Por Patrícia B. Zupo
Segunda-feira, dia nacional de descanso no teatro, o complexo do Teatro Guaíra está a todo vapor: no salão nobre principal, a escadaria vermelho-escarlate pulsa vibrante, contrastada ao minimalismo branco quase de cegar do palco, que tem como destaque um par de sapatos, também vermelhos, do Papa.
Em outra ponta do espaço, leques coloridos, glitter e muita purpurina desfilam nada discretos entre olhares vivos de uma plateia em êxtase, que aguarda ansiosa a abertura das cortinas.
O sinal toca, as cortinas se abrem. Em silêncio, dois homens caminham para a cena: um segurando o traje papal em auxílio do outro, que se veste. Batina branca, solidéu na cabeça, mozeta vibrante combinando com as cores do teatro e, por último, os sapatos vermelhos e brilhantes, fechando o momento onde os gestos falam por si só. Silêncio.

Nas paredes ao lado, o sinal toca três vezes, sempre acompanhado de palmas. As cortinas não se abrem, pois da plateia se vê a luz. Dali surge Juana, e as palmas uníssonas acompanham sua entrada triunfal até o palco. Música animada, ela sobe as escadas, o público aplaude. O foco de luz mira apenas em seu rosto; nas mãos, um objeto com cores vibrantes. Ela ergue o leque vermelho.
Do microfone, sua voz suave apresenta a primeira artista da noite: “Vamos ouvir sua palavra”, diz. As cortinas se abrem. E, por último: a batida de leque, fechando o momento onde os gestos falam por si só. Delírio.

A capital paranaense recebe, simultaneamente, duas grandes obras que tensionam o conservadorismo e celebram a diversidade, trazendo ao público questões políticas urgentes, como as pressões institucionais na Igreja e o reconhecimento da arte Drag como ferramenta de ocupação no Teatro e na Dança.
“Dois Papas” é a primeira montagem internacional do texto de Anthony McCarten. No palco, a encenação brasileira propõe uma imersão na intimidade e nos dilemas de dois homens públicos, revelando a humanidade por trás das vestes papais. Zé Carlos Machado interpreta o conservador Bento XVI em um imaginário encontro com Jorge Bergoglio (Celso Frateschi), cardeal de pensamento progressista. O diretor Munir Kanaan readaptou o roteiro original, evidenciando as personagens femininas por meio das interpretações potentes de Carol Godoy e Eliana Guttman.
A apresentação em um palco grandioso como o Guairão impressiona o elenco. Ali, as figuras da Igreja são apresentadas de forma humana: cometem equívocos, sofrem e têm medo. O espetáculo propõe o conservadorismo como uma via de diálogo, algo escasso na sociedade atual:
“O que move essa história é justamente a possibilidade de escuta mútua diante das diferenças”, observa Kanaan.
Enquanto isso, no “Combo Drag Week”, a política se faz no corpo. Extraterrestres, luzes e plumas compõem uma releitura de “Moulin Rouge”, satirizando a dublagem como forma de resistência. A ocupação de um teatro oficial amplia a potência desta arte centenária, historicamente marginalizada em bares noturnos:
“A mudança para o teatro legitima nossa arte neste espaço”, explica Daniel Valenzuela, criador da Juana Profunda e idealizador do festival que movimenta a cena independente de Curitiba desde 2018. Nesta edição a atração especial convidada é Miranda Lebrão. Artistas como Anita Malcher e Samantha Rose contam que adotaram Curitiba para viver de sua arte:
“Há um ano eu me mudei pra cá, aqui eu posso ser quem sou” , nos conta Anita.
O sagrado, o profano e a “Quebra” do Vidro Curitibano
O encontro dessas duas produções sob o mesmo teto, em uma mesma noite, não é apenas uma coincidência de agenda, é um ato político!
Em uma cidade frequentemente rotulada pelo seu tradicionalismo e por uma elite que, por vezes, confunde preservação cultural com exclusão, Curitiba conhecida por suas fachadas impecáveis e pela “distância” social, viu as portas do Teatro Guaíra se abrirem para o diálogo improvável entre o Vaticano e o Burlesco.De um lado, a desconstrução da infalibilidade papal através da humanidade. Do outro, a elevação da arte Drag ao status de alta cultura, de onde nunca deveria ter sido privada. Ambas as peças rompem o vidro do conservadorismo paranaense ao exigir o que há de mais humano: a escuta e a visibilidade.



Quando o sapato vermelho do Papa e o leque vibrante da Drag ocupam o mesmo imaginário geográfico, Curitiba é forçada a se olhar no espelho.
A “quebra” de padrão reside no fato de que o Guaíra, nesta noite, não serviu como reduto de uma elite isolada, mas como um campo de experimentação onde o dogma deu lugar à dúvida e a margem ocupou o centro.
No final das contas, o que o público levou para casa não foi apenas entretenimento, mas a certeza de que, mesmo nas instituições mais rígidas, seja na Igreja ou no Teatro Monumento, há sempre espaço para a transformação quando as cortinas finalmente se abrem para todos.
As Obras em questão foram apresentadas na 34ª edição do Festival de Curitiba www.festivaldecuritiba.com.br @festivaldecuritiba nos dias 31 de Março a 12 de Abril de 2026.
