Por Renan Paiva
O futebol brasileiro gosta de se apresentar como uma paixão nacional. A frase está em camisas, em campanhas publicitárias, em discursos de dirigentes. Mas essa paixão, durante décadas, teve gênero, endereço e limite bem definidos. O Maracanã, “templo sagrado do futebol”, foi erguido como monumento de uma cultura que reservava às mulheres apenas o lugar de plateia.
O primeiro jogo da Seleção Feminina no estádio só aconteceu em 20 de julho de 2007, nos Jogos Pan-Americanos do Rio. O Brasil goleou o Canadá por 7 a 0. Seis dias depois, derrotou os Estados Unidos por 5 a 0 na final e ficou com o ouro diante de um Maracanã lotado.
A demora não é detalhe de calendário. Ela expõe a estrutura de um esporte que aprendeu a chamar de “tradição” aquilo que, na prática, era exclusão institucionalizada.
Um estádio que não era para elas
Quando o Maracanã foi inaugurado, em 1950, mulheres eram proibidas por lei de jogar futebol no Brasil. Desde 1941, um decreto, assinado por Getúlio Vargas, vetava às mulheres a prática de esportes considerados incompatíveis com sua “natureza”. A norma só foi revogada em 1979, e o futebol feminino levou mais quatro anos para ser regulamentado, em 1983. Foram 42 anos de proibição.
Enquanto meninos formavam times e sonhavam com estádios, meninas eram empurradas para fora dos campos. Não se tratava só de proibir partidas: era uma maneira de impedir a formação de uma memória esportiva, de uma infraestrutura, de uma geração de referências. Décadas depois, essa mesma ausência serviria de argumento contra elas. Se não estavam no Maracanã, dizia-se que não havia interesse. Se não havia interesse, não havia por que investir.
O espetáculo que não era reconhecimento
Mesmo sob proibição, mulheres apareceram ocasionalmente em gramados de grandes estádios. Nos anos 1950 e 60, os chamados “jogos das vedetes” reuniram atrizes de teatro de revista em partidas beneficentes no Maracanã e no Pacaembu, um dos registros mais documentados é de agosto de 1959, no estádio paulista. Eram eventos capazes de encher arquibancadas, mas não representavam reconhecimento de mulheres como atletas: a atração estava na transformação de corpos femininos em espetáculo, não na competição em si.
Essa distinção segue relevante. O problema nunca foi simplesmente permitir que mulheres pisassem no gramado. Era aceitar que fossem donas da técnica, da disputa e da narrativa. A lógica não desapareceu com a regulamentação, só assumiu outras formas: salários menores, calendário incerto, cobertura escassa e perguntas que deslocam o foco do desempenho para a aparência ou a vida pessoal das atletas.
O ouro que ninguém esperava
A Seleção de 2007 chegou ao Pan-Americano como prata olímpica de Atenas 2004, com um grupo que reunia Marta, Cristiane, Formiga, Aline Pellegrino, Daniela Alves, Renata Costa e Tânia Maranhão, entre outras. O ouro no Rio não foi milagre: foi fruto de talento, de um período de concentração mais longo e de uma mistura entre veteranas e jovens.
A narrativa do “inesperado”, porém, também merece ser questionada. O público pode ter se surpreendido com o estádio cheio — mais de 70 mil pessoas, segundo relatos de quem esteve em campo —, mas as jogadoras não chegaram ali por acaso. Elas já carregavam anos de viagens, derrotas e resistência. O espanto não estava na capacidade das atletas. Estava na incapacidade das instituições de enxergar o que elas vinham construindo havia tempos.
O estádio cheio funcionou como uma espécie de autorização pública, como se a competência delas precisasse ser validada por uma audiência excepcional para ser levada a sério. O problema é que o direito ao esporte não deveria depender de uma ocasião extraordinária, nem o interesse do público deveria precisar de prova por goleada.

A marca de Marta e a memória que quase se perdeu
Depois do Pan de 2007, Marta se tornou a primeira mulher a deixar a marca dos pés na Calçada da Fama do Maracanã. Mas, entre 2010 e a reabertura do estádio para a Copa de 2014, a peça de gesso desapareceu junto com boa parte do acervo — de cerca de cem homenagens, restaram só 28. Marta voltou ao estádio em 2018, já eleita seis vezes melhor do mundo pela Fifa, para refazer o registro, agora em material permanente.
O episódio é simbólico porque mostra como a memória feminina no esporte segue vulnerável. Monumentos podem ser removidos, partidas deixam de ser transmitidas, nomes desaparecem das narrativas oficiais. Lembrar o primeiro jogo da Seleção no Maracanã é lembrar também quem não teve a chance de jogar ali, atletas proibidas, ridicularizadas ou relegadas a campeonatos amadores enquanto a lei ainda vetava seus corpos em campo.
2016: visibilidade não é igualdade
A Seleção voltou ao Maracanã nos Jogos Olímpicos de 2016. A expectativa era de ouro em casa. O sonho terminou na semifinal, contra a Suécia: empate sem gols no tempo normal e na prorrogação, derrota por 4 a 3 nos pênaltis, com a goleira sueca Hedvig Lindahl defendendo as cobranças de Cristiane e Andressinha.
A eliminação não diminui o valor daquela campanha. Mas ela mostrou algo incômodo: um estádio pode receber dezenas de milhares de torcedores e, ainda assim, a modalidade seguir vulnerável assim que as luzes se apagam. Depois de 2016, a Seleção não voltaria a jogar no Maracanã por mais de uma década.
O Maracanã de 2027
Essa década termina em 2027. A Fifa divulgou nesta semana o calendário completo da Copa do Mundo Feminina, que o Brasil sediará entre 24 de junho e 25 de julho de 2027 — a primeira edição do torneio na América do Sul. A Seleção estreia no próprio Maracanã, no dia da abertura, antes de completar a fase de grupos em São Paulo e Brasília.
O estádio carioca não recebe só a estreia: também está reservado para uma partida das oitavas, em 11 de julho, para uma semifinal, em 21 de julho, e para a grande final, em 25 de julho. Com isso, o Maracanã se torna o primeiro estádio da história a sediar três finais de Copas do Mundo da Fifa — depois das masculinas de 1950 e 2014, ultrapassa o Råsunda, em Estocolmo, e o Rose Bowl, na Califórnia, que têm duas cada uma.
Antes mesmo do sorteio dos grupos, marcado para dezembro, cerca de 800 mil pessoas já se inscreveram na primeira fase de venda de ingressos.
A coincidência tem força simbólica: 20 anos separam o primeiro jogo da Seleção Feminina no Maracanã da abertura de um Mundial em casa. Em 2007, as jogadoras chegaram ao estádio como visitantes tardias de um espaço que deveria ter sido delas desde 1950. Em 2027, entram como anfitriãs do maior torneio do futebol feminino do mundo.
O que fica depois da Copa
Mas a Copa não pode ser só celebração de pertencimento. Precisa ser cobrança. O Brasil não deve sediar o Mundial para provar que sabe organizar um mês de festa — deve usá-lo para deixar estrutura que dure depois que as câmeras forem embora: mais campos, mais campeonatos regulares, mais transmissões, mais investimento nas categorias de base, em todas as regiões do país.
A pergunta decisiva não é se o Maracanã estará cheio em 2027. Depois de 2007, já sabemos que pode estar. A pergunta é o que acontece no ano seguinte — se o “país do futebol” vai continuar tratando o futebol feminino como evento sazonal, que interessa durante grandes torneios e desaparece no intervalo entre eles.
