2
Os filmes baseados em histórias de possessão demoníaca, rituais de exorcismo e entidades malignas pertencem a uma vertente do terror que, de maneira muito semelhante às tramas focadas em predadores como tubarões ou em psicopatas mascarados, opera em uma lógica de ciclos recorrentes na indústria cinematográfica. Essas produções alternam constantemente entre momentos de grande saturação e fases de reinvenção, atravessando períodos curtos ou longos de altos e baixos comerciais e de crítica, mas mantendo sempre a garantia de que eventualmente retornarão às salas de cinema para assustar novas e antigas plateias. Dentro desse panorama de ressurgimento do gênero, a obra cinematográfica intitulada A Caixa do Demônio se estabelece como uma proposta que tenta equilibrar os códigos tradicionais do horror com uma carga dramática mais intimista e voltada para o colapso psicológico de seus protagonistas.
A trama central da produção acompanha a jornada de Ellen, interpretada pela atriz Carla Gugino, que entrega um bom desempenho dramático ao dar vida a uma mulher em pleno processo de luto e reconstrução pessoal. Ellen tenta reorganizar sua própria existência após o falecimento de sua mãe, uma figura de quem ela cuidou de forma dedicada durante anos, enquanto testemunhava o avanço progressivo do Alzheimer. No meio desse turbilhão emocional e da fragilidade deixada pela perda, a protagonista aceita acolher em sua residência o seu primo Winthrop, papel defendido pelo ator (Lou Taylor Pucci)Winthrop é apresentado como um veterano da guerra do Afeganistão que carrega consigo traumas profundos decorrentes dos campos de batalha, o que estabelece uma dinâmica residencial inicial marcada pelo silêncio absoluto, pelo distanciamento e por um comportamento extremamente reservado de sua parte.
O cotidiano estático e melancólico estabelecido entre os dois primos começa a sofrer modificações significativas com a introdução de Vahna, vivida pela atriz Katharine Isabelle, uma vizinha de comportamento excêntrico que passa a manifestar um interesse claro por Winthrop. Ao começar a frequentar a residência de Ellen, Vahna altera a atmosfera local, porém sua participação é brutalmente interrompida por uma morte envolta em mistério. Esse evento fatídico transforma por completo a rotina da casa e coloca Ellen diante de acontecimentos inexplicáveis e aterrorizantes que desafiam diretamente sua sanidade e sua capacidade de compreensão lógica. É a partir desse ponto que o roteiro, inspirado em um episódio do popular podcast de histórias de horror Knifepoint Horror, criado por Soren Narnia, passa a explorar a tensão psicológica central da obra, deixando o espectador em dúvida se o protagonista masculino está apenas sofrendo de graves sequelas mentais da guerra ou se ele realmente abriga uma força sobrenatural e maligna dentro de si.
A direção do projeto fica a cargo de Daniel Stamm, cineasta que já possui experiência prévia e reconhecimento no gênero por seu trabalho em O Último Exorcismo, e que aqui trabalha a partir do texto escrito pelo roteirista Justin Yoffe. Um dos pontos conceituais mais marcantes da narrativa reside na própria metáfora que dá título à produção, uma vez que a expressão original faz referência literal a uma caixa de segurança ou a um cofre dotado de cadeado. No contexto do filme, esse conceito é transposto para a figura de Winthrop, ilustrando como o mal e a escuridão se espalharam e passaram a residir no interior do veterano de guerra, transformando o seu próprio corpo em uma espécie de caixa viva responsável por aprisionar e, ocasionalmente, liberar uma entidade demoníaca destrutiva.
Apesar de demonstrar qualidades inegáveis em sua introdução, o roteiro de Justin Yoffe enfrenta certas dificuldades estruturais ao desenvolver sua segunda metade, perdendo parte do fôlego inicial, embora essas falhas não cheguem a arruinar ou desandar o resultado da experiência como um todo. Um dos aspectos mais interessantes e de maior mérito em A Caixa do Demônio é o fato de que, mesmo sendo assumidamente um filme de terror, a produção alcança um envolvimento emocional e dramático muito mais potente quando foca no drama familiar e no desgaste de seus personagens do que quando se apoia puramente no componente sobrenatural. Com uma duração total de 105 minutos, que se revelam amenos e fluidos, a obra consegue pontuar sua narrativa com rompantes eficientes de horror físico e psicológico, gerando sustos genuínos por meio dos jumpscares articulados pelo design de som, cuja equipe foi supervisionada diretamente por Dwayne Murray.
A sustentação dessa atmosfera dual, que caminha constantemente entre o drama humano e o horror visceral, deve-se muito ao trabalho técnico minucioso realizado pelos profissionais de bastidores de A Caixa do Demônio. A trilha sonora composta por Matthew Rogers transita com propriedade entre melodias melancólicas que reforçam o luto e acordes dissonantes voltados para o suspense e o medo. Visualmente, o design de produção assinado por Daren Luc Sasges é extremamente eficiente ao criar cenários que alternam entre o acolhimento doméstico e o isolamento opressivo, fornecendo uma base sólida para a direção de fotografia de Alfonso Chin. O cinegrafista capta com precisão esses espaços limitados e utiliza de forma recorrente o recurso dos reflexos para acentuar a duplicidade e a paranoia dos personagens. No fim, a maior parte das sequências de horror integra-se aos pesadelos e alucinações dos envolvidos, mas mantendo passagens satisfatórias para os entusiastas de manifestações sobrenaturais clássicas. Ao evitar o excesso de personagens e subtramas desnecessárias que poderiam comprometer o ritmo, o filme entrega uma proposta concisa e misteriosa que faz o básico com competência e entrega um resultado satisfatório.
A Caixa do Demônio (Lockbox) – EUA / Reino Unido / Canadá / 2026
Direção: Daniel Stamm
Roteiro: Justin Yoffe, Soren Narnia
Elenco: Carla Gugino, Lou Taylor Pucci, Katharine Isabelle, Jed Rees, Aedan Edwards, Donald Sales, Jason McKinnon
Duração: 105 min
Aedan EdwardsCarla GuginoDaniel StammDonald SalesFilmes de ExorcismoJason McKinnonJed ReesJustin YoffeKatharine IsabelleLou Taylor PucciPossessãoSoren Narnia
Fonte: Plano Critico.
