Por Rafael Lisboa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A manutenção dos Estados Unidos como sede por parte da FIFA surpreendeu uma parte dos consumidores do futebol. Esperava-se que a entidade tomasse uma decisão contrária ao país norte-americano, principalmente pela punição sofrida pela Rússia em 2022, por conta da guerra na Ucrânia. Todavia, apesar do fato recente, outras escolhas mostram um lado da federação.
A partir das escolhas de Rússia, Qatar e Arábia Saudita como sede das Copas de 2018, 2022 e 2024, respectivamente, evidencia a indiferença, ou até preferência, da entidade perante a governos autoritários e países com ações contrárias aos direitos humanos, desde que seja uma escolha lucrativa. Além disso, Gianni Infantino, presidente da federação, entregou a Donald Trump o Prêmio da Paz da FIFA em dezembro do último ano.
Mesmo que os fatos citados mostrem um posicionamento mais alinhado aos Estados Unidos, a verdade é que decisões contraditórias tomadas pela FIFA ocorrem desde muito antes do italiano chegar à presidência, sendo um caso evidente, a escolha da Argentina como sede da Copa de 1978.
Escolha foi feita em momento turbulento no país
Foi em Londres, em 1966, que a FIFA escolheu a Argentina como sede da Copa do Mundo de 1978. A candidatura à época foi impulsionada por governos democráticos e de cunho peronista, contudo um golpe realizado duas semanas antes instaurava uma ditadura militar no país, depondo o então presidente Arturo Illia.
Com o fracasso econômico e a insatisfação popular, a democracia retornou como forma de governo do país em 1973, com eleições diretas vencidas por Juan Perón. Um ano depois, Perón é vítima de uma parada cardíaca, promovendo a vice e ex-esposa, Isabel Perón, que possuía rejeição no país, ao poder Com isso, as juntas militares perceberam o momento e receberam apoio organizacional e armamentista dos Estados Unidos, além dos governos vigentes de Brasil e Chile, para orquestrar mais um golpe de estado.
Faltando dois anos para a Copa, a ditadura, sob comando do general Jorge Rafael Videla, que tomava conta da Argentina passou a ver o evento como uma possibilidade de melhorar a imagem do país para o exterior, além de promover mensagens nacionalistas e esconder atrocidades promovidas pelo governo, visto que o futebol norteava a sociedade.

Na época, a repercussão negativa do governo argentino já existia fora do país e assustava diversos jornalistas europeus, que escutavam relatos de maus tratos e desaparecimentos de colegas de profissão. A mobilização era maior principalmente na França, onde um comitê foi criado para que a seleção boicotasse o torneio, pedido rejeitado pela federação.
Sem nenhuma interferência da FIFA, o torneio foi disputado normalmente mesmo com o temor local. Torcedores se assustavam com os gritos que vinham dos centros clandestinos de execução, localizados próximos ao estádio Monumental de Nuñez, além disso, o atacante sueco Ralf Edström foi preso até ser devidamente reconhecido.

Apesar desses episódios, o mais polêmico e controverso caso ocorreu em Rosário, no dia 21 de junho de 1978. Com os hermanos precisando da vitória sobre o Peru por quatro gols de diferença para se classificar às finais e eliminar o Brasil, o general Videla agiu. O ditador foi visto no vestiário da seleção peruana na mesma semana que teria permitido uma doação milionária de trigo aos visitantes. Até os dias de hoje, não há comprovação de compra de resultado, contudo, políticos e donos de cartéis da época afirmam o ocorrido. O contrário se passa com jogadores de ambas as seleções, como é o caso do goleiro argentino e naturalizado peruano, Ramón Quiroga, que segue acusado de ter facilitado os gols.

Mesmo com a ditadura permanecendo por mais cinco anos depois do torneio, pode-se dizer que o evento foi importante para mostrar ao mundo o ocorrido no país vizinho. Talvez, essa seja a importância da tão midiática Copa do Mundo ocorrer em um país de governante autoritário.
