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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.
Número de temporadas: 1
Número de episódios: 174
Período de exibição: 10 de julho de 1978 a 27 de janeiro de 1979
Há continuação ou reboot?: Não.
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Na pré-produção, antes de ganhar o nome da discoteca, Dancin’ Days se chamava A Prisioneira, título do argumento que Janete Clair escreveu depois de assistir a As Condenadas, reportagem do Globo Repórter gravada no presídio feminino Talavera Bruce (RJ), sobre o dia a dia das presas. Foi a partir desse argumento, que propunha acompanhar uma mulher saindo da cadeia e tentando voltar à sociedade, que Gilberto Braga escreveu a novela. Em entrevistas, o autor também apontou outras duas referências, como a radionovela Presídio de Mulheres (1952 – 1957), transmitida pela Rádio Nacional e ouvida por ele na infância, e o filme francês Si C’était à Refaire (1976), de Claude Lelouch, cuja trama é muito parecida com a da protagonista Júlia Matos. Para a composição da protagonista, a figurinista Marília Carneiro chegou a visitar o Talavera Bruce para pesquisar como se vestiam as detentas, e Sônia Braga, que tinha 28 anos e precisava parecer uma mulher de 34, aparece na telinha com dentes escurecidos, maquiagem pesada, roupas simples, ombros curvados e olhar baixo, realmente como alguém que passou 11 anos presa. Desde o início, a trama aborda questões sociais de peso, com coisas que o espectador vê diariamente ao seu redor, como o preconceito contra quem saiu da prisão, a mãe afastada da filha e a família que não consegue pagar as contas, material pouco sofisticado (mas muito efetivo socialmente) que Braga escolheu para sua estreia no horário das 20h, depois de fazer sucesso no horário das 18h com Helena, Senhora, Escrava Isaura e Dona Xepa.
A tendência de olhar cinicamente para os problemas de todo dia aparece nas outras famílias que Gilberto Braga traz aqui, agora com o sarcasmo que se tornaria marca registrada do autor. Num apartamento de Copacabana, Carminha (Pepita Rodrigues) conversa com a mãe, Ester (Lourdes Mayer), sobre as dificuldades financeiras da casa, que ela sustenta sozinha porque o pai, Alberico (Mário Lago), prefere fazer dívidas a abrir mão da pose de homem refinado. Braga se inspirou no próprio avô para criar Alberico e dizia que, ao retratar essa família, estava desenhando “o painel de um bairro decadente, mas não totalmente desprovido de charme”. Na mansão dos Pratini, o problema muda de cara e passa a ser o afeto: Marisa (Glória Pires, então com 15 anos) joga na cara de Yolanda (Joana Fomm) que não é filha dela, e essa provocação de uma adolescente mimada contra a tia que a criou já avisa o espectador que a novela vai girar em torno da disputa entre duas irmãs pela mesma menina. Joana Fomm assumiu Yolanda às vésperas da estreia, no lugar de Norma Bengell, gravando 18 capítulos em uma semana e se inspirando na relação complicada com a própria mãe para compor a personagem, o que ajudou a entender por que a briga com Marisa aparecia tão verdadeira na tela. Conflitos desse tipo estavam no centro do debate nacional, já que o divórcio havia sido aprovado no Brasil um ano antes da estreia, e a Censura Federal, ao ler a sinopse da trama, considerou impróprios temas como “a desagregação familiar gerada pela separação de casais” e “a situação do amor livre”, este último porque a protagonista era “mãe solteira“.
A censura ainda chegou a exigir que a novela fosse exibida depois das 22h, mas desistiu dessa exigência e, em troca, cortou trechos de pelo menos 25 capítulos, preocupada principalmente com o vocabulário dos personagens e com as relações familiares e amorosas. Como os diálogos estavam sob vigilância, Daniel Filho, diretor dos primeiros 26 capítulos, apostou na música e no visual. Foi dele a ideia de trocar o restaurante chique da sinopse original por uma discoteca, inspirado pelo sucesso de Os Embalos de Sábado à Noite (1977), e o título veio da boate que o produtor musical Nelson Motta tinha aberto no Rio, a Frenetic Dancing Days Discothèque. A abertura criada por Hans Donner e Rudi Böhn, com fotos de jovens dançando, luzes de neon e os nomes do elenco em letras de estilos diferentes, entra totalmente nessa dinâmica, um contraste com as cenas do primeiro capítulo, que mostram pessoas presas a dívidas, a um passado na cadeia ou a uma família sufocante. Isso piora quando lembramos que o país vivia sob o AI-5.
