A escritora Penélope Jolie Silva de Oliveira, conhecida artisticamente como Penélope Jolie, prepara-se para um momento histórico em sua trajetória: a posse na Academia de Letras de Itaquaquecetuba, onde ocupará a Cadeira 29. A conquista representa não apenas um reconhecimento literário, mas também um marco de representatividade para a população LGBTQIA+, especialmente para travestis e mulheres trans no campo da cultura e da literatura.
Penélope nasceu na Maternidade São Paulo, às 11h10 da manhã, e atualmente vive na cidade de Itaquaquecetuba, onde reside há cerca de 16 anos. Aos 48 anos — idade que completa em 24 de junho — ela construiu uma trajetória marcada pela diversidade de experiências profissionais e pela busca constante por conhecimento.
Além da literatura, Penélope atua em diferentes áreas: é bombeira civil, cuidadora de idosos, designer de sobrancelhas, costureira, auxiliar de cozinha, auxiliar de limpeza e também se define como “mestre das próprias obras”, expressão que utiliza para representar sua autonomia e capacidade de construir o próprio caminho. Atualmente, também cursa o técnico em segurança do trabalho na ETEC de Itaquaquecetuba.
O CAMINHO ATÉ A LITERATURA
A relação de Penélope com a literatura começou através da leitura. Apaixonada por poesia, contos, autobiografias e best-sellers, ela desenvolveu ao longo do tempo um olhar sensível para as palavras e para as histórias humanas.
O contato direto com a escrita ganhou força durante a pandemia, quando participou de um projeto do Ministério Público do Trabalho voltado para pessoas trans e em situação de vulnerabilidade social. O projeto, chamado “Cozinha e Voz”, unia formação profissional em culinária com oficinas de expressão artística e poesia.
A iniciativa contou com nomes importantes da cultura brasileira, como a chef Paola Carosella, madrinha do projeto, e a atriz e escritora Elisa Lucinda, que conduziu oficinas de poesia. Segundo Penélope, foi nesse ambiente que muitas participantes aprenderam a utilizar a poesia como forma de expressão e de fortalecimento da própria voz.
“Era uma forma de ensinar as mulheres trans a se expressarem através da poesia, a soltar a voz e contar suas histórias”, relembra.

PUBLICAÇÕES E PRODUÇÃO POÉTICA
A escritora já possui poemas publicados em duas coletâneas literárias lançadas em Itaquaquecetuba. Uma delas é o livro Canteiros, enquanto a outra é uma obra em homenagem ao cartunista Ziraldo, organizada pelo escritor Luka Magalhães, da Editora Arcangelos.
Para Penélope, sua identidade como mulher trans influencia diretamente sua maneira de escrever e interpretar o mundo. Segundo ela, a experiência de vida contribui para ampliar o olhar poético e oferecer novas formas de interpretação para quem lê.
“A vivência de uma escritora trans traz uma nova ressignificação para a linguagem poética e para a forma de olhar o mundo”, afirma.
A POSSE NA ACADEMIA DE LETRAS
A entrada na Academia de Letras de Itaquaquecetuba representa um dos momentos mais importantes de sua trajetória. Ao assumir a Cadeira 29, Penélope passa a integrar um espaço tradicional da literatura local, marcado por nomes relevantes da produção cultural.
A cadeira tem como patrono o dramaturgo Martins Pena, considerado um dos fundadores da comédia de costumes no Brasil e frequentemente chamado de “Molière brasileiro”. Para Penélope, ocupar um espaço ligado a esse legado literário é motivo de orgulho e responsabilidade.
Antes dela, a cadeira também foi ocupada por Luka Magalhães, escritor, dramaturgo e fundador da Editora Arcangelos. Para a nova acadêmica, assumir essa posição significa dar continuidade a uma história literária importante dentro da cidade.
“Tomarei posse de uma cadeira tão importante quanto aqueles que a representaram antes. Para mim, isso vale mais que um troféu, porque é uma grande conquista”, destaca.

REPRESENTATIVIDADE E INSPIRAÇÃO
A posse de Penélope Jolie também possui um forte significado simbólico. Em instituições tradicionalmente marcadas por estruturas conservadoras, a presença de uma travesti e mulher trans representa um avanço na inclusão e na diversidade dentro da literatura.
Para ela, a conquista mostra que sonhos podem ser alcançados, independentemente das dificuldades.
“Quero mostrar para o público LGBT que somos capazes de realizar tudo aquilo que sonhamos. Se existe sonho, persistência e luta, mais cedo ou mais tarde a conquista chega”, afirma.
UMA MENSAGEM PARA A JUVENTUDE LGBTQIA+
Ao refletir sobre sua trajetória, Penélope deixa uma mensagem direta para jovens LGBTQIA+, especialmente pessoas trans e travestis que desejam ocupar espaços na cultura, na literatura ou na academia.
Segundo ela, o caminho pode ser desafiador, mas é possível construir novas oportunidades com perseverança.
“Não desistam dos seus sonhos. Lutem, realizem pouco a pouco — dos pequenos passos até os maiores. E se algo não acontecer como esperado, ressignifiquem, reprojetem e recomeçem.”
A história de Penélope Jolie demonstra que a literatura também pode ser um instrumento de transformação social, capaz de ampliar vozes, construir pontes e abrir caminhos para novas gerações de escritores e escritoras.

Parabéns minha amiga!! Muito orgulho de sua trajetória e conquistas!!