Silicone industrial e HIV: Mafê Medeiros e Dyemison Pinheiro levam à AIDS 2026 um alerta sobre abandono do tratamento

Portal Inhaí
16 Min Read


Por Vinicius Francisco

Durante minha cobertura da AIDS 2026, a 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada pela International AIDS Society (IAS) no Rio de Janeiro, parei diante de um pôster brasileiro que aproximava três temas raramente tratados juntos no debate público: silicone industrial, HIV e permanência nos serviços de saúde.

Conferi os números apresentados e entrevistei os dois pesquisadores responsáveis pelo recorte. O resultado central chamava atenção: entre 300 mulheres trans e travestis vivendo com HIV, 144 tinham registro de uso de silicone industrial no prontuário. Nesse grupo, a análise encontrou uma chance estatística maior de abandono do tratamento antirretroviral.

O dado, porém, não demonstra que o silicone tenha causado o abandono. O alerta levantado pelo trabalho é outro: o registro do produto pode ajudar a identificar mulheres expostas a barreiras sociais e dificuldades de acesso que também comprometem sua permanência no cuidado do HIV.

Dra. Mafê Medeiros, médica infectologista, pesquisadora e mulher trans não binárie, idealizou a coorte TRANSbordar e integra a Casa da Pesquisa do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids do Estado de São Paulo, o CRT-SP. Dr. Dyemison Pinheiro, médico infectologista acreano e pesquisador da mesma instituição, coordenou a análise sobre silicone industrial e apresentou os resultados na AIDS 2026.

Uma pesquisa que nasceu da falta de dados

O trabalho integra a TRANSbordar, uma coorte retrospectiva criada para traçar um perfil das mulheres trans e travestis atendidas no CRT-SP. Em uma pesquisa retrospectiva, os pesquisadores analisam informações que já haviam sido registradas nos prontuários.

“A ideia nasceu da falta de dados sobre a minha população. A gente tem dados escassos que mostram que a comunidade trans acaba tendo maiores dificuldades na cascata de cuidado do HIV e que acabam tendo mais perda de seguimento e carga viral não controlada (falha virológica) quando comparado com a população geral.”

A cascata de cuidado descreve o percurso que começa no diagnóstico, passa pela vinculação ao serviço e pelo acesso regular aos medicamentos e chega ao controle do vírus. Quando há perda de seguimento, esse caminho é interrompido.

Para a Dra. Mafê, a motivação da pesquisa também passa por sua própria experiência:

“Realmente é impossível presumir que as vivências sejam iguais. Acredito que a transfobia que nos atravessa todos os dias, em graus diferentes, acaba sendo a grande força motriz para que eu tivesse a ideia deste trabalho. Alguém precisava tentar mudar essa realidade, e, para isso, a gente precisa primeiro saber onde está, para aí saber para onde ir.”

Mafê Medeiros / Crédito: Vinicius Francisco

Mafê ressalta que a coleta dos dados foi coletiva e contou igualmente com todas as pessoas que assinam o trabalho. Depois da análise estatística, foram propostos diferentes recortes. Dyemison coordenou o grupo que investigou a relação entre o registro de silicone industrial, o abandono do tratamento e as falhas virológicas documentadas nos cinco anos avaliados.

O que os 300 prontuários mostraram

Dos 300 prontuários analisados, 144, ou 48%, continham relato de uso de silicone industrial. Nos outros 156, essa informação não estava registrada. Na comparação entre os dois grupos, a chance estatística de haver um episódio de abandono documentado foi 2,21 vezes maior entre as participantes com registro de silicone industrial.

O indicador utilizado é chamado de razão de chances, ou odds ratio. O número 2,21 não significa que 2,21 vezes mais mulheres abandonaram o tratamento e também não representa um percentual. Ele mede a força da associação entre duas informações encontradas nos prontuários.

Os pesquisadores verificaram ainda se diferenças de raça, cor ou escolaridade poderiam explicar o resultado. Mesmo depois de considerar esses fatores no cálculo, a associação permaneceu estatisticamente significativa, isto é, com baixa probabilidade de ter aparecido apenas por acaso naquela análise.

A comparação exige uma ressalva: a ausência de informação nos outros 156 prontuários não comprova que todas essas participantes nunca tenham utilizado silicone industrial. O uso pode não ter sido informado, perguntado ou anotado. Esse possível sub-registro é uma das principais limitações do trabalho.

Há outro limite: todos os prontuários vieram de um único serviço. Por isso, o resultado não pode ser automaticamente generalizado para todas as mulheres trans e travestis do Brasil, da América Latina ou do Sul Global. “Um estudo realizado em apenas um local reflete a realidade do serviço muito mais que da população estudada”, pondera a Dra. Mafê. Ela defende que a metodologia seja repetida em outros locais para avaliar se o cenário também aparece em diferentes serviços de saúde.

O silicone industrial não foi apontado como causa

A pesquisa identificou uma associação, mas não uma relação de causa e efeito. Como utilizou dados registrados anteriormente, não entrevistou cada participante sobre os motivos que levaram ao abandono. Portanto, não é possível concluir que o silicone industrial tenha provocado o afastamento do serviço.

Na interpretação do Dr. Dyemison, o uso do produto pode funcionar como um marcador social:

“A questão do silicone industrial é uma realidade cada vez mais comum e vista por profissionais da saúde que atendem pessoas trans femininas, e observamos que muitas vezes o uso está relacionado a uma espécie de marcador social, tendo em vista que esses procedimentos são mais acessíveis que procedimentos de modificação corporal regulares e são majoritariamente feitos por pessoas mais vulnerabilizadas.”

Dyemison Pinheiro / Crédito: Acervo Pessoal

Chamá-lo de marcador social significa que o silicone não aparece como a causa comprovada do abandono, mas como uma informação que pode sinalizar maior exposição a desigualdades. A hipótese dos pesquisadores é que as mesmas condições que restringem o acesso a procedimentos seguros de afirmação de gênero também podem dificultar a chegada aos serviços de saúde e a continuidade do tratamento. Essa explicação ainda precisa ser testada por novas pesquisas.

“A correlação direta não pode ser feita, mas serve para a gente entender que talvez nosso foco seja conversar mais com as que têm silicone industrial, acolher mais, trazer elas pra mais perto do serviço de saúde. Ou seja, ter um olhar diferenciado”, afirma a Dra. Mafê.

Nas entrevistas, os pesquisadores apontaram como hipóteses as dificuldades de deslocamento, os horários rígidos, a transfobia, o desrespeito ao nome social e o despreparo das equipes. Esses fatores não foram comprovados pela análise dos prontuários. Eles ajudam a formular perguntas para novos estudos e a indicar mudanças possíveis no atendimento.

Abandono e falha virológica não são a mesma coisa

O estudo também avaliou a falha virológica. O termo é usado quando o tratamento não consegue reduzir ou manter controlada a quantidade de HIV no sangue. O exame de carga viral mede essa quantidade e permite acompanhar a resposta aos medicamentos.

No trabalho, o abandono corresponde ao episódio de interrupção do tratamento registrado no prontuário; a falha virológica é identificada pelos resultados dos exames. A pesquisa encontrou associação entre o registro de silicone industrial e o abandono, mas não identificou associação com falha virológica atual ou anterior.

“O estudo encontrou associação com abandono de tratamento, mas não com falha virológica. Isso significa que fazer a retenção de pessoas trans femininas mais vulneráveis em serviços de saúde pode ser complexo, mas, uma vez que essas pessoas são retidas nos serviços de tratamento de HIV, o tratamento pode ser tão efetivo quanto é para outras pessoas”, afirma o Dr. Dyemison.

Nesse contexto, retenção significa conseguir manter a pessoa vinculada ao serviço, com consultas, exames e acesso regular aos medicamentos. O resultado sugere que o maior desafio observado não estava na eficácia dos antirretrovirais, mas na continuidade do cuidado.

Isso não reduz a gravidade do abandono. Quando a perda de seguimento também envolve a interrupção dos medicamentos, o HIV pode voltar a se multiplicar e comprometer progressivamente as defesas do organismo.

“O abandono de tratamento é o início de toda uma cascata de eventos que pode levar à morte por AIDS. O abandono de tratamento leva a uma replicação do HIV sem controle, o que impacta diretamente a imunidade da pessoa que não o realiza”, explica o Dr. Dyemison.

Com o aumento da carga viral, pode ocorrer a redução dos linfócitos T CD4, células que ajudam a coordenar o sistema imunológico. Quando sua quantidade fica muito baixa, aumenta o risco de infecções oportunistas, que se aproveitam da fragilidade das defesas do organismo.

Medicamento é essencial, mas não basta

Transformar o achado em cuidado exige que os serviços consigam receber e manter essas mulheres em acompanhamento. Para o Dr. Dyemison, a mudança começa na formação das equipes e na organização do atendimento.

