Por Evelyn Ludovina
O Rio Grande do Sul tem enfrentado, nos últimos dias, um novo episódio de chuvas fortes, alagamentos e rápida elevação dos rios. As enchentes são o primeiro efeito relacionado ao fenômeno El Niño 2026–2027 no estado, de acordo com o MetSul Meteorologia. A 350.org se solidariza com as pessoas afetadas e pede ações reais e urgentes dos governantes em relação à raiz do problema: os combustíveis fósseis.
Durante o fim de semana, a Defesa Civil gaúcha chegou a registrar mais de 200 municípios afetados pelas chuvas, e rios como o Taquari permaneceram em nível de alerta para inundações. Novos temporais e grandes acumulados de chuva são esperados para os próximos dias, trazendo apreensão a quem vive em áreas de risco de enchentes e alagamentos.
“Precisamos decretar o estado permanente de emergência climática no Rio Grande do Sul. O El Niño de hoje já não é o mesmo que conhecíamos. Estamos tendo perdas econômicas, sociais e ambientais ano após ano; as pessoas estão ficando doentes, e as ações tomadas desde 2024 ainda são ineficazes e insuficientes. É preciso fazer mais, e mais rápido, com justiça, responsabilidade e transparência”, avalia Renata Padilha, moradora de Porto Alegre e parceira da 350.org Brasil no Eco Pelo Clima.
Apesar da extensão dos estragos, a maior parte dos veículos de imprensa do estado tem reportado os danos sem abordar suas causas. Os temporais — que provocaram alagamentos, bloqueios de rodovias, interrupções no fornecimento de energia e a retirada preventiva de centenas de famílias de suas casas — não são apenas mais um “fenômeno natural”.
“O El Niño não é nenhuma novidade: ocorre há milhares de anos. O que espanta é o aumento de sua intensidade e frequência devido às mudanças climáticas. Quanto mais quentes ficam as águas do Pacífico Equatorial, maior o risco de secas nas regiões Norte e Nordeste e de chuvas intensas para o Sul do país. Precisamos atacar as causas da crise climática e nos adaptar à realidade dos novos eventos extremos. Cada dia de inação nessas duas frentes custa vidas”, diz Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.
Eventos climáticos extremos não são desastres naturais isolados, mas consequência de uma crise que se repete porque o mundo segue dependente de combustíveis fósseis, subsidiando indústrias que lucram bilhões enquanto o custo dos impactos recai sobre a população. Isso se reflete em impostos mais altos para reconstrução e resposta a desastres, além de contas de luz e seguros mais caros. Quem paga essa conta raramente é quem mais contribuiu para o problema.
“O Rio Grande do Sul enfrenta chuvas graves pela segunda vez em dois anos. Isso não é coincidência, é um padrão, e precisa ser tratado como tal. Não são eventos ‘naturais’: eles têm causa e responsáveis conhecidos. São as mudanças climáticas, intensificadas pela queima contínua de combustíveis fósseis. Mas, enquanto isso, o Brasil — um dos países com maior potencial de energia limpa do mundo — segue investindo em carvão e petróleo. É contraditório. É irresponsável. E está custando vidas, casas e o futuro de milhares de pessoas. Preparo e adaptação são urgentes, mas não são suficientes. Enquanto não pararmos de investir em combustíveis fósseis e enfrentarmos a causa do problema, vamos continuar tendo que reconstruir, desastre após desastre”, declara João Cerqueira, diretor da 350.org Brasil.
As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul custaram aproximadamente R$ 87 bilhões à economia do estado e do país. O valor corresponde a quase 2% do PIB brasileiro, segundo estimativa do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), em parceria com a Cepal.
