A música de Eddie Pimentel nasceu de encontros. Entre o Brasil e Los Angeles, entre a canção brasileira e o blues, entre referências que, à primeira vista, poderiam parecer distantes. Depois de quase duas décadas compondo, gravando e pesquisando música, o guitarrista diz ter chegado ao ponto que considera mais difícil: encontrar um som que reconheça como seu.
“Eu acredito que conquistei o mais difícil, que foi extrair o som que eu sempre imaginei. Reuni os elementos que mais me inspiraram e consegui transformá-los em uma linguagem própria, tanto na composição quanto na gravação”, afirma.
Essa busca atravessa os dois projetos que Eddie desenvolve em 2026. Depois da primeira turnê solo internacional e dos lançamentos do álbum One Way Home e do EP natalino 0:00am Merry Christmas, ele voltou ao estúdio para trabalhar em dois novos projetos. O primeiro deles é o EP Juno Back to the 80’s, feito em parceria com a cantora Roberta Spindel e lançado no dia 3 de agosto. No segundo semestre, a parceria é com a cantora britânica Michelle John. Os dois trabalhos têm produção do norte-americano Tim Carmon (Paul McCartney).
Embora partam de universos diferentes — o gospel e a música brasileira —, os projetos mantêm elementos que acompanham Eddie desde o início da carreira: o blues, o soul e uma maneira de produzir construída entre o Brasil e Los Angeles.
Na prática, sua música aproxima harmonias da canção brasileira, guitarras inspiradas no blues norte-americano, letras em inglês e uma forte presença instrumental. O resultado é um repertório que não se acomoda facilmente em um único gênero.
Eddie lembra que essa mistura começou a fazer mais sentido quando percebeu que suas referências não precisavam permanecer separadas.
“Pat Metheny me mostrou que era possível unir diferentes universos musicais. Quando o vi tocando com Milton Nascimento, entendi que essa mistura podia ser a essência de um artista, e não apenas uma influência.”
Reconhecido como Guitarist of the Year pelo Musicians Institute, em Los Angeles, o músico passou a construir sua identidade também a partir das pessoas com quem divide o estúdio. Em vez de trabalhar sobre uma sonoridade completamente fechada, costuma deixar espaço para que cada músico contribua com sua própria linguagem.
Em 2026, esse processo passou a contar também com a Mano Tamo Produções, de Petrópolis, comandada pelo produtor, baterista e empreendedor cultural André Amon. A parceria envolve os próximos trabalhos de Eddie, da produção musical às gravações e ao desenvolvimento artístico.
Juno Back to the 80’s
No encontro com Roberta Spindel, Eddie volta seu olhar para a música brasileira sem deixar de lado a sonoridade construída durante os anos em Los Angeles.
Conhecida pelo álbum Dentro do Meu Olhar (2011), gravado na Califórnia com participações de Vinnie Colaiuta e Caetano Veloso, Roberta divide os vocais com Eddie em um repertório de três faixas.
A instrumental “Juno Back to 80’s”, composta por Eddie Pimentel e Bernardo Sena, parte do refinamento das produções de Quincy Jones. Já “Family From Other Life” nasceu das experiências de Eddie durante o período em que viveu em Los Angeles e trata dos vínculos construídos longe de casa.
O EP termina com uma releitura de “Driftin’ Blues”, clássico de Charles Brown. A faixa reúne Gorden Campbell (Whitney Houston) na bateria, Courtney Leonard (Beyoncé) no baixo e Tim Carmon nos teclados.
No Brasil, Regis Alves (baixo), Rodrigo Fiorini (teclados) e André Amon (bateria) completam a formação. São músicos que ajudam a levar para os estúdios brasileiros uma sonoridade construída por Eddie ao longo dos anos, entre o Rio de Janeiro e Los Angeles.
Michelle John leva o gospel ao repertório
No segundo projeto, Eddie se aproxima do gospel ao lado da cantora britânica Michelle John. Conhecida por turnês com Eric Clapton, Celine Dion, Mariah Carey e Andrea Bocelli, além da participação no The Voice UK, Michelle divide com o guitarrista um repertório de três faixas.
Entre elas está uma nova leitura de “Love Sneakin’ Up On You”, sucesso de Bonnie Raitt, além das inéditas “Vacations In My Hometown”, composta por Eddie, e “Sooner Than You Think”, escrita em parceria com Michelle.
O encontro aproxima o soul do gospel contemporâneo, mas mantém a guitarra no centro da sonoridade. É outra maneira de explorar a mesma linguagem que Eddie vem construindo nos últimos anos, agora atravessada pela voz e pela experiência de Michelle.
De Los Angeles ao primeiro álbum
Antes desses novos projetos, 2024 havia colocado Eddie diante de uma experiência que vinha sendo construída há anos. Depois de concluir as gravações em Los Angeles, o guitarrista carioca lançou seu primeiro álbum, One Way Home, produzido por Tim Carmon, tecladista de Eric Clapton. Em dezembro, voltou ao estúdio para o EP natalino 0:00am Merry Christmas, também gravado na Califórnia.
One Way Home reúne oito composições autorais e duas releituras, além de interlúdios instrumentais inspirados no período em que Eddie viveu nos Estados Unidos. O disco foi gravado ao lado de músicos como Gorden Campbell, Courtney Leonard, Charlean Carmon e Sydne Rose-Myett, que já trabalharam com nomes como Whitney Houston, Beyoncé e Stevie Wonder.
“Para mim, esse álbum representa uma das maiores conquistas da minha carreira. Tocar e gravar com músicos que sempre admirei era um objetivo que carreguei durante muitos anos.”
A história do disco também passa por encontros que começaram muito antes de sua gravação. Eddie atribui parte desse percurso ao incentivo recebido de Nathan East ainda no início dos anos 2000 e ao encontro com Tim Carmon, anos depois, que acabou levando à produção do álbum.
“Desde o incentivo do Nathan East até o apoio do Tim Carmon, cada etapa fez diferença. Gravar com essa banda foi decisivo para alcançar o resultado que eu imaginava.”
Depois do lançamento, as músicas saíram do estúdio e ganharam os palcos. A primeira turnê internacional de Eddie passou pelo Mississippi Delta Blues Bar, no Rio de Janeiro, pelo Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, onde encerrou a programação abrindo o show de Richard Bona e dividindo o palco com Big Joe Manfra, além do Blue Note Rio, do Polo Gastronômico de Macaé e do Hard Rock Cafe Curitiba, com participação da gaitista Indiara Sfair.
Na Argentina, Eddie e Tim Carmon chegaram ao Makena Club acompanhados por uma banda local, formada por German Pena, no baixo, e León, na bateria. A passagem por Buenos Aires também incluiu um workshop sobre composição, produção e mercado musical na EMBA (Buenos Aires Music School), com participação do baterista Sonny Emory.
O último show aconteceu no Café Berlin. Mais do que encerrar uma sequência de apresentações, a viagem levou para fora do estúdio uma sonoridade que Eddie vinha construindo havia anos — e que continuaria se desdobrando nos projetos seguintes.
