9 de setembro de 2026
Ser Mangueira é pertencer
A Mangueira é pertencimento, memória e identidade, celebrados na força de Oyá e na união da comunidade
Existem lugares que a gente conhece. E existem lugares aos quais a gente pertence. A Mangueira é desses lugares que não se explicam apenas pela geografia. Ser Mangueira é carregar uma identidade, uma memória e uma história que atravessam gerações.
É difícil explicar para quem está de fora o que significa vestir o verde e o rosa. Não é apenas uma escolha, é um sentimento. É reconhecer-se em uma comunidade e entender que, quando a Mangueira canta, dança e ocupa a Avenida, existe muito mais do que um desfile acontecendo: é um povo contando a própria história.
Talvez seja esse o maior patrimônio de uma escola de samba: a capacidade de fazer com que tantas pessoas diferentes se reconheçam como parte de uma mesma coisa. Na Mangueira, o pertencimento não apaga as diferenças, muito pelo contrário. É justamente a soma de tantas histórias, vozes e trajetórias que constrói essa identidade tão particular.
E há algo profundamente bonito em saber que essa história foi construída por muitas mãos. Pelas mãos dos nossos mestres, dos nossos compositores, dos nossos artistas, dos nossos ritmistas e, também, por tantas mulheres que, geração após geração, ajudaram a manter viva a alma da escola. O feminino também habita a Mangueira, e talvez esteja justamente nessa capacidade de cuidar, criar, resistir e transformar.
É impossível falar de Oyá sem pensar nessa força que movimenta, transforma e não se curva diante das dificuldades. Oyá é vento, tempestade, mudança. É a mulher que não aceita que lhe digam onde pode chegar.
E talvez tenha sido o vento de Oyá que atravessou a nossa quadra no último sábado. A escolha do nosso samba-enredo foi muito mais do que uma final: foi uma catarse. Houve um momento em que já não existiam lados, parcerias ou disputas. Existia a Mangueira. Uma quadra inteira cantando, chorando, se abraçando e pulsando como se tivesse um só coração. Olhar para aquele mar verde e rosa e ouvir milhares de vozes se tornando uma única voz foi sentir, na pele, o verdadeiro significado da palavra pertencimento. Naquela madrugada, entre lágrimas, batuques e emoção, a Mangueira nos lembrou que somos parte de algo muito maior do que cada um de nós. E é por isso que certas noites não terminam quando o dia amanhece: elas ficam para sempre na nossa história e dentro da gente.
Ser Mangueira é ter orgulho de uma história que não começou com a gente e que também não terminará em nós. É receber uma herança e, ao mesmo tempo, assumir o compromisso de entregá-la adiante. Por isso, quando penso na Mangueira, penso menos em uma escola de samba e mais em uma forma de existir. Uma maneira de olhar para o mundo sabendo de onde viemos e reconhecendo a força de caminhar juntos.
Porque a Mangueira não é apenas um lugar onde estamos, é um lugar que está em nós. E talvez seja isso que explique o orgulho que sentimos quando dizemos, simplesmente: eu sou Mangueira.
