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O mito de Perseu é uma das jornadas mais lineares e bem-sucedidas da mitologia grega. Ao contrário de Hércules e Teseu, que sofrem com crises de loucura ou cometem erros trágicos de caráter, Perseu realiza suas missões com foco, ajuda divina estratégica e um forte senso de dever filial. Com forte potencial para a linguagem cinematográfica, a jornada desse personagem icônico ganhou a cena em 2010 com a refilmagem Fúria de Titãs, produção épica focada no espetáculo visual, em detrimento de qualquer maior aprofundamento no mito, juntamente com a sua sequência Fúria de Titãs 2, lançado dois anos depois, produzida com base no sucesso de bilheteria do primeiro. Ambos são conhecidos por pegarem a estrutura da mitologia grega e transformá-la em um espetáculo de ação típico da indústria hollywoodiana, com narrativas diletantes que nós amamos, apesar de, muitas vezes, transformarem os textos dramáticos em histórias menores e mais fáceis para o consumo das plateias. Embora usem os nomes e monstros do mito de Perseu, as produções fazem alterações drásticas na narrativa, na psicologia do herói e na própria lógica dos deuses gregos. Aqui, ao longo dos seus 106 minutos, o filme reconta a jornada clássica da decapitação da Medusa e o resgate de Andrômeda, mas muda completamente as motivações do herói, tendo em vista entregar um enredo mais tranquilo para o público digerir, com foco e se divertir mais e pensar de menos.
Nada de novo no front, não é mesmo, caros leitores?
Dirigido por Louis Leterrier, com base no roteiro escrito pelo trio formado por Beverley CT Beacham, Phil Hay, Matt Manfredi, Fúria de Titãs mantém a trindade icônica do mito, isto é, a busca pelas Graias (as bruxas que dividem um olho), a decapitação da Medusa no submundo e o uso da cabeça do monstro para derrotar uma criatura marinha gigante que ameaça Andrômeda Perseu, interpretado corretamente por Sam Worthington, é, de fato, um semideus filho de Zeus com a mortal Danae, concebido em uma gravidez cercada de tragédia e rejeição por parte do rei Acrísio. Quando os habitantes da cidade de Argos desafiam a autoridade dos deuses do Olimpo, Hades convence seu irmão Zeus a permitir que a humanidade seja punida com a libertação do monstruoso Kraken, a menos que a princesa Andrômeda seja oferecida em sacrifício. Buscando vingança contra o assassino de sua família, Perseu aceita liderar um grupo de guerreiros em uma jornada perigosa para encontrar uma maneira de derrotar o monstro marinho, o que o obriga a enfrentar criaturas mitológicas terríveis, como as mencionadas anteriormente, enquanto aprende a aceitar seus próprios poderes divinos para salvar o mundo dos mortais do caos absoluto.
A direção de fotografia do filme utiliza tons dessaturados e uma iluminação contrastante para conferir um aspecto cru, realista e agressivo às paisagens da Grécia Antiga, o que acentua a atmosfera de urgência da jornada dos heróis. Esse trabalho visual é complementado por um design de produção monumental, que combina cenários físicos grandiosos construídos em estúdio com locações naturais impressionantes localizadas nas Ilhas Canárias, construindo com sucesso um mundo antigo que parece tanto historicamente tangível quanto mitologicamente épico. No campo tecnológico e sonoro, os efeitos visuais digitais assumem o protagonismo na criação de criaturas colossais como o Escorpião Gigante, a Medusa e o monstruoso Kraken, misturando computação gráfica com capturas de movimentos para garantir dinamismo às longas sequências de ação. Toda essa grandiosidade visual é amparada pela trilha sonora composta por Ramin Djawadi, que introduz temas heroicos marcados pelo uso pesado de metais, percussão intensa e elementos de música eletrônica que ditam o ritmo tenso das batalhas e amplificam a urgência da corrida de Perseu contra o tempo. Esteticamente, Fúria de Titãs não deixa a desejar.