Pouca gente acreditava na novela, a começar pelo próprio autor, que anos depois contou ter escrito tudo sem saber direito o que fazia e convencido de que ninguém gostaria. O produtor Guto Graça Mello, responsável pela trilha sonora, achou a sinopse ruim e escolheu as músicas nacionais sem muito cuidado, certo de que a novela sairia do ar em dois meses. Mas os números desmentiram ambos os artistas. A trilha internacional foi a primeira de novela a passar de um milhão de cópias vendidas, com 1.371.021 unidades, recorde que só a trilha internacional de Vale Tudo superaria dez anos depois; a fábrica de brinquedos Estrela vendeu 400 mil unidades da Pepa, a boneca com quem Carminha conversava sozinha na novela; as meias de lurex usadas com sandálias de salto fino viraram moda em todo o país; a revista americana Newsweek publicou uma reportagem sobre a influência da novela no consumo dos brasileiros; e a Televisa fez de Dancin’ Days a primeira novela brasileira exibida no México. O fenômeno chegou ao cinema em Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, numa cena em que os moradores de uma cidadezinha abandonam o espetáculo de um grupo de artistas mambembes para assistir a um capítulo da novela na praça, e serviu de exemplo do poder da Globo no documentário Muito Além do Cidadão Kane. Gilberto Braga contava que até a cozinheira dele, que o via escrever todos os dias, bateu o telefone na cara de Joana Fomm, por achar que a cara de nojo de Yolanda era da atriz, e não do roteiro. A novela que nasceu de uma reportagem sobre presidiárias reais acabou sendo vista pelo público como se também fosse um retrato da vida real, justamente num país onde a ditadura prendia e cerceava liberdades, e decidia o que podia ou não ser dito na televisão.
Dancin’ Days – Capítulo 1 (Brasil, 10 de julho de 1978)
Criação: Gilberto Braga (baseado em A Prisioneira, de Janete Clair)
Direção: Daniel Filho
Roteiro: Gilberto Braga
Elenco: Sônia Braga, Antônio Fagundes, Joana Fomm, Pepita Rodríguez, Reginaldo Faria, Glória Pires, Lauro Corona, Lídia Brondi, Cláudio Corrêa e Castro, Yara Amaral, Mário Lago, Sura Berditchevsky, Eduardo Tornaghi, Beatriz Segall, Ary Fontoura, Milton Moraes, Lourdes Mayer, José Lewgoy, Jacqueline Laurence, Gracinda Freire, Ivan Cândido, Cleyde Blota, Mauro Mendonça, Neuza Borges, Regina Vianna, Mira Palheta, Chica Xavier, Renato Pedrosa, Rejane Schumann, Maria Lúcia Dahl, Jardel Mello, Ambrosio Fregolente, Tânia Loureiro, Cláudia Ohana, Eri Johnson, Luiza Tomé, As Frenéticas, Carlos Machado, Danuza Leão, Gal Costa, Lauro César Muniz, Nana Caymmi, Ney Latorraca, Paulette, Silvinho, Wanderléa
Duração: 45 minutos
Ambrósio FregolenteAntônio FagundesAry FontouraAs FrenéticasBeatriz SegallCarlos MachadoChica XavierCláudia OhanaCláudio Corrêa e CastroCleyde BlotaDaniel FilhoDanuza LeãoEduardo TornaghiEri JohnsonGal CostaGilberto BragaGlória PiresGracinda FreireIvan CândidoJacqueline LaurenceJanete ClairJardel MelloJoana FommJosé LewgoyLauro César MunizLauro CoronaLídia BrondiLourdes MayerLuiza ToméMaria Lúcia DahlMário LagoMauro MendonçaMilton MoraesMira PalhetaNana CaymmiNeuza BorgesNey LatorracaNovelas BrasileirasPaulettePepita RodríguezRegina ViannaReginaldo FariaRejane SchumannRenato PedrosaSilvinhoSônia BragaSura BerditchevskyTânia LoureiroWanderléaYara Amaral
Fonte: Plano Critico.
