Por Damiana Ventura
Natural de Vila Cruzeiro do Sul, em Aparecida de Goiânia, no estado de Goiás, Aristótelis Tothi é cineasta negro, técnico cinematográfico e colagista. Formado na quarta turma do curso pioneiro de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Tothi é sócio-fundador da Dafuq Filmes, co-criador do selo afirmativo Filmes de Preto e associado da APAN – Associação de Profissionais do Audiovisual Negro. A trajetória de Tothi no audiovisual tem 15 anos e surgiu através da serendipidade e da percepção aguçada de sua mãe.
Memória, afeição e cinema de rua
A relação de Aristótelis com o audiovisual tem raízes no vínculo afetivo com sua tia, que levava as crianças do bairro para assistir aos filmes no cinema de rua Cine Ritz, em Aparecida de Goiânia.
“Minha primeira grande experiência com cinema foi aos cinco anos de idade. Fui no cinema de rua, que existe aqui em Goiânia até hoje, se chama Cine Ritz, e eu fui assistir “O Rei Leão”. “O Rei Leão”, inclusive, é um grande filme na minha vida. Acho muito simbólico. E foi uma tropa, assim, porque minha tia… A gente saiu lá do Cruzeiro, que é esse bairro onde eu cresci, e viemos para o centro da cidade, ela com pelo menos dez crianças para assistir a esse filme. Consigo me lembrar desse dia, tanto de pegar ônibus, atravessar a cidade, quanto de chegar no cinema (…) consigo me lembrar da tela e tal. Mas não foi isso que me aficcionou a princípio.”
Serendipidade
Não ter sido aprovado em Publicidade e Propaganda foi um dos fatores que alteraram o destino e fizeram com que Tothi ingressasse no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás (UEG). A estranheza inicial, os choques culturais e socioeconômicos fizeram com que o artista vindo da periferia se sentisse inadequado no ambiente acadêmico. No segundo ano do curso, frequentou apenas as disciplinas de fotografia, trabalhou em call center e planejava fazer transferência para o curso de Administração de Empresas em uma faculdade federal. Todavia, a serendipidade entrou em ação através das palavras de Inez, mãe de Tothi.
“Cheguei para a minha mãe e falei: ‘Mãe, passei para Administração, o que você acha?’ E minha mãe falou assim: ‘Ó, você é pobre, você vai administrar o quê?! Volta para esse curso seu aí, que eu não sei o que é, mas eu acho que pode ser melhor’. E, obviamente, minha mãe tinha razão, mesmo não sabendo.”
“Eu não mexo com o cinema, o cinema é que mexe comigo.”
Adentrar uma nova turma com uma intenção recalibrada levou Aristótelis a fazer parcerias que culminaram na criação da Dafuq Filmes, sua produtora e locadora audiovisual. A partir disso, passou a se dedicar com mais afinco ao curso, assistindo a mais filmes e tendo seu primeiro contato com os equipamentos e com o ambiente de set.
Mentorado por Chico Macedo, em 2011, Tothi teve sua primeira oportunidade profissional em uma equipe de cinema como assistente de maquinária. A função envolvia montagem de estrutura de iluminação e suporte para filmagens, o que o levou a desenvolver conhecimento técnico, raciocínio espacial e gestão de equipamentos. Tothi comparou ter uma visão panorâmica do set à experiência de sempre ter se sentado no fundo da sala de aula.
“Você começa a ter uma dimensão física daquele espaço muito foda. Eu comparava aquilo a sentar no fundo da sala de aula, que era como eu sempre sentei (…) tinha essa visualidade toda daquilo, eu tinha essa dimensão de campo.”
Ao longo de cerca de seis anos, trabalhou em praticamente todas as funções do set: assistente de maquinária, maquinista-chefe, som direto, assistente de direção, platô e produção, com exceção da equipe de arte. A formação acadêmica e técnica de Tothi andaram de braços dados, sendo desenvolvidas paralelamente.
Dafuq Filmes, Filmes de Preto & APAN – Associação
Com sede em Goiânia e criada em 2012, a Dafuq Filmes é uma produtora e locadora criada durante o curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás. No início, Tothi, Larry Machado e Getúlio Ribeiro se uniram para realizar pequenos trabalhos da universidade. Ao longo dos anos, a produtora realizou 16 curtas-metragens, quatro longas-metragens, além de videoclipes e coproduções. Expandiu-se ao se tornar também uma locadora audiovisual, o que viabiliza a autonomia das produções e de seus criadores.
A estrutura da produtora e locadora conta com equipamentos de câmera, iluminação e som, tornando-a uma referência em produção no Centro-Oeste.
