Morreu Volmar Santos, fundador da Coligay, considerada a primeira torcida organizada assumidamente LGBTQIA+ do futebol brasileiro e uma das mais simbólicas da história do esporte no país. A morte de Volmar representa a perda de um personagem central na luta por visibilidade, dignidade e enfrentamento ao preconceito dentro e fora dos estádios.

Criada no final da década de 1970, em Porto Alegre, a Coligay surgiu em um contexto de forte repressão social, política e moral. Em plena ditadura militar, assumir-se LGBTQIA+ já era, por si só, um ato de coragem. Levar essa identidade para as arquibancadas, território tradicionalmente marcado pelo machismo e pela violência simbólica, foi um gesto ainda mais radical. À frente desse movimento estava Volmar Santos, que transformou a presença da Coligay em um marco de resistência e afirmação.
Mais do que torcer pelo Grêmio, a Coligay desafiou padrões. Uniformizada, organizada e visível, a torcida passou a ocupar espaço nos estádios e na mídia, gerando reações que iam da curiosidade ao ódio declarado. Volmar Santos sustentou esse projeto mesmo diante de ataques, perseguições e tentativas de silenciamento, consolidando a Coligay como um símbolo de que o futebol também é espaço de diversidade.

A trajetória de Volmar e da Coligay atravessou décadas e foi resgatada por pesquisas, livros, documentários e reportagens que reconheceram sua importância histórica. Hoje, quando se discute diversidade, inclusão e combate à LGBTfobia no esporte, a Coligay é referência incontornável — e Volmar Santos, seu principal articulador, passa a ocupar definitivamente o lugar de pioneiro.

A morte de Volmar ocorre em um momento em que o futebol brasileiro ainda enfrenta enormes desafios no combate à discriminação. Casos recorrentes de LGBTfobia nas arquibancadas e nas redes sociais mostram que o legado da Coligay não pertence apenas ao passado, mas segue atual e necessário. Relembrar Volmar Santos é reafirmar que ocupar espaços, mesmo os mais hostis, é parte fundamental da luta por direitos.
Volmar Santos deixa um legado que ultrapassa o esporte. Sua história dialoga com a memória dos movimentos sociais LGBTQIA+ no Brasil e com a construção de uma cidadania que se faz também nos lugares onde, por muito tempo, disseram que não pertencíamos.
