‘Nua na Rede’ expõe o impacto do vazamento de imagens íntimas no Brasil

Portal Inhaí
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Por Daniele Agapito

A despeito do inconformismo habitual de alguns homens diante do “não”, poucas imaginavam essa pororoca desenfreada de ódio ao feminino em 2026. Um ano que combina os avanços da IA generativa e dos deepfakes com o arcaísmo propagado por grupos “red pill”, “MGTOW” e “incel”, em síntese, bastiões da misoginia organizada nas redes sociais, que remontam à falácia pré-histórica de mulheres arrastadas pelos cabelos: “ou fica comigo, ou acabo com tua vida, uga, uga”, balbuciaria um deles, com o tacape na mão.

O que poderia soar como uma tirinha ultrapassada do Piteco, sobretudo diante das revisões recentes sobre os papéis de gênero nas sociedades de caçadores-coletores nas Américas, cujos registros apontam para grupos em que homens não arrastavam mulheres pelos cabelos, muito menos as impediam de caçar, traduz, na verdade, um padrão cultural-comportamental contemporâneo: a mulher passa a ser vista como propriedade privada do homem.

O caso Rose Leonel

“Foi como se tivessem jogado um travesseiro de plumas do alto de um prédio. As plumas se espalham, e é impossível recolher tudo depois.” É assim que Rose Leonel descreve o crime que a vitimou e que inaugurou, no início dos anos 2000, uma nova categoria de violência contra a mulher: a divulgação de imagens íntimas sem consentimento na internet. Foram mais de 400 fotos, boa parte manipuladas, que se espalharam por e-mail, CD-ROM e mensagens. O caso, assim como as estratégias difamatórias utilizadas por seu ex-namorado em retaliação ao término, está documentado na série “Nua na Rede”, dirigida por Luiza de Andrade e Bia Vilela, que figura entre as mais assistidas da HBO.

A história de Rose é comum a muitas brasileiras. Nascida e criada em Maringá, interior paranaense, onde todo mundo se conhece e onde quase todo mundo cresceu em lares evangélicos, numa “cidade muito voltada para serviços de casamento”, como pontuam as diretoras, Rose sonhava os mesmos sonhos de menina da sua geração. Viu no cinema as princesas da Disney com seus pares encantados, bonitões, obstinados e corajosos, que salvariam suas eleitas da pobreza, da morte e da solidão, enquanto, em contrapartida, bastava que a amada fosse a mais bela do reino, da aldeia ou do fundo do mar, e que tivesse muito colágeno. “O casamento, para ela, era como um conto de fadas”, dizem Bia e Luiza. Mas, além das princesas, Rose também tinha outras referências, ícones da televisão brasileira, e nutria mais um sonho: fazer a própria grana e trabalhar com jornalismo de entretenimento. Foi bem-sucedida, fez seu pé de meia, virou celebridade e também entrou numa espiral de relacionamentos desastrosos. “Percebi como os casamentos são perigosos para mim”, desabafa.

Os próximos capítulos, o depois da lua de mel que a Disney não conta, são de amargar. As fotos espalhadas como plumas são, nas palavras de Rose Leonel, “como uma morte civil”. Para tentar mudar a vergonha de lado, ela decide contar sua versão da história no streaming, mesmo sob risco, já que o criminoso segue foragido. Em conversa com o Cine Ninja, as diretoras Luiza e Bia relatam inquietações que atravessaram todo o processo: as pessoas, depois de assistir à série, foram procurar as fotos? “Cada vez que alguém acessa esse conteúdo, é como se eu estivesse sendo violentada de novo”, confirma Rose. Em Maringá, conhecidos torcem o nariz, “pra que mexer nisso?”, ao que ela responde que se trata de outra coisa: não a exposição criminosa dos anos 2000, mas uma escolha consciente de reposicionar a narrativa. Tendo em conta, pasmem, que parte da população ainda não consegue diferenciar o criminoso da vítima.

As gravações da série foram atravessadas por medo. A equipe recebeu ameaças de pessoas próximas ao agressor. Por proteção, as diretoras evitaram circular e permaneceram recolhidas nos quartos de um hotel em Maringá. Durante a montagem, surgiu um impasse: como reconstituir os fatos sem reiterar a violência? “A gente vai repetir o crime?”, perguntaram-se. Optaram por recriar as imagens viralizadas com uma atriz, decisão que abriu outra frente de preocupação: como protegê-la? A série foi ao ar, entrou no top 10 e acendeu mais uma questão: para quem devem ser direcionadas as campanhas de prevenção a crimes e abusos contra mulheres? Basta construir cercadinhos no metrô? Fazer terapia pré, durante e pós-trauma? Pedir medidas protetivas? Relacionar-se sempre com o pé atrás?

Você faria isso de novo?

Pergunto qual é a maior mentira que se conta sobre esses casos. “Que a vítima contribuiu, que ela se colocou na situação”, avalia Rose, “as pessoas achavam que a culpa era dos dois, dela por ter feito as fotos e dele por divulgar”, complementam Luiza e Bia. Isso é perverso. “Se você tem um relacionamento, de minutos ou de anos, existe um pacto de confiança”, explica a protagonista do documentário, que se graduou em Direito para atuar em causa própria e impedir que criminosos digitais passem impunes. “Cada clique traz julgamento, perda de oportunidades profissionais, culpabilização. Eu nunca vou conseguir recolher esses pedaços. É uma luta diária administrar essa dor”, finaliza. Mas a sociedade insiste em fazer a pergunta errada: “você posaria nua para um namorado de novo?”. A pergunta que deveria estar no centro é outra: “o agressor tem caráter para respeitar a intimidade de alguém?”.

São perguntas travestidas de conselho: o que meninas devem ou não fazer, como se proteger, até onde ir. A resposta, muitas vezes implícita, desloca novamente a responsabilidade: cobrir o rosto, desconfiar, procurar câmeras escondidas ou restringir a experiência sexual com os parceiros, sempre prevendo o pior. Cria-se, assim, uma geração de mulheres ansiosas, que recebem a batata quente sem poder passá-la adiante, queimando as próprias mãos. É nesse desvio que a história de Rose Leonel se inscreve com força. Não se trata de educar mulheres para que sobrevivam melhor à violência, como quem distribui manuais de contenção de danos, mas de voltar os olhos para as bases que produzem e legitimam essa violência. Projetos de educação e ética voltados a homens, desde cedo, deixam de ser um apêndice progressista e passam a ser uma urgência pública. Porque, enquanto a pergunta continuar sendo o que uma mulher poderia ter feito diferente, a resposta seguirá autorizando, ainda que indiretamente, o homem que decide violar.

A ONG

Rose Leonel criou uma ONG e lutou pela aprovação de uma legislação específica, a Lei nº 13.772/2018, conhecida como Lei Rose Leonel, que alterou a Lei Maria da Penha para incluir a violação de intimidade como forma de violência. Hoje, a instituição “Marias da Internet” oferece apoio gratuito às vítimas por meio de um tripé formado por assistência psicológica, jurídica e perícia digital, reforçando a importância de um acolhimento qualificado, com profissionais preparados e livres de julgamento.

Para acesso aos serviços e orientações, a ONG disponibiliza os seguintes canais:
mariasdainternet.com.br
mariasdainternet.org
Instagram: @mariasdainternet





Por Midia Ninja

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