Por Clayton Nobre
É de um encontro entre passado e presente que nasce Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky, exibido na quarta edição do Bonito CineSur. Dirigido por Liliane Maia e pelo próprio Bodanzky, o filme parte da trajetória de um dos mais importantes documentaristas brasileiros para investigar o que o tempo faz com as imagens e com os territórios que elas registraram, algo que atravessa toda a sua obra.
Antes de começar a sessão, Bodanzky conversou com o público sobre o processo de realização do documentário. O cineasta contou que o projeto surgiu do encontro entre dois desejos. Liliane Maia, pesquisadora e realizadora amazonense, desenvolvia uma investigação sobre sua filmografia, aproximando-se dela por um caminho etnográfico. Bodanzky, por sua vez, queria revisitar os registros pessoais feitos em Super-8 décadas atrás, voltando aos lugares que havia filmado para descobrir o que permanecia vivo naquelas imagens. Dessa aproximação nasce uma estrutura curiosa. Acompanhamos o documentário conduzido por Liliane à medida em que também seguimos Bodanzky realizando um novo filme a partir do reencontro com seu próprio arquivo. Há ocasiões em que um filme parece existir dentro do outro, e o de Bodanzky sobre ele mesmo, um filme dentro do filme dentro do filme, criando um diálogo constante entre memória, registro, criação.
Essa construção chama atenção por outro motivo. O documentário faz questão de colocar lado a lado dois Bodanzkys separados por meio século. Um deles percorre a Amazônia, algumas vezes com a câmera Super-8 nas mãos. O outro retorna aos mesmos caminhos registrando tudo com um telefone celular. A troca do equipamento também nos situa no espaço-tempo do “fazer documentário” da atualidade, sobretudo vindo de alguém que também bebeu da experiência dos novos cineastas midiativistas da floresta. O filme sugere que as tecnologias mudam, mas a curiosidade permanece exatamente a mesma. Com a plateia Bodanzky brinca, na essência é tudo a mesma coisa.
O título também ganha novos sentidos ao longo da projeção. O olhar inquieto não pertence apenas ao cineasta. Está no próprio filme, que se recusa a tratar aquelas imagens como documentos encerrados em seu tempo. Cada retorno aos registros antigos faz uma pergunta ao presente. O que desapareceu? O que resistiu? O que aquelas imagens ainda são capazes de revelar cinquenta anos depois?

À primeira vista, Um Olhar Inquieto pode ser compreendido como um documentário autobiográfico. A trajetória de Jorge Bodanzky é reconstruída por meio de sua própria filmografia, oferecendo um importante registro sobre uma das obras mais relevantes do cinema documental brasileiro. Mas a impressão que permanece ao final da sessão aponta para outro caminho. As sequências mais marcantes acontecem quando o filme coloca o passado diante do presente e por vezes sentimos que este é um aspecto que poderia ser mais explorado.
O sobrevoo da terra Cinta-Larga, realizado nos anos 1970, deixa de ser apenas um documento histórico quando Bodanzky retorna à região. Ao longo da viagem, percebe-se que muitos dos processos iniciados naquele período seguiram avançando. A colonização continua. Territórios foram transformados, modos de vida desapareceram, povos sofreram novas violências. Nem sempre essas mudanças aparecem diretamente nas imagens. Muitas delas surgem nos relatos, nas conversas e nos reencontros.
Vemos aqui um filme interessado em colocar frente a frente os registros feitos há cinquenta anos e as marcas deixadas pela colonização, pelo avanço da fronteira econômica e pelas sucessivas transformações da Amazônia. Essa comparação atravessa Um Olhar Inquieto, mas permanece em segundo plano. Caso ocupasse o centro da narrativa, poderia revelar com ainda mais intensidade o caráter histórico da obra de Bodanzky.
Mesmo assim, o documentário alcança um resultado raro. Faz perceber que um filme nunca termina quando sua montagem é concluída. As imagens continuam trabalhando silenciosamente enquanto o tempo passa. Quando revisitadas, dizem coisas que seus autores talvez nem imaginassem no momento em que apertaram o botão da câmera.
É por isso que a presença de Liliane Maia se torna tão importante. Seu filme não procura explicar a obra de Bodanzky nem construir um retrato definitivo do cineasta. Seu interesse está em observar alguém olhando para as próprias imagens. Existe uma delicadeza nessa escolha. Liliane filma um documentarista que, em vez de oferecer respostas sobre sua trajetória, continua fazendo perguntas ao mundo. Seu olhar se volta tanto para os filmes quanto para o homem que ainda se deixa surpreender por eles.

Essa postura talvez explique a permanência da filmografia de Bodanzky. O documentário não o transforma em um mestre inalcançável nem em um personagem monumental. Pelo contrário. O cineasta aparece curioso, disponível e atento. Escuta mais do que fala, caminha mais do que conduz. Parece compreender que filmar exige, antes de tudo, disposição para observar.
Ao final, percebe-se que Um Olhar Inquieto não pretende apenas preservar a memória de uma obra fundamental do cinema brasileiro. Seu gesto é outro. O filme demonstra que o cinema pode funcionar como um arquivo vivo, capaz de revelar sentidos que só aparecem décadas depois. As imagens registram um instante, mas o tempo continua escrevendo sobre elas.
Talvez o olhar inquieto de Jorge Bodanzky nunca tenha sido aquele que procura imagens inéditas. É o olhar que retorna às mesmas imagens porque sabe que elas jamais terminam de dizer o que têm a dizer.
