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Cinema

Crítica | o Diabo Mora Aqui

O sangrento fantasma da escravidão. O post Crítica | O Diabo Mora Aqui apareceu primeiro em Plano Crítico.

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O gênero terror não se utiliza somente de medos sociais contemporâneos para construir as suas narrativas, mas também de traumas históricos que marcaram o local onde essas obras foram produzidas. O Japão até hoje produz obras do gênero sobre a tragédia atômica, por exemplo, e a Índia faz o mesmo com a Partição. No caso do Brasil, a tragédia da escravidão continua sendo um dos grandes traumas históricos da nossa sociedade, o que torna curioso que ela não seja tão abordada na produção nacional do terror. Mas O Diabo Mora Aqui, de 2015, constrói toda a sua mitologia horrorífica sobre esse trauma histórico.

Na trama, Jorge (Diego Goulart), Magu (Clara Verdier) e Alexandra (Mariana Cortines) são três jovens que resolvem passar um fim de semana na fazenda de seu amigo Apolo. Lá, Apolo lhes conta a terrível história do Barão do Mel (Ivo Muller), um senhor de escravos que foi o primeiro dono da fazenda onde eles estão, que matou vários de seus escravos de forma sádica por pura diversão. Os escravos se revoltaram e mataram o escravocrata, e sua líder lançou uma maldição contra o Barão para que sua alma nunca descansasse, sacrificando para isso o seu próprio filho recém-nascido. A alma do bebê ainda estaria presa no porão da casa, e Apolo convence seus amigos a libertá-la, o que trará horríveis consequências.

Dirigido por Rodrigo Gasparini e Dante Vescio, O Diabo Mora Aqui é um bem realizado terror brasileiro, que, apesar do baixo orçamento, não denuncia tal pobreza na parte técnica da obra, com um uso muito bem-feito de seus efeitos práticos. O roteiro escrito por Rafael Baliu, e baseado em argumento de M.M. Izidoro e Guilherme Aranha, parece beber direto na fonte do clássico Evil Dead (1981) de Sam Raimi, e outras produções de estética trash onde um grupo de jovens acha que é uma boa ideia realizar rituais sobrenaturais e coisas do gênero. 

A premissa é interessante ao botar o terror se originando no passado escravocrata não tão distante de nosso país, intercalando a apresentação dos nossos protagonistas com flashbacks que mostram o brutal assassinato do escravo Bento (Sidney Santiago) nas mãos do sádico Barão do Mel. Há também a criação de uma mitologia relativamente interessante, através de dois irmãos descendentes dos escravos da fazenda do vilão, que, com a ajuda do cadáver reanimado de Bento, devem, uma vez por ano, impedir que o espírito do bebê e do senhor de escravos escape da prisão, acabando por se tornar uma ameaça tão grande para os jovens quanto os espíritos na casa.

Apesar de uma metade inicial promissora, em sua segunda metade, O Diabo Mora Aqui perde boa parte de sua consistência narrativa, passando a subverter de forma ineficaz as regras que havia estabelecido. A dupla de diretores tem um bom senso estético e dá um visual interessante para o seu filme, como dito antes, fazendo muito com pouco. Mas visivelmente não lidam bem com as cenas mais dinâmicas, que exigem maior movimentação dos seus atores. Quanto ao elenco, trata-se, em sua maioria, de atores iniciantes na época, mas, em sua maior parte, não fazem feio. Ivo Muller acaba se destacando ao criar um vilão interessante com o Barão do Mel, que se manifesta como uma espécie de Candyman com menos abelhas, embora em alguns momentos acabe se entregando demais ao overacting.

No geral, o filme comandado por Gasparini e Vescio é uma boa investida do Brasil no gênero terror, criando uma mitologia interessante em torno de sua narrativa e fazendo um bom uso da estética gore por meio do uso de efeitos práticos. Ainda que se perceba a inexperiência dos realizadores em seu primeiro longa-metragem, especialmente em seu trabalho de mise-en-scène, também se percebe um talento e paixão dignos de nota.

O Diabo Mora Aqui (Brasil, 2015)
Direção: Rodrigo Gasparini, Dante Vescio
Roteiro: Rafael Baliú
Elenco: Pedro Caetano, Mariana Cortines, Drop Dashi, Felipe Frazão, Diego Goullart, Ivo Muller, Sidney Santiago, Clara Verdier
Duração: 80 minutos.

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Fonte: Plano Critico.

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