Lixo online: o que acontece quando as redes estão lotadas de conteúdo de baixa qualidade? 

Portal Inhaí
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Há quase uma década, começou a circular na internet uma teoria da conspiração conhecida como “teoria da internet morta”. A ideia era a de que uma parcela significativa das interações na rede já não seria produzida por pessoas, mas por bots que estariam ocupando o lugar das interações humanas, produzindo conteúdos, impulsionando determinados assuntos e interferindo naquilo que consumimos online.

Desde o boom das ferramentas de inteligência artificial generativa, a partir de 2022, alguns elementos dessa teoria ganharam contornos mais reais. Nunca foi tão fácil produzir, em grande escala e a baixo custo, textos, imagens, vídeos e áudios sintéticos. Junto com esse aumento da capacidade de produção, cresceu também a quantidade de conteúdos que parecem existir somente para alimentar algoritmos e disputar alguns segundos da nossa atenção.

É nesse ambiente de excesso que ganha força a chamada “AI slop”, expressão que pode ser traduzida como “lixo de IA” ou “chorume de IA”. São conteúdos produzidos com inteligência artificial de maneira rápida, repetitiva e pouco cuidadosa, geralmente marcados por baixa qualidade estética, narrativa ou informativa.

A aparência, aliás, pode ser justamente parte do problema. Muitos desses conteúdos são visualmente chamativos, hiper-realistas ou deliberadamente absurdos. Misturam elementos inesperados, situações improváveis e personagens caricatos. Quanto mais estranho, chocante ou emocionalmente apelativo, maior a possibilidade de interromper o nosso feed infinito por alguns segundos. O AI slop parece ser, em muitos casos, um conteúdo perfeitamente adaptado às lógicas das plataformas: ele é barato de produzir, fácil de replicar, chamativo e desenhado para provocar uma reação imediata.

No Aláfia Lab, uma das nossas linhas de pesquisa investiga as Desigualdades Informativas para  compreendermos como os brasileiros compõem suas dietas informativas,  quais fontes utilizam, quais conteúdos consomem e como diferentes grupos se relacionam com a informação. As redes sociais ocupam um lugar importante nesse ecossistema. E, quando perguntamos sobre os tipos de conteúdo consumidos, o humor aparece entre aqueles com maior presença em diversas plataformas.

A ideia de “dieta informativa” é uma metáfora recorrente para pensar a qualidade e a quantidade de conteúdo consumido. Se seguirmos essa analogia, talvez seja possível pensar o AI slop como uma espécie de conteúdo ultraprocessado na dieta informativa do brasileiro. Ele é altamente palatável, produzido em escala, desenhado para estimular o consumo e com pouco valor nutritivo.

A comparação não significa que todo conteúdo produzido por inteligência artificial seja necessariamente ruim. Tampouco significa que conteúdos leves e humorísticos sejam, por definição, problemáticos. O ponto é o que acontece quando uma parcela cada vez maior daquilo que vemos é produzida segundo uma lógica em que qualidade e relevância importam menos do que a capacidade de capturar atenção?

No Brasil, as chamadas “novelinhas de frutas” são um bom exemplo do lixo online produzido com IA. São animações curtas, supercoloridas, que contam micro-histórias com roteiros simples e personagens antropomorfizados. Muitas exploram conflitos familiares, humilhações, relações amorosas, situações exageradas e oferecem uma recompensa narrativa rápida. É uma fórmula perfeita para um ecossistema digital baseado na retenção da atenção. Pesquisa da Global Network on Extremism and Technology (GNET) apontou que estes vídeos de frutas animadas podem reproduzir estigmas, preconceitos e desinformação. Há também alertas sobre o uso de formatos aparentemente absurdos ou infantis para introduzir conteúdos violentos e extremistas.

Algumas plataformas já começam a reconhecer o problema. Recentemente, o LinkedIn passou a exibir um botão para denunciar postagens feitas com IA, com a opção “Parece lixo de IA”. O Instagram também passou a sinalizar conteúdos como “Conteúdo feito por IA”.

Além de apenas sabermos que aquele conteúdo foi feito com IA, é importante refletirmos sobre que tipo de ambiente informacional desejamos construir. A “teoria da internet morta” parecia imaginar um mundo em que bots conversavam entre si enquanto nós apenas observávamos. A realidade parece ser menos cinematográfica e mais banal. No fim, a questão talvez não seja se a internet está morta. É saber do que queremos que ela seja feita antes que acabemos inundados por lixo.

Ellen Guerra é doutoranda e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas, na linha de Cultura Digital, pela Universidade Federal da Bahia. Graduada em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Pesquisadora no Laboratório de Pesquisa em Mídia Digital, Redes e Espaço (LAB404). Atualmente, é assessora executiva e pesquisadora no Aláfia Lab.



Por Midia Ninja

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