Neste 1º de dezembro, Dia Mundial de Luta contra a Aids, o Brasil chega ao final de 2025 vivendo um momento de reconstrução — ainda frágil — das políticas públicas de HIV e Aids. Entre o desmonte e os cortes orçamentários da gestão Jair Bolsonaro (2019–2022), a retomada parcial da resposta nacional sob o governo Lula (2023–2025), e experiências próprias no Estado de São Paulo e na capital, o cenário é de contrastes: avanços tecnológicos convivem com desigualdades históricas, e conquistas biomédicas seguem ameaçadas por baixo financiamento de governos e pelos autos índices de estigma, discriminação e falta de continuidade política.
- O QUE O GOVERNO FEDERAL FEZ — E DEIXOU DE FAZER
- O ESTADO DE SÃO PAULO: TRADIÇÃO, DISPUTA E COBRANÇA POR INVESTIMENTOS
- A CIDADE DE SÃO PAULO E SUAS INOVAÇÕES PRESSIONADAS PELA SOCIEDADE CIVIL
- O PAPEL DECISIVO DO MOVIMENTO SOCIAL ORGANIZADO
- O DESAFIO DE 2025: COMBATER O ESTIGMA PARA SALVAR POLÍTICAS PÚBLICAS
O QUE O GOVERNO FEDERAL FEZ — E DEIXOU DE FAZER
Durante o governo Bolsonaro, o Brasil viveu seu maior período de retrocessos desde a criação do Programa Nacional de DST/Aids nos anos 1980. Houve descontinuidade de campanhas, interrupção de políticas e, em 2022, um corte previsto de R$ 407 milhões destinados à prevenção, testagem e tratamento.

O impacto foi imediato: médicos, pesquisadores, profissionais da saúde e movimentos sociais denunciaram risco de desabastecimento, paralisação de ações e apagamento institucional do tema.
protesto de 2022 — representa o momento de corte de verbas e mobilização social exigindo garantia de tratamento.

A partir de 2023, com o retorno de Lula, houve recomposição administrativa, retomada de campanhas e programas. Entre os pontos positivos estão a retomada dos comitês e comissões, estabilização de compra de insumos de prevenção e ampliação gradual da PREP, atualização de diretrizes de prevenção combinada e a volta da comunicação pública sobre HIV/Aids, silenciada nos quatro anos anteriores.
Mesmo assim, movimentos sociais cobram mais: orçamento ainda insuficiente, pouca integração entre saúde e assistência social e a ausência de políticas robustas contra o estigma — considerado hoje o principal entrave para eliminação da Aids como problema de saúde pública.
Eduardo Barbosa, do MOPAIDS, discursa ao lado da Monja Coen durante a 2ª Caminhada Meditativa no Dia Mundial de Luta Contra a Aids, em frente ao MASP | Foto: Mopaids

O ESTADO DE SÃO PAULO: TRADIÇÃO, DISPUTA E COBRANÇA POR INVESTIMENTOS

São Paulo historicamente teve protagonismo no enfrentamento ao HIV/Aids, com o Centro de Referência e Treinamento (CRT), serviços especializados e políticas pioneiras. Porém, entre 2020 e 2024, também sofreu com falta de investimentos, risco de sucateamento de unidades e baixa expansão da prevenção combinada para regiões periféricas.
O Fórum de ONGs/Aids de São Paulo (FOAESP), junto com o Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (MOPAIDS), passou anos cobrando atenção à rede estadual. Em 2023 e 2024 publicou cartas denunciando a precarização do CRT e exigindo mais recursos. Mesmo com avanços pontuais — como ampliação da PrEP para alguns serviços —, o movimento social afirma que o estado precisa tratar o tema como prioridade estratégica, e não apenas como política técnica.


A CIDADE DE SÃO PAULO E SUAS INOVAÇÕES PRESSIONADAS PELA SOCIEDADE CIVIL
Se por um lado o município também enfrentou desafios, por outro tem sido palco de boas práticas — quase sempre impulsionadas pela mobilização de ONGs, coletivos e pessoas vivendo com HIV.

Entre 2024 e 2025, São Paulo inaugurou algo inédito no Brasil: a primeira máquina automática de distribuição de PrEP e PEP, facilitando o acesso à prevenção em áreas de grande circulação. A iniciativa, celebrada pelo MOPAIDS, só saiu do papel após anos de articulação e pressão pública.
A capital também tem avançado em campanhas de testagem, ampliação de insumos e ações voltadas à população em situação de rua — uma das mais vulneráveis à epidemia. Ainda assim, ativistas cobram políticas permanentes de moradia, assistência social e combate à violência institucional.

Outro avanço simbólico foi a criação do Memorial da Resistência da Luta contra a Aids, reforçando a memória daqueles que construíram a resposta brasileira.
O PAPEL DECISIVO DO MOVIMENTO SOCIAL ORGANIZADO

Enquanto os governos mudam, quem mantém a luta viva é o movimento social. Em 2022, quando o Brasil correu risco real de desabastecimento de insumos e medicamentos, foram às redes de pessoas vivendo com HIV — como o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP), a RNP+ e o próprio MOPAIDS — que ocuparam as ruas contra o corte de R$ 407 milhões.
Nos anos seguintes, essas organizações continuaram atuando para:
- Cobrar recomposição de orçamento;
- Denunciar estigma, discriminação e violência institucional;
- Defender abordagem interseccional: gênero, raça, sexualidade, classe;
- Garantir acesso à prevenção combinada para mulheres, jovens, população trans e moradores da periferia;
- Ampliar participação social em conselhos e conferências;
- Exigir políticas para pessoas vivendo com HIV em situação de rua.

Em 2025, um novo dado acendeu alerta: 50% das pessoas vivendo com HIV no Brasil já sofreram discriminação, segundo o Índice Nacional de Estigma. Este dado, amplamente repercutido por ONGs e lideranças, evidencia que o estigma é hoje o maior inimigo — mais forte que o vírus, mais resistente que a burocracia.
O DESAFIO DE 2025: COMBATER O ESTIGMA PARA SALVAR POLÍTICAS PÚBLICAS
Quase quatro décadas depois da criação do SUS e do primeiro serviço de Aids no país, o Brasil segue líder em políticas avançadas — mas ainda tropeça naquilo que a ciência não resolve: preconceito, desinformação e desigualdade.
Lutar contra a Aids em 2025 significa lutar por acesso, informação, prevenção, cuidado, dignidade e inclusão. Significa garantir que a resposta não dependa da vontade individual de governos, mas da força da sociedade, que desde os anos 1980 é protagonista na defesa da vida.
Neste 1º de dezembro, a mensagem é clara:
não basta medicamento no posto se faltar respeito na sociedade.
A eliminação da Aids passa pela ciência — mas só se completa com a humanidade.
“Este conteúdo e pesquisa reflete exclusivamente a opinião do colunista, não representando necessariamente o posicionamento do Portal Inhaí.
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