“Serviços com profissionais capacitados e interessados nas diferentes realidades possíveis, com menos julgamento, agendas mais flexíveis e equipes multiprofissionais que deem conta desde a hormonização até o cuidado de possíveis complicações de modificações corporais, como o uso de silicone industrial. Oferecer serviços que entreguem mais do que a medicação — que é essencial, mas não é suficiente —, ao meu ver, seria a base dessa mudança.”

Esse acolhimento começa antes da consulta, com o respeito ao nome social e aos pronomes e com a capacitação de quem atua na recepção. A Dra. Mafê também propõe que sejam avaliadas alternativas como teleconsultas e a dispensação de medicamentos em outros locais, reduzindo a dependência de horários e da farmácia do serviço onde a pessoa realiza o acompanhamento.

Silicone industrial: onde procurar cuidado

O alerta sobre a permanência no tratamento do HIV não elimina outra dimensão de saúde pública. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o silicone industrial não é autorizado para procedimentos estéticos e pode provocar complicações graves. Entre elas estão inflamações, infecções, necrose, trombose e migração do produto para outras regiões do corpo. Algumas manifestações podem aparecer anos depois da aplicação.

Quem já recebeu aplicações deve procurar acompanhamento mesmo sem apresentar sintomas. A linha de cuidado da Prefeitura de São Paulo recomenda registrar no prontuário as regiões onde o produto foi injetado e avaliá-las a cada seis meses, observando sinais de migração, inchaço ou lesões. As áreas com silicone industrial não devem ser perfuradas; por isso, é importante informar sua localização à equipe antes de receber uma injeção ou realizar outro procedimento.

Calor, vermelhidão, inchaço, saída de secreção pela pele, febre ou calafrios exigem avaliação médica. Quadros agudos devem ser encaminhados a um pronto atendimento ou pronto-socorro.

Na capital paulista, o Centro de Referência de Saúde Integral para a População de Travestis e Transexuais Janaína Lima fica na Rua Jaraguá, 866, no Bom Retiro, e funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, exceto feriados. O serviço acompanha possíveis complicações relacionadas ao silicone industrial. Em outros municípios, a orientação é procurar uma unidade de saúde ou o serviço responsável pelo acompanhamento do HIV. Diante de sinais agudos, deve-se buscar atendimento de urgência.

Um dado que precisa virar política pública

Para a Dra. Mafê, o registro de silicone industrial em quase metade dos prontuários também expõe a dificuldade de acesso a procedimentos seguros de afirmação de gênero.

“Com certeza! Esse dado não difere muito dos poucos estudos que trazem informações sobre o tema, mas acredito que escancara a deficiência do SUS em auxiliar mulheres trans e travestis na busca por procedimentos de afirmação de gênero que possam, de alguma forma, influenciar numa diminuição das transfobias vividas.”

A resposta, portanto, não pode ficar restrita ao consultório ou à entrega do antirretroviral. A própria pesquisa considerou raça, cor e escolaridade no modelo estatístico. Nas entrevistas, os pesquisadores defendem que políticas de permanência também precisam enfrentar condições sociais que a saúde, sozinha, não resolve.

“Trabalhar que o nível educacional influencia nestes desfechos, a raça, a idade, é entender que não basta a saúde agir sozinha. A gente precisa de políticas públicas que aumentem a presença de mulheres trans e travestis nas escolas e faculdades, políticas que combatam o racismo, trabalhos específicos para populações jovens, com linguagem específica, para ser efetiva”, afirma a Dra. Mafê.

Os dois pesquisadores também defendem a participação direta de pessoas trans na elaboração dos serviços e das políticas. “Ouvir suas demandas, entender seus recortes e adequar os espaços para essas vivências e corporeidades são basais nesse processo”, afirma o Dr. Dyemison.

A contribuição pública do estudo não é criar um novo rótulo para mulheres trans e travestis que usaram silicone industrial. É transformar uma informação do prontuário em sinal para oferecer mais cuidado, não mais julgamento.

Quando o silicone industrial aparece, a resposta do Estado não pode terminar em uma advertência sobre os riscos do produto. Precisa começar com acesso a procedimentos seguros de afirmação de gênero, acompanhamento das possíveis complicações e condições reais para que o vínculo com o tratamento do HIV não seja rompido. É nesse ponto que o dado apresentado na AIDS 2026 deixa de ser apenas um resultado científico e passa a orientar política pública.



Por Midia Ninja

Share This Article
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *