
Na última quinta-feira, dia 3 de abril, a Faculdade de Educação (FE) promoveu um evento para conceder à Ligia Maria Salgado Nóbrega seu diploma honorífico post-mortem. Lançado no final de 2023, o projeto Diplomação da Resistência, uma iniciativa da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento e da Pró-Reitoria de Graduação, tem como propósito conceder diplomas honoríficos aos 31 estudantes da Universidade que foram mortos durante a ditadura militar brasileira e reparar as injustiças históricas e preservar a memória desses ex-alunos, reconhecendo sua trajetória e legado.
Nascida no dia 30 de junho de 1947 em Natal (RN), Lígia ingressou no curso de pedagogia da USP em 1967. Destacando-se pela sua capacidade intelectual e pela visão inovadora do campo da educação e dos métodos de ensino, ela fez parte do grêmio estudantil do curso de pedagogia e começou a militar na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), quando começou a viver na clandestinidade e se mudou para o Rio de Janeiro.
Durante esse período, emprestou seu carro a um colega, que acabou sendo preso com documentos dela no veículo. A partir disso, a polícia chegou à casa da família. Seu irmão, Olímpio Salgado Nóbrega, que estava presente à cerimônia relatou o episódio: “Foi em 1972 e me lembro exatamente. Foi como naquele filme Ainda Estou Aqui. A polícia entrou com tudo, todos foram presos e ninguém podia sair. A diferença é que ela não estava em casa. Ficaram esperando-a chegar, mas antes de vir, ela ligou. Meu pai atendeu e deu a dica de que a polícia estava lá. Ele foi violentamente reprimido. Ela só teve contato conosco mais duas vezes, depois disso”.
Lígia foi uma das vítimas da Chacina do Quintino, no Rio de Janeiro, em 1972. Grávida de James Allen da Luz, um dos líderes da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), ela morreu durante um cerco policial à casa 72, no bairro de Quintino.
O relatório oficial alegou troca de tiros, mas a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro apurou que não havia pólvora nas mãos das vítimas. Vizinhos também afirmaram que os estudantes se entregaram sem resistência. O corpo de Lígia foi reconhecido por seu irmão Francisco e apresentava escoriações, manchas nas costas e marcas de tiro na cabeça e nos braços.
A família só soube da morte por meio de uma reportagem na televisão. Maria de Lourdes, irmã da estudante, relembra: “Quando noticiaram a chacina, só conseguimos recuperar seu corpo para um enterro digno graças ao esforço judicial de um tio advogado e à dor indescritível do meu irmão médico, Francisco Gorgonio da Nóbrega, que foi obrigado a realizar a autópsia para liberar o corpo. Meu pai, Gorgonio Nóbrega, morreu menos de um ano depois. Mamãe, Nali Ruth Salgado Nóbrega, entrou em profunda depressão. E a irmã caçula preferiu viver em outro país”.