No presente, a Dafuq Filmes se desdobrou e realiza o projeto “Brota na Base”, que atua em três eixos: formação, incentivo à produção e exibição audiovisual, fortalecendo projetos de estudantes de cinema e de outros artistas de Goiânia.
Além disso, a Filmes de Preto é um selo audiovisual criado em 2017 por Tothi, Rafael Gustavo e Vanessa Gouveia com o objetivo de afirmar as produções de realizadores negros. Ambos os realizadores estavam com curtas-metragens para serem lançados no período, e o selo leva o nome do evento de lançamento desses filmes.
O realizador também é um dos associados da APAN – Associação de Profissionais do Audiovisual Negro. A entidade é uma referência representativa que se articula diante de demandas políticas em prol dos profissionais negros na indústria, o que beneficia criadores como Tothi.

Estreia diretorial com “A Câmera de João” (2017)
Enquanto esteve na faculdade, o cineasta não dirigiu nenhuma obra audiovisual. No entanto, foi durante uma disciplina de roteiro que “A Câmera de João” surgiu. O roteiro do curta-metragem infantojuvenil ficou guardado por alguns anos e, só após se formar, Tothi escreveu, com alguns colegas, um projeto tendo esse roteiro em mente e conseguiu aprová-lo em três editais diferentes, captando R$ 280 mil, valor expressivo para um primeiro curta-metragem, especialmente por causa da conjuntura político-cultural do ano de 2016.
O filme acompanha João, um menino fascinado por fotografia, que aprende a fazer uma câmera pinhole com seu avô.
O diretor e roteirista descreve a experiência de ter feito “A Câmera de João” como muito desafiadora devido ao contexto racial da narrativa, à sua própria vivência e à sua transição no modo de trabalhar.
“É um filme que racialmente se posicionava porque todo o elenco é negro, uma história de uma família negra que tinha acesso à fotografia, à câmera, que tinha acesso a um dispositivo que nos é negado o tempo todo. É muito doido, porque hoje eu vejo o simbolismo disso tudo na minha trajetória. Tinha essa coisa de todo mundo conhecer o Tothi nesse contexto de ser assistente, de ser um trabalhador braçal…”
O elenco foi composto pela atriz Neusa Borges, Adilson Magá, ator mineiro com mais de 30 anos de carreira, falecido posteriormente, e o neto do ator, Lucas Romão. O curta tem quase 22 minutos de duração, o que limitou sua participação em alguns festivais, e circulou em mais de 60 festivais nacionais e internacionais.
Fabulosos filmes domésticos
Com seus primeiros cachês como assistente de maquinária, Aristótelis Tothi comprou sua primeira câmera, uma DSLR T4i, a fim de superar o receio de manusear câmeras. Começou filmando a realidade que via diante dos olhos: o cotidiano doméstico. Com a práxis, o cineasta desenvolveu algo que chama de “coreografias do cotidiano doméstico”, explorando repetições e gestos do dia a dia somados à fabulação.
O curta “Frescor Marine” (2019) é resultado de um jogo fabulativo envolvendo um desinfetante e foi filmado em apenas um dia, enquanto sua irmã limpava a casa. “Búfala”(2021) surgiu de um tríptico de videoperformances chamado “Memória de um Movimento de um Corpo Ancestral”, feito durante a pandemia de 2020 e tendo sua mãe, Inez dos Santos, como performer. O filme explora a relação dos movimentos, da dança e dos orixás, especificamente Iansã, a partir de dois lençóis vermelhos que sua mãe estendia e que coloriam a casa de vermelho quando o Sol batia.
O ato de se reconhecer como artista
Tothi reflete que o reconhecimento de si mesmo como artista é um processo recente e indissociável da negritude. O cinema é historicamente elitista e tratado como alta cultura, o que dificulta que pessoas negras e de origem periférica se reconheçam como artistas. É uma questão multifatorial que não ignora o conservadorismo do lugar de origem e de uma cena cinematográfica que se consolida lentamente.
Os pais do cineasta eram camelôs, e ele trabalhava em feiras desde criança, empurrando carrinhos, montando barracas e “correndo do rapa”. Mesmo durante a faculdade, ainda ajudava seu pai com o trabalho na feira.
“Me perceber como artista é algo muito recente, por entender que eu não proponho nada novo, mas eu proponho algo que tem uma característica, e aí é algo que pode ser fresco, mas, como dizem: ‘o contemporâneo só vai ser entendido lá na frente’. (…) Acho que é um processo que nunca vai ter fim, e que eu desejo que nunca tenha fim. Então, me tornar artista vai ser um processo que eu desejo que dure até o fim dos meus dias. Que seja sempre o caminho da instiga mesmo. Então eu desejo ser sempre motivado e instigado por estar ali, desdobrando os meus processos artísticos.”

Os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção na Mostra Competitiva Nacional de Curtas do 33º Festival de Cinema de Vitória, em 2026, foram um marco pessoal no processo de reconhecimento externo como diretor.
“Eu ainda estou processando, tentando também lidar com essas camadas da vaidade, do ego, mas tentando também processar isso de uma maneira muito natural, porque é algo que vem sendo proposto e desejado por mim. Então, é um caminho que eu venho construindo que, enfim, não precisava dessa aprovação, mas, quando ela vem, é da hora.”

Tothi identificou um impasse: as pessoas do meio presumem que ele não quer mais trabalhar em outras funções, e isso reduz sua oferta de trabalho técnico. O realizador rejeita a ideia de que trabalhar em outras funções o tornaria menos artista ou menos diretor. E destaca Larissa Fernandes como sua maior referência profissional. Seu primeiro trabalho como assistente de maquinária foi em um projeto dirigido por ela. Larissa é hoje diretora na TV Globo, dirigindo novelas há três anos, sendo a maior referência do audiovisual goiano.
“Ela é a maior referência que a gente tem, não só por estar na Globo, mas por também ter sido uma pessoa que passou por várias etapas dentro do processo de cinema, tipo produção, produção executiva, foi para a arte, fez várias coisas e se tornou diretora no momento em que era para se tornar diretora. Ela construiu esse caminho. Então, com os desafios dela eu também me identifico, sabe?”
Críticas à estrutura hierárquica do set e ao elitismo no cinema
Aristótelis Tothi critica a estrutura hierárquica do set, que reproduz convenções sociais e relações de poder prejudiciais. Observou, durante a sua formação, que os estudantes de cinema tendem a se identificar de imediato com funções de prestígio, como direção, roteiro e direção de fotografia, sem valorizar as funções técnicas, consideradas trabalho braçal. Ele defende que a hierarquia no set deve servir à organização e ao objetivo comum, não ao exercício de poder, e vê no coletivo o meio de romper com essa maneira corrosiva de se organizar.
“No lance do coletivo que a gente tem [Dafuq Filmes] não entra nessa egolombra, sabe? Essa egolombra de que o cinema é esse lugar inacessível, cult demais, ser um artigo de arte, enfim, dessas convenções malucas que, por ser um espaço mantido por tanto tempo por pessoas que tinham o acesso… Ter uma câmera era algo muito caro. Ainda é [caro], mas a gente entende que acessibilizou de alguma forma. Hoje a gente consegue ter acesso a uma câmera, fazer um filme com pessoas próximas, enfim, a gente consegue entender que existem outras formas de realizar.”
“Tião Personal Dancer” (2026)
O contato inicial de Tothi com o forró no centro comunitário do seu bairro e com a figura real de um “personal dancer” chamado Tião, que entregou um cartão à sua tia em 2016, instigou um interesse documental sobre aquele homem e o universo do forró. A primeira versão do roteiro foi escrita em 2021, focando inicialmente em um casal hétero mais velho, mas o criador sentia que precisava explorar novas perspectivas de sexualidade e o “tesão” presente nesses espaços.
Durante a pesquisa nos espaços de forró, ele observou que, nesses ambientes heteronormativos, os homens gays disfarçavam seu comportamento, mas possuíam dinâmicas próprias de sociabilidade e proteção junto às amigas.
“Tião Personal Dancer” (2026) é um curta-metragem com viés queer, vencedor do Festival de Vitória nas categorias Melhor Filme e Melhor Direção, coescrito com Bruno Victor. O prêmio no Festival de Vitória proporcionou a Tothi uma maior projeção profissional, dando um “rosto” ao realizador e ajudando na circulação de seus trabalhos anteriores, como seu longa-metragem documental.
Papo de futuro
Aristótelis Tothi está trabalhando em um argumento de ficção e no circuito de circulação do longa-metragem documental “Vasta Natureza de Minha Mãe” (2025). O filme “Vasta Natureza de Minha Mãe” descende dos passos iniciais de Tothi na direção, no contexto do cotidiano e das fabulações.

As filmagens começaram em 2013, com imagens do cotidiano de Inez dos Santos, e o resultado foi lançado em 2025. Inez dos Santos assina a codireção do filme, sendo não apenas personagem, mas produzindo imagens e conceituando a obra junto com Tothi. O cineasta considera que sua primeira direção, em termos de processo, começou em 2013, antes mesmo do curta “A Câmera de João”.
No momento, seu objetivo é consolidar sua carreira como diretor e roteirista, focado em contar histórias com forma e conteúdo bem definidos.





