5 de setembro de 2026
“Tanta gente de bem que só tem mal pra dar”: o moralismo brasileiro enquanto projeto político
De “Oyá” à elite do atraso, a história brasileira mostra como a bondade privada pode conviver com projetos públicos cruéis.
Há um verso no samba “Oyá (Canto de Oração)” que volta sempre que penso no Brasil: “tanta gente de bem que só tem mal pra dar”. A canção, composta por Carica e Wilson Prateado e gravada pelo Grupo Sensação em 1992, nasceu em meio à crise do governo Collor. Segundo relato dos músicos, uma versão inicial citava a Casa da Dinda; depois, a crítica foi ampliada para Brasília. A música acabou apontando para algo maior: uma estrutura política que atravessa épocas.
O verso não fala só de hipocrisia, ele aponta uma contradição gritante: pessoas podem cultivar virtudes privadas e apoiar projetos públicos que produzem sofrimento. Podem ser religiosas, defensoras da família, generosas com os seus e ainda considerar aceitável que direitos de outros sejam reduzidos. A política brasileira conhece e constrói historicamente essa distância entre reputação moral e consciência social.
No período colonial, os “homens bons” eram proprietários reconhecidos como aptos a governar as câmaras locais. A expressão não descrevia uma superioridade ética e sim marcava posição social e patrimônio. Numa ordem escravista, homens tidos como cristãos e respeitáveis podiam possuir, vender e punir seres humanos sem deixar de ser considerados “bons”. A moral dominante distribuía humanidade de forma desigual.
É nesse ponto que “A elite do atraso”, de Jessé Souza, ajuda a complexificar esse debate. Ao recolocar a escravidão no centro da formação brasileira, Souza mostra como ela organizou relações de classe, trabalho, família e poder. A Abolição não veio acompanhada de distribuição de terras, reparação ou inclusão econômica suficientes; o pós-abolição redistribuiu a desigualdade e responsabilizou a população negra pela pobreza politica e racialmente produzida.
A elite não é um bloco homogêneo, mas há dentro dela, mecanismos recorrentes de reprodução de poder. Um deles é transformar interesses particulares em valores universais: os privilégios viram mérito; o que é exploração vira eficiência; proteção social é lida como gasto; demandas por reparação racial viram “divisão”… Jessé chama de “corrupção dos tolos” a indignação que enxerga a propina do agente público, mas naturaliza as formas estruturais de apropriação da riqueza.
O moralismo seleciona quem será apresentado como ameaça à ordem e preserva quem continua protegido pela reputação de “gente de bem”. Em 1964, as Marchas da Família com Deus pela Liberdade ajudaram a construir apoio civil ao golpe em nome da família, da fé e da ordem. Hoje, a figura do “cidadão de bem” produz fronteiras entre vidas dignas de proteção e vidas cuja cidadania é condicionada: o jovem negro é tratado como suspeito, o morador de favela é submetido à um regime de exceção, a mulher que reivindica autonomia, a pessoa LGBTQIAPN+ ou a liderança de matriz africana são convertidas em ameaça.
O “mal político”, portanto, nem sempre se apresenta como maldade declarada. Pode vir numa planilha, numa decisão judicial, numa regra de acesso, numa política policial, numa escolha tributária ou numa omissão administrativa. Cabe ressaltar que não estamos aqui discutindo a partir de uma perspectiva moralista de maldade x bondade. O que está sendo apontado é a reprodução histórica de políticas de desumanização. Cida Bento chama atenção para o pacto da branquitude: mecanismos silenciosos, de autopreservação e manutenção das hierarquias raciais. Esse pacto se perpetua dentro dessa estrutura, ao mesmo tempo em que a fortalece.
Por isso, é preciso distinguir caridade de justiça. A caridade pode responder à urgência – e ter vieses moralistas ou religiosos por trás de ações, já os direitos existem para que a vida de alguém não dependa da bondade de outra pessoa. Incidência política é a passagem da compaixão para a obrigação pública: transformar sofrimento em diagnóstico, programa, fiscalização e projeto político Foi assim que o Movimento Negro pressionou o Estado a reconhecer o racismo e construir políticas de igualdade.
A “gente de bem” não precisa mentir sobre sua própria bondade. Muitas vezes acredita nela. Mas, quem paga o preço das escolhas que essa bondade legitima? A história brasileira foi feita também por grupos que defenderam a civilização enquanto escravizavam. Que prezavam pela ordem enquanto excluíam e que pregavam ideais de família enquanto apoiavam autoritarismos. O que ameaça uma elite formada na desigualdade não é a desordem, é a democratização. A democracia começa quando a dignidade do outro deixa de ser percebida como perda pessoal. E o vento que transforma a história é produzido por quem se organiza para impedir que a bondade continue servindo como máscara para a administração da crueldade enquanto projeto de poder.
REFERÊNCIAS
BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
COSTA, José Fernando Andrade. Quem é o “cidadão de bem”? Psicologia USP, v. 32, e190106, 2021.
DOMINGUES, Petrônio. Negros de almas brancas? A ideologia do branqueamento no interior da comunidade negra em São Paulo, 1915-1930. Estudos Afro-Asiáticos, 2002.
GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. O caso dos homens bons do Rio de Janeiro, c. 1790-1822. Revista Brasileira de História, 1998.
GRUPO SENSAÇÃO. Mais Uma Paixão. São Paulo: Five Star/Chic Show, 1992. Faixa: Oya (Canto de Oração). Composição de Carica e Wilson Prateado.
RIZEK, Cibele Saliba. Jessé de Souza: A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. À guisa de um debate. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 20, n. 3, 2018.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.
THEODORO, Mário (org.); JACCOUD, Luciana; OSÓRIO, Rafael Guerreiro; SOARES, Sergei. As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil: 120 anos após a abolição. Brasília: Ipea, 2008.
BILLBOARD BRASIL. Clássico do samba “Oyá” trocou crítica ao governo Collor na versão final. Disponível em: https://billboard.com.br/classico-do-samba-oya-trocou-critica-ao-governo-collor-na-versao-final/. Acesso em: 30 jul. 2026.
BRASIL. Senado Federal. Processo de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello: Resolução nº 101, de 30 de dezembro de 1992. Brasília, DF, 1992.
INSTITUTO MEMÓRIA MUSICAL BRASILEIRA. Mais Uma Paixão: Grupo Sensação. Disponível em: https://immub.org/album/mais-uma-paixao. Acesso em: 30 jul. 2026.
MEMÓRIAS DA DITADURA. Homens de negócios, imprensa e mulheres. Disponível em: https://memoriasdaditadura.org.br/homens-de-negocios-imprensa-e-mulheres/. Acesso em: 30 jul. 2026.