Assim, Fúria de Titãs funciona visivelmente como uma tradução livre do mito grego original, operando sob a premissa de que a mitologia não é um registro estático e possui total liberdade para se reinventar para novas audiências. Essa decisão de alterar eventos clássicos, como transformar o cavalo alado Pégaso em um animal de pelagem preta ou introduzir o monstro Kraken que pertence à cultura nórdica, não constitui um defeito por si só, já que o cinema comercial contemporâneo frequentemente reaproveita arquétipos antigos para criar espetáculos visuais focados em ação e dinamismo tecnológico. O verdadeiro problema da produção reside na ausência de um texto dramático melhor estruturado, que falha em dar peso emocional e profundidade lógica às transformações propostas pelo roteiro. A narrativa avança em um ritmo puramente mecânico de videogame, onde os dilemas internos de Perseu sobre sua natureza divina são resolvidos de forma superficial, enquanto os personagens secundários carecem de desenvolvimento e servem apenas como ferramentas descartáveis para as cenas de ação, esvaziando o impacto dramático que justificaria a reinvenção da lenda.
Só para ampliar a análise e compreendermos as escolhas narrativas do filme em relação ao que se tem estabelecido em relação ao mito, Perseu é, de fato, um semideus filho de Zeus com uma mortal. O filme mantém a ligação de sangue entre Perseu e Acrísio, embora mude drasticamente a dinâmica da relação entre eles (transformando Acrísio no monstro Calibos). Curioso observar que o monstro marinho que Perseu derrota no filme é chamado de Kraken (uma criatura da mitologia nórdica), uma escolha que demonstra a liberdade do texto, pois o monstro do mio grego é Cetus (uma baleia ou serpente marinha monstruosa). Além disso, na perspectiva grega, Perseu é um jovem piedoso que aceita e agradece toda a ajuda tecnológica que ganha dos deuses (Hermes e Atena). Em Fúria de Titãs, Perseu tem ódio de sua linhagem divina, recusa as armas de Zeus e quer vencer “apenas como homem”, um conceito moderno de individualismo que não existia na Grécia Antiga. Ademais, visando seguir a cartilha industrial do cinema, Perseu se apaixona perdidamente por Andrômeda ao vê-la no rochedo, casa-se com ela e vivem juntos até a velhice. No filme de 2010, Andrômeda é quase ignorada romanticamente, pois na trama cinematográfica, o par de Perseu é Io, uma figura que no mito original pertence a uma época totalmente diferente e nunca conheceu Perseu. E, por fim, entre as aproximações e distanciamentos, para nós curiosos, o cavalo alado Pégaso, no mito, nasce do pescoço cortado da Medusa. No filme, Pégaso já existe, é domesticado por Perseu antes do planejado e é retratado com asas negras por fins estéticos hollywoodianos.
Nada disso, no entanto, prejudica a trama. O seu problema, que a torna “boa” ao invés de “ótima”, é a falta de profundidade da trama e o desenvolvimento dos personagens. Apenas isso.
Bem nas bilheterias, ganhou uma sequência em 2012, menos interessante, por sinal, e ainda mais cheia de liberdades.
Fúria de Titãs (Clash of the Titans, Reino Unido/Estados Unidos – 2010)
Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Beverley CrossTravis Beacham, Phil Hay, Matt Manfredi
Elenco: Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Jason Flemyng, Gemma Arterton, Alexa Davalos, Mads Mikkelsen, Luke Evans, Nicholas Hoult
Duração: 106 min.
Alexa DavalosBeverley CrossTravis BeachamCinema e MitologiaGemma ArtertonJason FlemyngLiam NeesonLouis LeterrierLuke EvansMads MikkelsenMatt ManfrediNicholas HoultPhil HayRalph Fiennessam worthington
Fonte: Plano Critico.
