Por Helô Alves
O ator Selton Mello recebeu o Troféu Kikito de Cristal na noite desta quarta-feira (19), durante o 54º Festival de Cinema de Gramado (RS). A homenagem marcou o retorno do ator ao Festival após 15 anos, a última vez em que esteve por lá foi em 2011, quando abriu a mostra com “Palhaço”.
Visivelmente emocionado, Mello dedicou o prêmio à memória dos pais, cujos nomes inspiraram até sua própria identidade. “O nome da minha mãe é Selva, e o nome do meu pai é Dalton. É por isso que eu me chamo Selton, uma mistura dos dois nomes”, contou o ator.
A mãe dele, Selva, morreu há dois anos em decorrência do mal de Alzheimer. O pai, Dalton, faleceu há pouco mais de um mês. “Cinema é guardar memórias. Foi exatamente isso que minha mãe perdeu. Meu pai certamente estaria aqui hoje”, disse Mello.
O ator também relembrou sua relação com Paulo José, que interpretou seu pai em “Palhaço” e foi quem lhe entregou o troféu da cidade de Gramado em 2011. “Sou um ator antes e depois do Paulo José”, afirmou, definindo o colega, já falecido, como “o rei do minimalismo” do cinema brasileiro.
Mello citou ainda que o primeiro artista a receber o Kikito de Cristal foi o cineasta Eduardo Coutinho. Para ele, o reconhecimento representa continuidade: “Ganhar um prêmio não é uma coisa pessoal. Isso significa continuidade. Eu sou porque eles foram, eu sigo porque eles são.”
O ator também defendeu maior reconhecimento a cineastas que considera pouco celebrados em comparação a nomes do Cinema Novo. Ele citou Rogério Sganzerla e Júlio Bressane como referências que, na sua avaliação, deveriam ter mais visibilidade. “Eles têm que ser muito mais celebrados do que são”, afirmou.
Durante o discurso, o ator criticou o que chamou de crueldade de uma indústria que privilegia sempre os nomes novos em detrimento de talentos históricos. Ele citou artistas como Darlene Glória, Rolando Boldrin, Moacyr Franco e Jorge Loredo como exemplos. “Por que Rolando Boldrin nunca mais foi chamado para atuar, sendo um dos maiores atores do Brasil?”, questionou.
Segundo o ator, a homenagem também ganhou um significado especial por ter ocorrido um dia depois da morte das atrizes Glória Menezes e Laura Cardoso, mencionadas por ele durante a fala. “A memória da gente é fraca. Por isso é importante seguir contando nossa história, para não cometer os mesmos erros”, disse.
A homenagem a Selton Mello integrou a programação da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado (RS), que segue nesta quinta-feira (20) com a entrega do Troféu Kikito de Cristal a Maria Fernanda Cândido, a exibição de “Nosso Segredo”, de Grace Passô, e o encerramento da Mostra Competitiva de Documentários Brasileiros, com “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade”.
Confira o discurso na íntegra:
