Até quando o futebol africano será subestimado?

Portal Inhaí
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Por Saionara Oliveira – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Existe uma cena que se repete em praticamente toda Copa do Mundo: quando uma seleção africana vence, alguém se surpreende. Não importa se estamos falando de Camarões, em 1990, Senegal, em 2002, Gana, em 2010, Marrocos, em 2022, ou das campanhas que acompanhamos em 2026. A história se repete em diferentes décadas e com diferentes protagonistas. O que permanece é a sensação de espanto que acompanha muitas vitórias africanas, como se o continente ainda precisasse provar, a cada Copa, que pertence à elite do futebol mundial.

Chega um momento, porém, em que a surpresa deixa de revelar algo sobre quem venceu e passa a revelar algo sobre quem observa.

A Copa do Mundo de 2026 recoloca essa questão no centro do debate. Com mais seleções africanas em campo e campanhas que voltam a desafiar previsões, o torneio expõe uma contradição persistente: o futebol africano evoluiu, conquistou espaço e acumulou resultados. O olhar do mundo, porém, nem sempre acompanhou essa transformação.

Durante décadas, a África foi empurrada para a periferia das narrativas globais, na economia, na política, na produção de conhecimento e também no esporte. O continente que revelou alguns dos maiores jogadores da história do futebol continua sendo tratado, muitas vezes, como visitante em uma casa que ajudou a construir.

Quando uma seleção europeia realiza uma campanha acima das expectativas, surgem análises sobre planejamento, investimento, inteligência coletiva e cultura esportiva. Quando uma seleção africana faz exatamente a mesma coisa, ainda aparece uma palavra que carrega décadas de preconceitos disfarçados: zebra.

O incômodo não está apenas no resultado, mas na forma como ele é interpretado. Vitórias africanas ainda são frequentemente recebidas com espanto, como se a excelência fosse um acontecimento improvável, e não o resultado de trabalho, investimento e talento. É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas esportiva. Ela se torna política e simbólica, porque revela quem o futebol mundial está acostumado a enxergar como protagonista e quem ainda precisa lutar por reconhecimento.

Marrocos chegou à semifinal da Copa do Mundo de 2022 e obrigou muita gente a rever certezas. Não porque tenha realizado um milagre, mas porque expôs uma verdade desconfortável: havia mais preconceito nas análises do que realidade dentro de campo.

O futebol africano mudou há muito tempo. Mudaram os centros de formação, os investimentos, as estruturas e os resultados. O continente passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante no cenário esportivo internacional. O que continua assustadoramente parecido é a forma como parte do mundo ainda olha para a África.

As seleções africanas chegam à Copa de 2026 mais organizadas, mais experientes e mais conectadas ao futebol global do que em qualquer outro momento de sua história. Seus jogadores brilham nos maiores clubes do planeta, seus projetos esportivos amadurecem e suas campanhas já não podem ser tratadas como acontecimentos isolados.

Ainda assim, uma parte da narrativa permanece presa ao passado. Persistem estereótipos que dificultam o reconhecimento de uma realidade cada vez mais evidente: a África não é uma promessa do futebol mundial. Ela já é uma de suas protagonistas.

Por isso, talvez a pergunta desta Copa não seja quem vai levantar a taça. A pergunta é outra: quantas vezes a África precisará demonstrar sua força para deixar de ser tratada como exceção?

Depois de tantas gerações talentosas, campanhas históricas e demonstrações de qualidade, já não faz sentido questionar a capacidade do futebol africano. A questão agora é outra: por que tanta gente ainda resiste a reconhecer aquilo que está diante dos próprios olhos?



Por Midia Ninja

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