos são pequenos e domésticos, e o ritmo da trama dá razão ao jornalista Ismael Fernandes, autor de Memória da Telenovela Brasileira, para quem o romance de Dupré não tinha base para sustentar uma trama diária.

Maria José Dupré, aliás, não gostou da adaptação e preferia assistir a Dancin’ Days, de Gilberto Braga, que estreou no horário das 20h, duas semanas depois de Gina, e levou para a tela as discotecas do Rio de Janeiro daquele momento. A preferência da escritora ajuda a entender a dificuldade de Rubens Ewald Filho: às 20h, o público acompanhava Júlia Matos (Sônia Braga), uma ex-presidiária tentando refazer a vida numa cidade moderna; às 18h, via uma mulher que parecia ter que pedir autorização para tudo, sendo frustrada e inocente demais para competir com outras personagens mais intensas, mais similares ao desejo do público da época. Daí vem o interesse sociológico deste primeiro capítulo: a moral cinquentista encenada aqui era a da juventude dos pais e avós daquela plateia, que reencontrava na televisão as regras sobre honra, casamento e trabalho feminino com que fora criada, embora já convivesse com costumes bem mais livres. Gina luta por uma liberdade que muitas mulheres do outro lado da telinha já começavam a exercer. Junto a uma organização lenta e com poucos eventos realmente chamativos ao longo das semanas, era de se esperar que a recepção fosse cada vez menos animada e a crítica cada vez mais ácida em relação à novela.

Gina (1978) – Capítulo 1 (Brasil, 26 de junho de 1978)
Criação: Rubens Ewald Filho
Direção: Sérgio Mattar, Herval Rossano
Roteiro: Rubens Ewald Filho
Elenco: Christiane Torloni, Theresa Amayo, Louise Cardoso, Emiliano Queiroz, Luiz Orioni, Castro Gonzaga, Paulo Ramos, Miriam Pires, Fátima Freire, Diogo Vilela, Ankito, Arlindo Barreto, Tetê Pritzl, Joyce de Oliveira, Élcio Romar, Denise Dumont, Antônio Patiño, Lauro Góes, Ricardo Wanick, Jacques Lagoa, Paulo Pinheiro, Patrícia Figueiredo, Geir Macedo Soares, Elisabeth Buarque, Pietro Mário, Lia Farrel, Cauê Filho, Clemente Viscaíno, Marcelo Vicchi, Moacyr Deriquém
Duração: 40 min.

AnkitoAntonio PatiñoArlindo BarretoCastro GonzagaCauê FilhoChristiane TorloniClemente ViscaínoDenise DumontDiogo VilelaÉlcio RomarElisabeth BuarqueEmiliano QueirozFátima FreireGeir Macedo SoaresHerval RossanoJacques LagoaJoyce de OliveiraLauro GóesLia FarrelLouise CardosoLuiz OrioniMarcelo VicchiMaria José DupréMiriam PiresMoacyr DeriquémNovelas BrasileirasPatrícia FigueiredoPaulo PinheiroPaulo RamosPietro MárioRicardo WanickRubens Ewald FilhoSérgio MattarTetê PritzlTheresa Amayo

Fonte: Plano Critico.

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